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Unearthly: a Era da Besta está instituída!

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Por Ben Ami Scopinho
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Uma existência que ultrapassa uma década, lutando para contornar as muitas e conhecidas dificuldades de um país como o Brasil... Este é um feito que somente os mais fortes dos conjuntos conseguem. Natural do Rio de Janeiro, o Unearthly está, com certeza, neste seleto grupo de persistentes.

Tendo em sua atual formação Eregion (voz e guitarra), Dennie Arawn (guitarra), M. Mictian (baixo) e Mauro Duarte (bateria), o atuante Unearthly está liberando seu quarto álbum, "Age Of Chaos", que apresenta algumas progressões em relação ao Black Metal de outrora. Aproveitando este lançamento, o Whiplash! conversou com M. Mictian, que deu uma geral na atual fase da banda.

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Whiplash!: Saudações, pessoal. Foi no ano de 2002 que o Unearthly estreou com "Infernum: Prelude To a New Reign". Decorrido todo este tempo, como vocês analisam seu primeiro passo na cena nacional?

M. Mictian: Foi gratificante poder lançar um álbum oficial porque sabíamos das dificuldades na época, e até hoje em dia também ainda é muito difícil. E realmente podemos traduzir isso como uma vitória, pois foi um álbum muito bem reconhecido pela mídia e pelo público, mesmo ele não tendo sido divulgado de maneira ampla. O "Infernum-Prelude To A New Reign" andou com suas próprias pernas e difundiu o nome Unearthly.

Whiplash!: Em 2007 vocês realizaram sua primeira turnê internacional, a "Unmercyful Personalized Bestiality". Vale realmente a pena esse tipo de excursão? Em que condições vocês tocaram nestes países?

M. Mictian: Fazer shows sempre é gratificante. O Unearthly adora estar nos palcos, é onde nos sentimos melhor, mas turnê tem de tudo. Alguns lugares e shows são bons e outros, ruins. Uns tem boa estrutura e em outros não, é uma faca de dois gumes. É claro que sempre queremos que todos sejam bons, mas infelizmente nem sempre isso acontece. Passamos por algumas situações ruins, mas foram poucas. Mas no final das contas foi gratificante, e conseguimos ainda extrair o disco ao vivo desta tour, o "Revelations Of Holy Lies... Live!".

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Whiplash!: Desde já considero "Age Of Chaos" como o ponto alto de sua discografia. O quanto o produtor Ciero e o Estúdio Da Tribo influenciaram na sonoridade final das novas canções?

M. Mictian: Concordo com você em relação ao "Age Of Chãos". Poderíamos ter gravado esse álbum aqui no Rio de Janeiro mesmo, até tínhamos entrado em contato com o estúdio, mas de repente Eregion (vocalista) veio com essa idéia de gravarmos em São Paulo, no Da Tribo. Eu já conhecia o estúdio através de outras bandas que gravaram com eles, e achei a idéia muito boa.

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M. Mictian: Além de ter estrutura, as pessoas que trabalham lá são experientes e queríamos nosso álbum com mais influências de Death Metal. Então decidimos fazer no Da tribo e com o produtor Ciero, que é um grande profissional e se tornou um grande amigo. Ele, com certeza, foi fundamental para que o disco ficasse do jeito que queríamos, sua experiência o deixou matador, sem dizer que o Eregion também ajudou na produção do álbum.

Whiplash!: O Unearthly militou no campo do Black Metal desde seus primórdios. Mas agora vocês abandonaram o corpse paint e seu novo álbum possui canções como "Commando XXI" e "Anthems, Marchs And Warsongs", que são fortemente influenciadas pelo Death Metal. Estes foram passos premeditados ou naturais para o desenvolvimento de sua Arte?

M. Mictian: Nunca neguei que ouvia todas as vertentes do Metal. Sempre tive um universo de estilos, eu diria que, até certo ponto, um mundo grandioso de influências. E cada canção que componho é um passo à frente, um degrau acima. É isso o que buscamos.

M. Mictian: Essas canções citadas são músicas maravilhosas, foi muito bom poder dar esse passo e eu seria falso comigo mesmo se continuasse fazendo sempre canções iguais, ficar repetindo, mesmo porque tudo isso foi uma evolução bem natural. É só você comparar o "Infernum", nosso primeiro álbum, com o "Black Metal Commando" (segundo disco). Lá já existe uma evolução bastante clara.

Whiplash!: Ainda sobre "Commando XXI"... Foi anunciado que esta composição é o primeiro passo para o sucessor de "Age Of Chaos". Poderia dar mais detalhes sobre isso?

M. Mictian: "Commando XXI" é uma canção que fala de guerra. Mas uma outra guerra, não a de nações ou religião. Fala sobre uma guerra por uma suposta ‘ideologia’, fala sobre violência urbana, as mazelas das guerras de facções e tráfico de drogas, mortes, miséria, fome e abandono... Temas recorrentes em minha vida...

M. Mictian: Poucas pessoas sabem, mas eu nasci numa favela do Rio de Janeiro, eu vivi e vi muita coisa, e quero exatamente isso, falar do que eu realmente sei. Tem gente que escreve sobre violência, mas a que eles lêem em jornais ou vêem pela TV estão muito longe da realidade. Eu vou falar de coisas que vivi, "Commando XXI" é um passo para isso, vamos falar da forma violenta de se viver ou morrer, de rituais de morte, guerras com a igreja, que é um grande parasita vivendo da miséria de outros, vendendo falsas esperanças a essas pessoas... Coisas reais.

Whiplash!: "Murder The Messiah" mostra sua batalha contra o Cristianismo. Mas até onde seria sensato separar os atos atribuídos a um personagem como Jesus, das ações perpetradas posteriormente pelas ditas igrejas cristãs?

M. Mictian: Eu acredito que, se realmente Jesus voltar, os próprios cristão irão crucificá-lo de novo (risos). É tudo uma grande farsa, todos eles. Se aparecer um homem dizendo que é Cristo, ninguém vai acreditar, nem seus seguidores. Eu acredito na liberdade, seja ela qual for. O homem precisa de coisas imediatas, sentimos fome, frio e outras coisas, hoje. Depois que morrermos, não me interessa receber coisas boas. Quanto à igreja, todos sabem que é uma grande farsa.

Whiplash!: O Unearthly vem se tornando referência na música extrema brasileira. A que patamar você acha que "Age Of Chaos" pode alçá-los?

M. Mictian: Escrevemos este disco e, no final, quando ele estava pronto, vimos que era um grande álbum. Esperamos que possa realmente alçar nossa carreira ainda mais alto. Acreditamos no que fazemos, pois o fazemos com muita vontade e acho justo que tenhamos uma grande expectativa em relação a "Age Of Chaos".

Whiplash!: E os planos para a divulgação de "Age Of Chaos"? Apresentações fora do Brasil?

M. Mictian: Temos grande intenção em fazer isso, mas não vamos fazer uma tour sem suporte, não vamos sair do Brasil como ‘mochileiros’. No momento temos uma boa proposta, mas estamos analisando e talvez essa tour aconteça no ano que vem. Assim esperamos.

Whiplash!: Na década de 1980 podia-se sentir que algo especial estava acontecendo, quando bandas como Venom, Bathory e Celtic Frost surgiram. Mas creio que foi a segunda geração do Black Metal, capitaneada pelas hordas da Noruega, que realmente elevaram o gênero a um patamar de profunda rebelião. Como você vê o Black Metal atualmente?

M. Mictian: Tudo começou um pouco sem estrutura, a meia boca. Mas essas bandas citadas são realmente as grandes responsáveis pelo o que o Black Metal é hoje. Sem sombra de dúvidas criaram algo realmente fantástico que, com os anos, foi crescendo. Surgiram as bandas norueguesas, de certa forma influenciadas pelas bandas brasileiras, mas o fato é que a Noruega acabou virando referência, e hoje em dia temos uma cena no mundo todo com mais suporte. A maioria das bandas está mais profissional e, creio, elevando o nome do Black Metal ao topo, o que eu acho perfeito.

Whiplash!: O Death e Black Metal estão entre os mais marginais dos estilos musicais, e o Brasil apresenta grupos que conquistam não só pela criatividade de suas canções, mas também pela versatilidade. Ainda que haja fãs que realmente sejam devotos do gênero, o que falta para nossas bandas conseguirem maior exposição?

M. Mictian: É verdade, temos uma cena fortíssima e grandes bandas muito boas mesmo. Mas temos alguns grandes problemas, somos um país de terceiro mundo com uma mentalidade de ‘colonos’. O público aqui sempre deu mais valor ao que vem de fora do que às nossas próprias coisas. Nelson Rodrigues dizia que temos a "Síndrome de Vira-latas", esse é com certeza o nosso maior pecado. No dia em que começarmos a dar valor às nossas bandas, como os gringos fazem com as deles, aí sim teremos uma cena forte.

Whiplash!: Sua parceria com a Free Mind Media vem sendo frutífera. Em comemoração à primeira década na ativa, em 2008 foi liberado "Revelations Of Holy Lies... Live", e também relançados seus dois primeiros álbuns. Esse material contém algum diferencial em relação aos discos originais?

M. Mictian: Temos um relacionamento muito bom com a Free Mind Media. Os relançamentos têm como bônus uma música ao vivo em cada um dos álbuns, canções gravadas ao vivo na tour sul-americana. E também a arte gráfica, pelo menos a parte de dentro do encarte teve que ser refeita, já que o artista que a tinha feito não possuía mais essa arte. Mas ficou muito parecido com a original. Os discos também foram remasterizados, isso deu uma boa melhorada neles.

Whiplash!: Ok, pessoal, agradeço pela entrevista! Fiquem à vontade para as considerações finais...

M. Mictian: Agradeço esse apoio ao Unearthly, e como sempre digo: o Unearthy não foi feito com sua base em areia... Estamos na batalha sempre!

Contato:
http://www.unearthly.com.br


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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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