O guitarrista que se sentiu ofendido ao ser convidado para entrar no Deep Purple
Por Bruce William
Postado em 25 de junho de 2026
Substituir Ritchie Blackmore no Deep Purple nunca foi exatamente uma tarefa para alguém com amor à própria paz interior. O guitarrista ajudou a criar o DNA da banda, escreveu riffs eternos e carregava aquela combinação perigosa de gênio musical, temperamento difícil e presença impossível de ignorar. Em 1993, quando ele deixou o grupo no meio de uma turnê, o problema não era apenas encontrar alguém capaz de tocar as músicas. Era encontrar alguém disposto a entrar no fogo.
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O escolhido foi Joe Satriani, que àquela altura já era um dos grandes nomes da guitarra instrumental. Virtuoso, respeitado e fã do Deep Purple desde garoto, ele parecia uma solução quase perfeita para uma crise que poderia ter derrubado a turnê. Mesmo assim, sua primeira reação não foi aceitar o convite e correr para o aeroporto.
Satriani contou que, quando recebeu a ligação para substituir Blackmore, recusou imediatamente. Não por desprezo ao Deep Purple, muito pelo contrário. O problema era justamente o tamanho da cadeira vazia. "Quando recebi a ligação para substituir Ritchie na banda, eu recusei na hora, porque pra mim ninguém poderia substituir Ritchie Blackmore. Não tem como."
A recusa, claro, não durou muito. A chance de tocar com Ian Gillan, Roger Glover, Jon Lord e Ian Paice falou mais alto. Satriani sabia que entraria em território delicado, com fãs desconfiados e uma história pesada demais nas costas, mas aceitou a missão. "Claro que eu mudei de ideia, porque eu queria muito tocar com aqueles caras. Estava disposto a aguentar a ira dos fãs para subir no palco ou entrar numa sala e tocar com eles."

O prazo era absurdo. Satriani recebeu fitas de Roger Glover cerca de uma semana antes de viajar ao Japão para iniciar a turnê. Segundo ele, uma das gravações vinha de um show em que Blackmore havia saído no meio, o que deixava parte do material sem guitarra. Foi esse o ponto de partida para aprender um repertório que milhões de fãs conheciam nota por nota.
A estreia prática aconteceu em Tóquio, num ensaio em uma sala média e seca, sem o impacto natural de um palco grande. Mesmo naquele ambiente nada glamouroso, bastou a banda atacar "Highway Star" para Satriani entender onde havia se metido. "Eu não podia acreditar naquilo, porque mesmo naquela sala a banda soava exatamente como no 'Machine Head'! Eu pirei!"
A lembrança mostra como o susto de Satriani não vinha apenas da responsabilidade técnica. Ele estava diante de uma banda que fazia parte de sua formação como músico. O Deep Purple não precisava de cenário, luz ou plateia para soar como Deep Purple. A máquina ainda estava lá, funcionando com a mesma força que havia marcado discos clássicos dos anos 1970.
Satriani ficou impressionado também com o tratamento recebido. Ele destacou a musicalidade dos integrantes, a gentileza e o fato de terem aceitado "este garoto de Long Island" em uma situação tão delicada. A frase tem certa modéstia, porque ele já era um guitarrista consagrado, mas ajuda a entender o tamanho simbólico daquele convite para alguém que cresceu ouvindo a banda.
O Deep Purple chegou a querer que Satriani permanecesse de forma definitiva, mas a ideia não avançou por questões contratuais com a gravadora do guitarrista. A vaga acabaria ficando com Steve Morse, que assumiu o posto em 1994 e iniciou uma longa fase ao lado do grupo. E a passagem de Joe Satriani pelo Purple virou um daqueles capítulos breves que dizem muito sobre todos os envolvidos. Para a banda, foi uma solução elegante em meio ao caos. Para Satriani, foi a chance de tocar com heróis sem fingir que Blackmore era substituível. Ele entrou sabendo que não ocuparia o lugar de Ritchie. Apenas segurou a guitarra enquanto a tempestade passava.
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