O clássico do Kiss que foi inspirado na trágica morte de um fã
Por João Renato Alves
Postado em 24 de junho de 2026
Abertura do álbum "Destroyer" (1976), "Detroit Rock City" foi a segunda música mais tocada pelo Kiss em toda a carreira – atrás apenas de "Rock and Roll All Nite". A composição contrasta seu ritmo pulsante e energético com uma letra que descreve um trágico e real fato: a morte de um fã a caminho de um show da banda.
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O vocalista e guitarrista Paul Stanley relembrou o contexto à Classic Rock. "Em uma turnê anterior, alguém se acidentou de carro e morreu do lado de fora da arena em que tocávamos. Lembro-me de pensar como é estranho que alguém possa estar a caminho de algo que é, na verdade, uma festa e uma celebração da vida, e morrer justamente nesse trajeto. Então, isso serviu de base para a letra."
A arma secreta do grupo – não apenas para a canção, mas para todo o seu quarto disco – foi o produtor Bob Ezrin. Já conceituado pela parceria com Alice Cooper, o canadense promoveu uma reeducação artística do quarteto, inserindo conceitos teóricos e oferecendo novas possibilidades.
E não, apesar do que você possa ter lido na internet, não é o baixista e vocalista Gene Simmons quem faz o papel do repórter de rádio no início, mas o próprio Ezrin, como lembrou o engenheiro de Corky Stasiak. "Passamos a voz dele por um radinho portátil e gravamos o som saindo dali. Se você ouvir essa abertura com fones de ouvido, tem a sensação inquietante de que tudo aquilo está acontecendo ao seu redor."
Além da tragédia narrada, "Detroit Rock City" também era uma homenagem à cidade que dava nome à música. Foi lá - e não em Nova York, sua terra natal - que o Kiss conquistou a maior público no início da carreira. Em retribuição, a banda presenteou a "Motor City" com seu próprio hino do rock. "A primeira cidade que abriu os braços e as pernas para nós", como Stanley brincou na época.
Incentivada por Bob Ezrin, a faixa foi uma homenagem à altura: uma música veloz e explosiva, impulsionada por uma linha de baixo extraída de "Freddie's Dead" - clássico do gênero "blaxploitation" de Curtis Mayfield - e marcada pelo icônico solo de guitarra em dueto de Stanley e Ace Frehley.
O solo, com seu toque e estilo de flamenco espanhol, foi uma ideia do produtor. "Eu compus o solo de guitarra de 'Detroit Rock City'. Já tínhamos visto a introdução e conhecido os personagens, era hora de criar um pouco de tensão com um momento de grande dramaticidade. Senti que aquela era a sequência em que ele estava dirigindo, e que essa seria a música de fundo ideal para a cena. Criei aquilo mentalmente, acho que nem cheguei a pegar um instrumento. Não é exatamente algo original. É basicamente um tema de flamenco à moda antiga adaptado para o hard rock. E não é porque eu seja formado em musicologia; foi apenas a minha interpretação da trilha sonora de 'Gladiador'."
Paul confirma e faz justiça. "Bob cantou aquele solo nota por nota e depois pediu ao Ace que o aprendesse, incluindo a harmonia. A batida da bateria, a linha de baixo... tudo aquilo foi realmente obra do Bob."
O Starchild também enfatizou o fato de a canção ter sido escolhida para abrir o álbum, assim como o ao vivo do ano seguinte, "Alive II" (1977). Também ocupou a posição em várias turnês posteriores. "Era uma espécie de cartão de visitas do Kiss. Sempre acreditei que os discos - especialmente os nossos - deveriam começar com uma música que captasse o espírito do que se ouviria no restante da audição. 'Detroit Rock City' cumpriu exatamente esse papel em 'Destroyer'."
A surpresa para a banda veio quando as estações de rádio receberam o single em julho de 1976 e viraram o disco para tocar a balada de Peter Criss, "Beth" (o lado B ). O Kiss emplacou um sucesso inesperado com uma música diferente, que chegou à 7ª posição na Billboard Hot 100 e se tornou o maior êxito comercial da banda nos Estados Unidos em toda a carreira.
Mais de duas décadas depois, "Detroit Rock City" deu nome a uma comédia produzida por Gene Simmons, que acompanhava um grupo de adolescentes dos anos 1970 tentando entrar de penetra em um show do Kiss. Descrito pelo New York Times como uma "comédia promocional cansativa", o filme fracassou nas bilheterias, mas não diminuiu o entusiasmo legítimo do linguarudo – em todos os sentidos – pela música original.
"É uma espécie de hino nacional do rock and roll, por assim dizer. Claro, 'Rock 'N' Roll All Nite' é uma celebração - e também é a música que o Kiss mais tocou ao vivo -, mas há algo em 'Detroit Rock City' que simplesmente remete à essência da América profunda."
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