O hábito "infantil" que Keith Richards abandonou para continuar na ativa
Por Bruce William
Postado em 21 de junho de 2026
Durante décadas, Keith Richards pareceu viver como se fosse personagem de uma história que ninguém recomendaria imitar. Drogas, álcool, cigarros, quedas, internações, lendas absurdas e turnês intermináveis foram se acumulando ao redor dele até formar a imagem de um roqueiro quase indestrutível. O próprio Keith ajudou bastante a alimentar essa mitologia.
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Só que até uma lenda dos Rolling Stones chega a uma idade em que o corpo começa a negociar em termos menos românticos. Aos 82 anos, o guitarrista ainda grava, toca e fala sobre música com entusiasmo, mas já não trata seus velhos excessos como se fossem apenas parte natural do trabalho.
Em entrevista ao Guardian, Richards disse que aprendeu a reduzir o ritmo para continuar seguindo. "Eu tendia a ouvir meu corpo pouco antes de ele gritar por socorro", afirmou. "Quero dizer, eu não estava longe do fim da pista antes de gritar por ajuda. Mas você tende a desacelerar se quer continuar; você se controla."
Uma das mudanças mais simbólicas foi abandonar os cigarros. Keith contou que parou de fumar há cerca de seis anos, depois de uma vida inteira com o hábito grudado à sua imagem. A decisão não veio apenas de uma preocupação médica direta, mas também de uma percepção quase ridícula sobre o gesto em si. "De repente, depois de todos esses anos fumando, eu estava sentado com aquela coisinha boba na boca pensando: 'que infantil'", disse, em fala republicada na Far Out. "Foi isso que me afastou mais do que qualquer outra coisa, embora eu fume muita maconha."
O comentário tem a cara de Keith Richards: uma confissão séria escondida dentro de uma piada. Ele não aparece convertido em pregador de vida saudável, nem tenta apagar o passado. Apenas admite que, em algum momento, o velho ritual perdeu o encanto e passou a parecer uma cena repetida por tempo demais.
A mudança também não significa uma aposentadoria comportada. Richards ainda fala de bebida com a velha ironia e brinca que agora é "só uma tonelada de heroína por dia", frase que funciona justamente porque seu histórico torna qualquer piada desse tipo quase inacreditável. O exagero virou parte do personagem, mas a sobrevivência passou a exigir algum senso de medida.
O mais curioso é que o abandono do cigarro não diminui a figura de Keith. Pelo contrário, acrescenta uma camada estranha ao mito: o homem que parecia ter escapado de todas as consequências agora reconhece que continuar vivo também exige abrir mão de algumas poses. Até para ele, em algum momento, a rebeldia precisou ceder espaço à manutenção da máquina.
Keith Richards não virou exemplo de disciplina. Seria até ofensivo à biografia dele fingir isso. Mas largar um hábito de décadas porque ele começou a parecer "infantil" diz muito sobre envelhecer sem perder completamente o humor. O riff ainda está lá. A fumaça é que, pelo menos a do cigarro, saiu de cena.
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