O controvertido álbum dos anos setenta que Roger Waters colocou entre seus cinco favoritos
Por Bruce William
Postado em 04 de julho de 2026
Roger Waters nunca foi exatamente conhecido por esconder opiniões. Ao longo das décadas, o ex-Pink Floyd se acostumou a usar entrevistas, shows e discos como extensão de suas convicções, para alegria de uns e irritação profunda de outros. Mas, quando o assunto é música, há um ponto em que sua admiração costuma aparecer com menos discurso e mais espanto: a capacidade de um compositor se expor sem se proteger atrás da grandiosidade.
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É por isso que um álbum de John Lennon lançado em 1970 tem lugar especial para Waters. Segundo a Far Out, o músico afirmou que "John Lennon/Plastic Ono Band", primeiro disco solo do ex-Beatle após o fim da banda, "sempre estará no meu top 5".
Não é uma escolha difícil de entender. O álbum tem pouco verniz, pouca vontade de agradar e muita ferida aberta. Lennon gravou o disco em um momento de ruptura. Os Beatles haviam acabado, a imagem pública ainda era gigantesca, mas o homem por trás dela parecia empenhado em desmontar a própria mitologia. Ao lado de Yoko Ono, ele havia passado pela chamada terapia do grito primal, conduzida pelo psicólogo Arthur Janov, e levou para as canções uma busca quase brutal por infância, perda, abandono e identidade.
"Mother", faixa de abertura, resume esse espírito. A música encara a morte da mãe de Lennon, Julia, atropelada quando ele era adolescente, e a ausência do pai, que deixou a família quando John ainda era criança. Não há ali a sofisticação colorida dos Beatles psicodélicos nem a leveza pop que muita gente esperava de um ex-integrante da maior banda do mundo. O que aparece é uma voz tentando atravessar o próprio trauma.
Waters destacou justamente esse impacto. Em outra ocasião, ele disse que o disco o deixou atordoado: "Me derrubou quando ouvi. Não lembro onde eu estava, mas consigo lembrar com clareza absoluta. O final de 'Mother' é incrível". Para ele, a qualidade sonora daquele álbum tinha algo de novo, fresco e brilhante, comparável ao impacto de ouvir "Music From Big Pink", do The Band.
A identificação faz sentido. Waters sempre teve uma relação forte com discos em que a música não funciona apenas como entretenimento, mas como acerto de contas. "The Wall", por exemplo, também nasceu de isolamento, perda, ressentimento e tentativa de transformar dor em narrativa. A diferença é que Lennon fez isso com uma estrutura muito mais seca, quase sem cenário. Em vez de erguer um muro teatral, ele parecia cantar sentado diante dos escombros.
O próprio Lennon, em entrevista à Rolling Stone na época, dizia preferir o rock simples. Depois da fase psicodélica, ele queria voltar a uma forma direta de expressão. "Sempre gostei de rock simples. Fui influenciado pelo ácido e fiquei psicodélico, como toda a geração, mas, na verdade, gosto de rock and roll, e me expresso melhor no rock." Em "John Lennon/Plastic Ono Band", essa simplicidade não suaviza nada. Pelo contrário: deixa tudo mais exposto.
Para Waters, que sempre valorizou compositores dispostos a colocar a cabeça para fora, o disco de Lennon parece representar uma espécie de ideal: poucas defesas, pouca decoração e uma verdade emocional que não pede licença. Mais de meio século depois, é esse tipo de impacto que explica por que ele ainda o coloca entre seus cinco favoritos.
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