Girlschool: Uma conversa franca com a banda

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Por Carlos Lopes
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A Girlschool sempre foi minha banda feminina favorita de rock pesado. Calcinha e guitarra ainda é uma união insuperável. A “Escola de garotas” (cujo primeiro nome foi Painted Lady) nasceu no final dos 70 na Inglaterra, em plena época punk. No raiar dos 80, o negócio era fundir pelo menos três estilos: o rock, o punk e o metal e elas estavam no lugar e na hora certa. Apadrinhadas pelo Motörhead, as meninas cometeram, pelo menos, 3 discos espetaculares (que resenho individualmente), deixando uma marca indelével na história. As respostas da Girlschool foram dadas pela baterista Denise Dufort e pela guitarrista e vocalista Jackie Chambers.

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Seus pais as incentivaram no início de carreira ou eles fizeram restrições em relação a isso? Quando vocês começaram a tocar?

DENISE: Meus pais estavam acostumados com isso, porque meu irmão mais velho tocava bateria no Angel Witch (nota: uma das primeiras e melhores bandas inglesas da nova geração da NWOBHM nos 80). Comecei bem jovem, Dave me ensinou a tocar, eu o via tocando todo o tempo.

JACKIE: Na juventude, meu pai foi baterista de uma banda, então, eles me apoiaram. Apesar disso, eu acho que eles não acreditariam que eu estivesse fazendo isso até hoje. Comecei a tocar guitarra com 17 ou 18 anos.

Vocês compraram os primeiros instrumentos ou ganharam? Tiveram que trabalhar em outras profissões antes de investir tudo na carreira?

DENISE: Trabalhei em uma loja de papéis de parede, antes da Girlschool.

JACKIE: Já trabalhei com tudo o que você possa imaginar, desde lojas, na casa de idosos, ensinei Karatê, pesquisa de mercado, um monte de coisas. Comprei minha primeira guitarra e meu amplificador com o salário que ganhei trabalhando em uma fábrica.

Vocês sentiram machismo ou preconceito por ser uma banda feminina? Já tiveram que bater em alguém que passou dos limites?

DENISE: Nunca passamos por isso.

JACKIE: Houve momentos em outras bandas onde estive antes, onde o olhar dos homens significava que você não estaria apta a tocar, simplesmente por ser mulher. Mas no geral, que escutem e julguem.


Como era a platéia no início? Homem, mulher, trabalhador, adolescentes? Vocês trabalhavam com empresário ou empresária?

DENISE: A maioria homens e principalmente motociclistas. Nosso empresário era Doug Smith que também empresariava o Motörhead

Qual é o ponto alto e o baixo de se estar em uma banda de rock feminina

DENISE: Excursionar com nossas bandas favoritas, Rainbow, AC/DC, Deep Purple, Black Sabbath foi uma grande experiência. Eu amo tocar, o que supera qualquer dificuldade.

JACKIE: O ponto alto desses últimos 5 anos foi ter tocado no Sweden Rock. Eu amo o festival, a atmosfera é fantástica e a festa depois do show, ainda melhor. Os pontos baixos são os cancelamentos dos shows, por motivos que não temos controle. Odeio que isso aconteça.

Quais são as suas bandas favoritas? Femininas e masculinas

DENISE: AC/DC e Rainbow.

JACKIE: Eu sou uma grande fã do Alice Cooper, sempre fui e ainda sou. Não tenho um grupo feminino favorito. Gosto das bandas pela música e não pelo sexo.

Meus trabalhos favoritos da Girlschool são os 4 primeiros, todos da época da gravadora Bronz. O que vocês podem dividir conosco sobre os velhos tempos, quando vocês começaram a escrever, compor, gravar e excursionar

DENISE: Lembro de como eu ficava excitada de fazer a coisa que mais amava, que era excursionar e tocar bateria, visitando países diferentes. Me senti uma felizarda por ver lugares que só imaginava em sonhos... e nada que se faça em um trabalho das 9 às 5.

Vocês tiveram alguns desapontamentos em relação ao mundo da música e carreira

DENISE: Seria legal termos conseguido um primeiro lugar nas paradas... Poderia falar muito sobre o mundo da música, mas não vou.

Como você se sente, sendo uma mulher que continua provando todos os dias que você é tão capaz como qualquer outro compositor e músico

DENISE: Como é ser um homem? Nós somos mais do que capazes.. Nós fazemos!

JACKIE: Exatamente, nós somos músicos. O fato de sermos mulheres é irrelevante.

Exprima suas idéias sobre o papel feminino na sociedade como mãe, trabalhadora, esposa, músico, amiga, irmã etc. É uma pergunta de cunho mais filosófico.

DENISE: Não há muito a dizer. Somos uma banda feminina e fazemos o nosso trabalho tão bem, ou até melhor, quanto qualquer outra banda masculina e não vemos diferença alguma.


GIRLSCHOOL - DISCOGRAFIA BÁSICA COMENTADA


DEMOLITION (1980)

A primeira vez a gente nunca esquece. Nesse caso é a mais absoluta verdade. Fui apresentado a esse disco em uma (extinta) loja, onde me aplicaram o mesmo sem piedade. Eram tempos em que gostar do novo metal, era o que havia de mais moderno. A sirene que abria os trabalhos, me fazia lembrar não do bonecão demolidor da capa, mas da Inglaterra sendo bombardeada (mas peraí, isso não é o Bomber do Motörhead?) e daí só saía fogo: “Demolition Boys”, “Nor For Sale”, “Race With The Devil”, “Nothing To Lose” (que riff!), “Breakdown”, “Midnight Ride” (fiquei em pânico e não era o da tevê!), “Emergency” (que porrada!) etc. O som que saltava dos sulcos era ácido, pesado, com um vigor e uma camada de punk que as bandas mais tradicionais não possuíam. Tocavam como mulheres, mas com gana e raiva. Os vocais de Kelly Johnson eram desleixadamente debochados e entediados. Não queriam parecer bonitas, mas sim duronas e debochadas. Desde as Runaways eu nunca havia tido contato com rock feminino pesado de verdade. As Girlschool nasceram com cara de operárias, que empunhavam seus instrumentos como um pênis enrijecido.

Bonus Tracks da versão em CD:
Take It All Away (compacto)
It Could Be Better (compacto)
Nothing To Lose (demo)
Not For Sale (demo)
Furniture Fire
Take It All Away
Breakdown
Demolition Boys
Nothing To Lose
(BBC - Friday Rock Show 1980)


HIT AND RUN (1981)

Apesar do primeirão ser insuperável, o segundo trabalho fez muitíssimo bonito. E continuava pesado, pacas! O produtor Vic Maile (também do “Demolition”) não poupou as carrapetas, descarregando uma fúria animalesca através de guitarras sujas e excepcionalmente bem timbradas. O som da bateria estava fantástico. “C´mon Let´s Go”, “The Hunter”, a grande “I´m Your Victim”, “Kick it Down”, a faixa título e as empolgantes “Watch Your Step” e “Yeah Right”, ambas com uma roupagem punk, só faziam a estrela da banda brilhar mais e mais.

Bonus Tracks da versão em CD:
Please Don't Touch (com Motorhead)
Bomber
Tonight
Demolition Boys (ao vivo)
Tonight (ao vivo)
Yeah Right
The Hunter
Kick It Down
Watch Your Step
(BBC - Richard Skinner 1981)


SCREAMING BLUE MURDER (1982)

Com um visual proto-preto-chique (e logotipo em neon rosa), as moças retornavam à cena com Gil Weston no baixo, no lugar de Enid Williams e com um novo produtor: Nigel Gray. Uma faixa desse disco convergia nitidamente para um lado mais melódico da banda (“Don´t Call It Love”) que sempre existiu, mas que ficava meio que em terceiro plano. Fora esse detalhe, as composições continuavam arrasando, agora com uma produção um pouco mais “elegante” (se assim podemos chamá-la). De qualquer jeito, transparecia que as moças mudariam de lado mais cedo ou mais tarde. Além do cover de “Live With Me” dos Stones, as faixas “Take It From me”, “Wildlife”, “It Turns Your Head Around” e “You Got Me” mostravam que o final da primeira fase se aproximava.

Bonus Tracks da versão em CD:
Don't Stop
Screaming Blue Murder
You Got Me
When Your Blood Runs Cold
Hit And Run
Turns Your Head Around
Wildlife
Take It All Away
Emergency
C'mon Let's Go
Tush
(BBC IN CONCERT Live in London 1982)


PLAY DIRTY (1983)

O título pode ser entendido de muitas formas. Na época eu pensava que era deboche (Jogo Sujo), uma brincadeira com a cara do ouvinte, mas hoje eu não acho, tenho certeza que elas procuraram, de propósito, um nome com duplo sentido. O rock pesadão que as acompanhava metamorfoseou-se em um bom hard pop radiofônico, com teclados e caixa de bateria explodindo. O problema nesse caso, não foi a forma, mas sim o conteúdo: as músicas não tinham força suficiente para chegar aos pés dos anteriores. O disco produzido por Jim Lea e Noddy Holder (do Slade), soa mais como uma necessidade de mercado, do que como fruto de uma sinceridade musical. “Play Dirty”, 2 décadas depois, é um simpático trabalho de uma banda que se americanizou, adotando o som “farofa” da época (a faixa título é puro Kiss dos 80). Inclui cover de “20th Century Boy” do T-Rex de Marc Bolan, além de uma aura hard pop 80 que permeia o disco por inteiro.

Bonus Tracks da versão em CD:
1 2 3 4 Rock N Roll
Don't Call It Love
Tush
Like It Like That
1 2 3 4 Rock N Roll (versão extendida do compacto)


BELIEVE (2004)

Álbum de retorno das mestras do rock pesado dos anos 80 com Jackie Chambers na guitarra solo. O quarteto mescla apenas um pouquinho da urgência dos primeiros discos com o formato de canção com vocais melódicos (e sensuais) e guitarras distorcidas. Faz falta a velha velocidade dos trabalhos iniciais, mas em um bom álbum de 13 faixas (com 2 bônus) não podemos deixar de destacar “Come On Up” (com um riff glam), “Let´s Get Hard” e “We All Love To Rock ´N´ Roll” que parecem saídas dos primeiros discos das moças. Pode não comprometer muito, mas a execução dos instrumentos deixa um pouco a desejar.

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Sobre Carlos Lopes

Carlos Lopes é jornalista, músico, produtor e escritor. No início dos anos 80, ele fundou uma das bandas de metal mais populares do Brasil, a Dorsal Atlântica, onde era guitarrista, compositor e vocalista. Foi a primeira banda da América do Sul a fundir punk e metal. Entre 1981 e 2001, gravou oito discos com a Dorsal, sendo o último produzido na Inglaterra. Em 2005 regravou o primeiro álbum da Dorsal (Antes do Fim), que foi eleito pelos leitores da revista Rock Brigade como um dos melhores trabalhos da temporada. Há seis anos comanda duas bandas de rock, a Mustang e a Usina Le Blond, cada uma já com três CDs de estudio. Como jornalista e escritor, colaborou desde cedo com desenhos e textos para várias publicações e fanzines. Formou-se em Jornalismo na Faculdade da Cidade no Rio de Janeiro. Desde 2006, edita o site www.omartelo.com.

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