A virada de bateria com base nos Beatles que impressionou Jimi Hendrix
Por Bruce William
Postado em 24 de junho de 2026
Jimi Hendrix costumava ser o sujeito que deixava os outros tentando acompanhar. Em plena segunda metade dos anos 1960, quando a música parecia mudar de roupa a cada mês, ele colocou a guitarra elétrica num ponto em que muita gente ainda nem sabia que era possível chegar. O desafio para quem estava ao redor era simples só na aparência: sustentar a tempestade sem atrapalhar o raio.
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O Jimi Hendrix Experience tinha essa função ingrata e fascinante. Noel Redding e Mitch Mitchell precisavam dar chão a um músico que podia mudar a direção de uma frase no meio do caminho, puxar a canção para outro clima e tratar o palco ou o estúdio como laboratório. Hendrix tinha uma liberdade quase jazzística, mas sem perder o impacto físico do rock. A banda precisava segurar a estrutura e, ao mesmo tempo, estar pronta para reagir ao improviso.
No estúdio, essa missão ganhava outra camada. Não bastava registrar o que Hendrix tocava. Era preciso organizar aquelas ideias, espalhar sons, criar profundidade e transformar experimentação em música que ainda funcionasse como canção. A chegada do estéreo ajudou muito nesse processo. Para um artista como Hendrix, o estúdio deixou de ser apenas uma sala de gravação e virou uma extensão do instrumento.
Um nome fundamental nessa história foi Eddie Kramer. O engenheiro trabalhou com Hendrix justamente no período em que efeitos, panorâmicas e manipulações de som começavam a abrir novas possibilidades dentro do rock. Em vez de deixar tudo parado no centro, Kramer podia mover guitarras, brincar com fases e criar uma sensação quase tridimensional na mixagem.
Ele lembraria depois que aquele contato com Hendrix também mudou sua própria cabeça, conforme publicado na Far Out. "Acho que foi quando eu realmente comecei a expandir meus horizontes musicais. Quando Jimi fazia solos, eu adorava poder movê-los de um lado para o outro e experimentar diferentes efeitos de fase."
Mas a relação não era de mão única. Se Kramer precisava dar conta da imaginação de Hendrix, Hendrix também podia ser surpreendido pelas soluções do engenheiro. Um dos momentos mais marcantes aconteceu em "Bold as Love" (youtube), faixa que encerra o disco "Axis: Bold as Love", lançado em 1967. No meio da música, há uma passagem de bateria em que o som parece começar a girar dentro do estéreo. Não é apenas um instrumento jogado para a esquerda ou para a direita, como no pan tradicional; é um efeito de fase, criado quando sinais quase iguais se sobrepõem com uma pequena defasagem. O resultado é aquela sensação ondulante, psicodélica, como se a bateria atravessasse a cabeça de um lado a outro.
Kramer contou que aquele trecho teve um impacto enorme em Hendrix quando ele ouviu o resultado. "Na verdade, sabe aquela virada de bateria no meio de 'Bold as Love', onde o efeito de fase entra pela primeira vez? Aquilo foi uma parte monumental para Jimi quando ele testemunhou." A ideia não surgiu num vácuo. Eles haviam percebido que os Beatles também vinham usando esse tipo de recurso, embora ainda em mono naquele momento. Kramer e Hendrix levaram a brincadeira para outro terreno, usando o estéreo como parte da experiência psicodélica. Era menos um enfeite e mais uma forma de fazer a música parecer em movimento.
O detalhe inverte um pouco a imagem habitual. Hendrix era o gênio que assombrava os outros músicos, mas também se encantava quando alguém lhe mostrava uma porta nova dentro do som. Em "Bold as Love", a guitarra segue brilhando, claro. Só que, por alguns segundos, é a bateria tratada no estúdio que parece abrir o chão da faixa.
Esse tipo de descoberta ajuda a explicar por que Hendrix não foi apenas um grande guitarrista. Ele entendeu que o rock podia ser ampliado por pedais, amplificadores, fitas, salas, mesas de som e mãos criativas na engenharia. A virada de bateria em "Bold as Love" é pequena perto da mitologia que cerca seu nome, mas carrega uma pista preciosa: até Hendrix podia ser derrubado por uma boa ideia sonora.
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