Resenha - Skylab VI - Cadê Meu… Álbum?
Resenha - Skylab VI - Rogério Skylab
Por G. Marcon
Postado em 02 de agosto de 2026
Muitos acham que Rogério Skylab é um louco e poucos acham um gênio – e vim defender (ao menos, tentar). Como diria a saudosa Hebe Camargo, "quem arrisca, não petisca". Tem uma entrevista que ele contou no Programa do Jô, na época, sobre a gravação desse disco: no caminho pro estúdio, Skylab tropeçou, caiu e quebrou a mandíbula. Não sei por que isso me parece a informação mais importante sobre o álbum. Faz todo sentido. É exatamente o tipo de coisa que acontece com alguém que abre um disco com sete minutos de "Alucinação" e fecha com cinquenta e nove segundos chamados simplesmente "Tudo".

Skylab VI é o disco mais longo da série numerada - 19 faixas, 72 minutos, lançado de forma independente em 2006 como praticamente tudo que Skylab fez até então. E tem uma generosidade desconcertante nisso. Não no sentido de gentileza - no sentido de que ele despeja tudo que tem sem pedir licença e sem organizar pra você entender melhor. Você que se vire.
"Alucinação" abre com Solange Venturi narrando algo que funciona quase como um ritual de entrada: você não entra nesse disco por acidente, você é introduzido. Dali pra frente o negócio oscila entre noise rock, samba torto, MPB desmontada e momentos que resistem a qualquer categoria. "Isto Não É John Cage" dura um minuto e é exatamente o que parece - uma piada filosófica que também é uma declaração de princípios. É experimental, mas não tenta ser John Cage. É outra coisa. É Skylab.
O que me pegou foi perceber que os títulos mais escrachados do disco - "Cadê Meu Pau?", "Dedo, Língua, Cu e Boceta" (sim, essa é o nome dessa perola), "Pára de Roncar, Filha da Puta!!!" - não são provocação vazia. Há uma lógica de desrecalque total, de linguagem do cotidiano elevada ao estatuto de arte pelo simples ato de não pedir desculpa em tocar em temas delicados como transição de gênero, e sexo, sendo um verdadeiro tabu na sociedade do nosso tão amado Brasil..
O obsceno ao lado do sublime, e os dois soam naturais."Eu Não Tenho Eu" é onde o disco para de brincar. Sete minutos com Clóvis Bornay em voz, lentos, densos, com aquela coisa de quem chegou num lugar fundo e decidiu ficar lá por enquanto. É a faixa mais séria do álbum e por isso a que mais pesa.
Skylab nunca teve interesse em ser palatável, e Skylab VI é o documento mais fiel disso. O problema é que 72 minutos de desrecalque total cobram um preço - tem um miolo no disco, entre "Vamos Repetir de Novo" e "Amo Muito Tudo Isso", onde a energia cai de um jeito que parece menos opção estética e mais fôlego faltando. Skylab perde o fio por uns vinte minutos e só retoma com "Torto, Torto". Mas quando retoma, retoma de verdade - e "Todo Mundo Mora Mal" chega no final com uma raiva tão cotidiana e tão precisa que joga um peso sobre tudo que veio antes, quase justificando qualquer tropeço no meio do caminho. Quase. O disco é bagunçado, generoso, obsceno, às vezes lindo - e teria sido ainda melhor com uns quinze minutos a menos. O que não é pouca coisa pra dizer sobre alguém que nunca pediu permissão pra existir do jeito que existe.
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