O álbum do Radiohead que Thom Yorke comparou aos Beatles; "podemos fazer o que quisermos"
Por Bruce William
Postado em 21 de junho de 2026
Depois de "OK Computer", o Radiohead poderia ter seguido o caminho mais óbvio. A banda havia se tornado um dos nomes mais importantes do rock dos anos 1990, com guitarras dramáticas, letras paranoicas e uma visão de futuro que parecia assustadoramente próxima. A pressão natural seria fazer uma continuação reconhecível, talvez maior, talvez mais limpa, talvez pronta para confirmar o posto conquistado.
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Mas "Kid A", lançado em 2000, fez quase o oposto. As guitarras perderam espaço, os sintetizadores cresceram, as estruturas ficaram mais quebradas e a voz de Thom Yorke passou a circular por ambientes gelados, eletrônicos e fragmentados. Para quem esperava outro "OK Computer", o disco podia soar como uma porta fechada na cara.
Yorke não via aquilo apenas como uma tentativa de confundir o público. Para ele, o Radiohead estava tentando atravessar paredes internas. A banda passou a trabalhar com loops, texturas, ritmos, colagens e ideias que nem sempre pareciam nascer de uma canção tradicional. Era menos uma sequência e mais uma fuga controlada.
Ao falar desse período, Yorke fez uma comparação inesperada com os Beatles. Conforme a Far Out, ele citou o material sobre "Let It Be", especialmente o momento em que o grupo aparece trabalhando no porão da Apple. "Era o espaço deles, e você consegue vê-los ganhando confiança", disse. "Eu me identifiquei muito com aquilo, tipo: 'Certo, finalmente temos nosso próprio espaço. Finalmente podemos fazer o que quisermos'."
O paralelo do "Kid A" com "Let It Be" está no ambiente: uma banda enorme tentando entender o que fazer com a própria liberdade. No caso dos Beatles, havia tensão, cansaço e uma história chegando perto do fim. No Radiohead, havia o trauma de ter se tornado uma banda grande demais para repetir a fórmula que a havia levado até ali.
Essa liberdade aparece logo em "Everything in Its Right Place", que abre o disco sem gesto clássico de banda de rock. "Idioteque" parece uma música de pista de dança observada por alguém em pânico. "How to Disappear Completely" ainda guarda uma beleza mais próxima do Radiohead antigo, mas envolta numa sensação de desaparecimento. O álbum inteiro parece fugir da obrigação de soar acolhedor.
Na época, "Kid A" dividiu ouvintes justamente por isso. Parte do público viu coragem. Outra parte ouviu frieza, distanciamento e excesso de abstração. O tempo acabou favorecendo o disco, que passou a ser tratado como uma das grandes viradas criativas do rock no começo do século 21. E Yorke não descreveu aquele momento como gesto calculado de genialidade. Falou mais como alguém lembrando um período de tentativa, convivência e acúmulo de ideias. "As coisas meio que aconteceram apesar de nós, e não por causa de nós", disse ele.
Talvez seja aí que a comparação com os Beatles faça mais sentido. "Kid A" nasceu de uma banda tentando descobrir o que ainda podia ser quando já havia provado quase tudo dentro de sua linguagem anterior. O Radiohead não queria apenas administrar a vitória de "OK Computer". Queria encontrar uma sala própria, fechar a porta e ver que tipo de criatura sairia dali.
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