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Yngwie Malmsteen: O "Trilogy" marcou. E muito.

Resenha - Yngwie Malmsteen - Trilogy

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Por Rodrigo Contrera
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"Trilogy" é o terceiro disco de Yngwie Malmsteen com sua banda Rising Force, mas o primeiro que comprei, nos idos da segunda metade da década de 80, numa loja - que não deve existir mais - no centro de São Paulo, nas vizinhanças das galerias da 24 de março. Para mim, o disco foi uma descoberta. Nele eu via em especial a faixa título, que tinha um formato próximo ao erudito e um nome também propriamente clássico, com Opus e coisa e tal. Aquilo me surpreendeu. Lançado no final de 1986, o disco foi dedicado à memória do primeiro-ministro sueco, Olof Palme, que havia sido assassinado naquele mesmo ano.

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É curioso que eu me meta a resenhar este CD agora, após uma noite mal dormida, em que pensei muito em minha ex-esposa, Cris, que se separou de mim há por volta de uns 5 anos. Pois eis que o CD começa com You Don' t Remember, I'll Never Forget. E é curioso, porque esse jeito dramático de encarar uma relação - expresso na música - ainda hoje meio que me domina (tendo me envolvido posteriormente com outras pessoas, claro). Porque a faixa meio que reacende um jeito latino de lidar com a vida, emocional, que é estranho advir de um sueco, que aparentemente deveria encarar os acontecimentos de forma mais apolínea. Porque o Yngwie realmente apolíneo não é. Yngwie é, mesmo que os detratores o crucifiquem por isso, um cara apaixonado, que parece ver o mundo sob um prisma romântico, se bem que como um rockstar (é claro). Ocorre que, nessa primeira faixa, a gente também nota que, por detrás da letra derramada, parece existir um ser nada romântico, no fundo, mas absurdamente fatalista. Pois a faixa parece ser uma espécie de acerto de contas, ao invés de um lamento.

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O jeito de tocar de Yngwie já me conquistava ali. Pois a distorção parecia valvulada, não sei. Sei que ela era bem diferente das guitarras da época, mais encorpada, mais grave, e mais clássica, de alguma forma. O jeito de tocar nos solos também era diferenciado. Forte, sem muitos floreios no toque, bastante tosca, e rápida, essencialmente rápida. Nem comento muito os parceiros de Yngwie direito (Mark Boals no vocal, por exemplo), porque eles parecem não colocar suas marcas nas faixas, realmente. O que existe em suma é a guitarra, e o jeito peculiar de Yngwie encarar o mundo. Pois o disco é autoral, em última instância. E de um tom autoral em que não parecem existir muitas nuances. Ele foi abandonado. O amigo é um mentiroso. A rainha está apaixonada. Há alguém chorando. Surge uma fúria. Nada parece descansar no meio-termo. Claro que isso também me atraía. Porque afinal, no dia a dia, as coisas têm nome. E quando as pessoas começam a enrolar a baboseira começa. E eu, naqueles idos, deveria estar em busca de algo que me fizesse ou ajudasse a fugir de babaquices. Deve ser.

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Em "Liar" isso fica patente. Não sabemos muito bem a quem Malmsteen se refere nessa acusação completamente chapada, que utiliza os lugares-comuns mais tradicionais para falar sobre alguém que nos roubou alguma coisa, nos enfia a faca nas costas, não consegue sustentar sua imagem, e que precisa ser acusado: Liar!, nos gritos de Boals. O ritmo bem marcado, e com poucas variações, vai do começo ao fim na mesma pegada (tirando os solos, que não me soam hoje muito expressivos), e ao final sobra a impressão de que Malmsteen veio para dizer verdades sobre (ou passar recados a) pessoas que o rodeiam, ou rodeavam, mas de um jeito bem peculiar: direto, sem firulas, sem muita dor, porque ela já foi, ou está quem sabe expressa de alguma forma nas notas da música. O jeito é bem jovem, claro, sem muitos cuidados na letra da música, e isso - eu me lembro bem - me atraiu muito. Parecia algo que alguém falava diretamente para mim, sem enrolação. Não sei se na época eu fazia já Filosofia, mas de fato se há algo que nela me irrita é a demora que tem para dizer certas coisas - embora muitas verdades, claro, requeiram todo um tratamento e um processo.

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O jeito duro e direto, mesmo para falar coisas mais ou menos líricas, também está presente em "Queen In Love", faixa a seguir, cuja letra minúscula e grandes solos confundiam o panorama numa melodia bastante simples, em que pela primeira vez nos defrontamos com um coro de vozes, e em que começa a aparecer algo que diz respeito a sentimentos, a amor. E na verdade, ouvindo-a agora novamente, a melodia me parece algo bastante interessante, quase contemplativo, sobre o outro, no caso, a mulher, a garota que é chamada de Rainha. A faixa não é tão breve como este parágrafo, mas de fato passava meio batida, porque eu em geral esperava pela outra, instrumental, com uma guitarra sem distorção, "Crying", em que eu percebia aquilo que, naquele então, mais me atraía no trabalho de Malmsteen: uma conjugação de algo meio roqueiro (não precisava ser muito roqueiro) com uma inspiração erudita, clássica ou que reacendesse a essa tradição. Lembro-me bem de como eu queria poder tocar aquele baixo, aparentemente simples, que segurava tudo com perfeição, e que deixava a guitarra viajar em emoções. Mas minha ligação com a faixa não era assim tão potente a ponto de eu me imaginar viajando, chorando, com ela. Eu já estava ficando duro, atento ao dia a dia, distanciado do coração, e não eram essas notas jogadas em tantos solos (alguns com distorção) que me faziam realmente avançar dentro de mim mesmo. Mas eu tentava, e com ele, com Malmsteen, eu tentava me aproximar de mim, sem sucesso. E isso era o máximo que eu parecia conseguir, de fato. Pois nem os momentos mais dramáticos da faixa conseguiam me fazer derreter, embora eu decorasse o solo bastante bem, como iria fazer com muitos dos neoclássicos. Eu ficava ainda de fora, mas - o que é mais importante - queria entrar na emoção. Era isso o que ele conseguia. E era isso o que (quase) mais me agradava.

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Já "Fury", então, era uma de minhas preferidas. Vocês sabem da capa do LP, com o dragão. Pois então. Quando eu ouvia esta faixa, entendendo-a parcialmente, imaginava a Fúria como o dragão, como algo contra quem nós deveríamos nos meter a lutar, com medo de perdermos e nos entregarmos a ela. Essa luta era bastante interessante para o garoto que eu era, e os quase gritos de Oh, não, conseguiam acender em mim uma fagulha de admiração. Claro que nunca me meti a tentar entender realmente a letra. Claro que eu ouvia isso tudo como se fosse mais uma música de rock, apenas. Claro que eu não lhe dava tanta importância (naquilo que expressa ou deixa impresso) como agora, em que busco meus primórdios para que eles consigam ou me ajudem a entender meus rumos, hoje. Mas, de alguma forma, a energia de tudo isso me contaminava. E começava a espraiar em mim o fascínio por figuras mitológicas, por situações desse tipo, por perdições e gritos de alguém que se sabe perdido. Mas claro, tudo isso era levado bem na brincadeira. A faixa, seja como for, marcava.

Nesse afã de gostar desse heavy metal neoclássico, "Fire" passava batido, enquanto "Magic Mirror" e "Dark Ages" estabelecia um clima soturno que me contagiava por remeter a imagens e imaginários que no futuro iriam me cativar: o espelhismo (minha primeira peça transcorreu com um) e os ambientes sombrios (imaginados) de épocas estranhas, passadas e... escuras. Porque a partir de certo momento da vida eu realmente me senti mais atraído pela escuridão (da história, das almas, do espírito) do que pelas luzes, por aquilo que se propõe explicar, no caso da Filosofia a Razão, representada pelo Renascimento e pelo Iluminismo. Tanto que muitos de meus autores passaram, aos poucos, por ir nessa direção, e que minha visão de mundo também. Nesse sentido, o jeito forte da primeira faixa, com coro e tudo, e o jeito calmo e soturno da segunda deixavam claro minha opção de vida. Tanto que a influência desse tipo de leitura ainda bate em mim, embora, é claro, não de uma forma tão patente como eu expresso, agora. Na época, eram apenas duas faixas de um LP, hoje são reminiscências de uma juventude vivida sob certas influências. Mas noto como tudo isso se tornou tão real em minha vida que ainda bate forte. Nunca me convenci, por exemplo, de coisinhas ou materiais ou artesanatos realmente FOFOS, se bem me faço entender. Ao contrário. Achava tudo o que reacendesse a luz algo por demais claro, para eu realmente dar-lhe tanto valor (algo de que me arrependo). Tudo isso só para confirmar a importância da música no estabelecimento de referências em nossas vidas.

Daí vinha a faixa-título, Trilogy Suíte Opus 5, de sete minutos e cacetada. Que era realmente o que mais me atraía em tudo, e que considero uma obra-prima (como, imagino, vários de vocês). Pois era nela, mais do que em qualquer outra faixa ou música, dele ou de outros, ao menos até a época, que eu VIA conjugados os esforços de rigor de alguém que parecia saber o que era o rock, o ritmo, a satisfação do estrelato, e O RIGOR. Pois, para fazer aquilo não era suficiente ter um bom guitarrista, uma boa banda, ou uma boa gravação. Aquilo demandava uma convicção. A convicção de querer passar uma mensagem, quem sabe, ficava para trás. O que importava também não era APENAS a técnica. Importava era criar uma obra rigorosa, com variações importantes de ritmo, melodia e harmonia que nos permitisse IMAGINAR novos mundos por vir. E com ela nós conseguíamos. E eu me esfalfava.

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Claro que levariam vários anos para que eu me afastasse de muito do que Malmsteen ainda fazia, e muitos outros para me reaproximar dele. Mas o Trilogy marcou. E muito.

Espero que tenham gostado.


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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

Mais matérias de Rodrigo Contrera no Whiplash.Net.