Hawkwind: Testamento definitivo do Space Rock em seu estado bruto

Resenha - Space Ritual - Hawkwind

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Elias Rodigues Emídio
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


O Hawkwind é conhecido da maioria dos ouvintes de rock em geral apenas como a ex-banda do baixista e vocalista Ian Kilmister, líder desde 1975 do Motörhead, justamente creditada uma das maiores bandas do heavy metal de todos os tempos. Considerado por muitos os legítimos pais do Space Rock, estilo de heavy rock com fortes influências psicodélicas e abordagens de temáticas espaciais, o Hawkwind foi uma das mais originais e criativas bandas do rock pesado praticado na década de 70 e deixou pelo menos 7 trabalhos essenciais para os aficionados por um Rock & Roll bem tocado, entre eles está LP duplo "Space Ritual" de 1973, hoje em dia considerado um dos melhores e mais importantes registros ao vivo gravados na história do rock.

153 acessosFuturo Headbanger: Pai homenageia Lemmy e Mustaine em nome do Filho5000 acessosHall Of Shame: as melhores músicas ruins da história do Metal

A origem da banda remete ao ano de 1969 e a cidade de Londres, onde os guitarristas Dave Brock e Mick Slattery, até então integrantes da banda de rock psicodélico Cure, travam contanto com o baixista Jonh A. Harrison. Ambos nutriam um interesse mútuo pela música eletrônica e então decidem montar um grupo que unia a instrumentação característica do rock (baixo, teclados, guitarra e bateria) com intervenções eletrônicas que dariam um caráter mais futurista ao som do grupo. A primeira formação do grupo foi completada com dois velhos conhecidos de Brock o saxofonista/flautista Nik Turner e Michael Davis (mais conhecido como Dik Mik) que se encarregaria dos sintetizadores e demais efeitos sonoros, o baterista Terry Ollis (na época com apenas 17 anos) foi convocado em resposta a um anúncio publicado em jornal.

Com a primeira formação fechada, o grupo passa a se chamar Hawkwind (brevemente Hawkwind Zoo) que era o apelido Nik Turner em referência as suas flatulências (Wind) e ao mau hábito de limpar a garganta (Kawking). Após uma primeira sessão de gravação nos estúdios da Abbey Road onde foram gravadas as primeiras demos do grupo, entre os quais a faixa "Hurry On Sundown" que entraria no primeiro álbum da banda, Slattery abandona o combo. Para o seu lugar Brock convida o guitarrista e também ocasional vocalista Richard Hugh Lloyd Lagton (mais Conhecido Huw Lloyd-Langton) que alcançaria certo reconhecimento em meados dos anos 70 com o Widowmaker. Com o fim do Pretty Things o guitarrista Dick Taylor fica temporariamente sem emprego, e a convite do Dave Brock toca em alguns concertos da banda. No mesmo ano produz o primeiro disco da banda, o homônimo “Hawkwind" que foi finalizado no Trident Studios e lançado em abril de 1970 pelo selo Liberty. Trazendo uma sonoridade ainda muito crua, o disco hoje é reconhecido mais pelo seu valor histórico como um dos primeiros álbuns de Space Rock gravados.

Em meados de 1971, a banda sofre sua primeira grande mudança na formação com a saída de Harrison que é substituído por Thomas Crimble, que também permaneceria pouco tempo na banda e seria substituído por Dave Anderson, que TOCAVA guitarra e violão no grupo germânico Amon Düül II, um dos pioneiros do estilo musical conhecido como Krautrock. Com a formação devidamente reestabelecida o Hawkwind dá inicio as gravações do álbum "X In Search Of Space" no Olympic Studios, já sob a produção de George Chkiantz que havia trabalhado como engenheiro de som para os Beatles, Blind Faith, Led Zeppelin, entre outros. No meio das gravações Dik Mik abandona o Hawkwind temporariamente e em seu lugar o grupo passa a contar com Del Dettmar que tocava sintetizador com relativa maestria.

"X In The Searxh Of Space" trazia um som bem mais elaborado e bem mais acabado que seu disco de estréia e se tornou o primeiro sucesso de vendas do grupo, atingindo a posição número 18 nas paradas inglesas.

Ainda em 1971 Langton, Ollis e Anderson abandonam o grupo, para seu lugar Brock convida o baterista Simon King e o baixista Ian Kilmister (na época um ilustre desconhecido que havia sido roadie do Jimi Hendrix em sua estadia na Inglaterra), ambos eram integrantes da banda psicodélica Opal Butterfly. Com adição de King e Ian, a banda ganhava mais peso e delineava em definitivo sua sonoridade: um hard rock pesado (beirando o heavy metal setentista) permeado de efeitos eletrônico que conferiam a sua música um clima adequadamente espacial. Com o retorno de Dik Mik anda em 1971 esta fechada aquela que é considerado pela maioria a formação clássica do grupo.

O primeiro single gravado por esta formação "Silver Machine", um boogie rock (quase) convencional iniciado com acordes simples do sintetizador e temperado com a flauta elétrica de Turner se tornou o maior sucesso da banda e alavancou as vendas de "X In Search Of Space" e do disco seguinte banda "Doremi Fasol Latido" auto produzido por Dettmar e Brock e lançado em 1972. "Doremi Fasol Latido" traz uma sonoridade mais diversificada com seus efeitos sonoros mais bem trabalhados e alternâncias do mais puro heavy metal espacial notadamente em "Brainstorm" com musicas mais calmas como a bela "Space Is Deep" e o folk rock tradicional "The Watcher" (esta trazia apenas Kilmister voz e violão).

"X In Search Of Space" e "Doremi Fasol Latido" (cujo titulo referia-se a distribuição das notas na escala musical por sua vez associada desde tempos remotos por várias culturas com os planetas do sistema solar), junto com o disco ao vivo "Space Ritual" gravado no Liverpool Stadium (22 de dezembro de 1972) e Brixton Sundown (30 dezembro de 1972) por Vic Maile durante a "Urban Guerrila Tour" idealizada pelo poeta Robert Calvet; estavam ligados tematicamente e em conjunto narravam a história de sete cosmonautas que viajam pelo espaço sideral em estado de animação suspensa.

"Space Ritual" (editado finalmente em 11 de maio de 1973) é uma viagem sonora insuperável, uma apresentação ao vivo onde tudo parecia ter dado certo que trazia nos sulcos do LP duplo original 87 minutos da mais pura lisergia sonora.

A faixa de abertura "Earth Calling" parece mais um convite aos ouvintes para embarcarem na nave espacial dos Hawkwind: começa como um pequeno e longínquo zumbido cósmico que em menos de 1 minuto se transforma numa profusão de efeitos psicodélicos, preparando o terreno para a arrasadora pancadaria sonora da então inédita "Born To Go" conduzida genialmente por um poderosa linha de baixo.

Dando sequência ao disco, há alternância entre as batalhas estelares de “Down Through the Night” e “Lord of Light” (esta cantada por Kilmister) que narram como teria sido a criação do universo, e as divagações paisagísticas de Calvert em “The Awakening” e “Black Corridor".

A banda parece retornar a si por um breve momento numa das belas canções feitas na história do rock de um modo geral, a extasiante "Space Is Deep", que se destaca por sua bela letra que divaga acerca da ambição do homem perante a imensidão do universo. No final estendido da canção a banda faz referência a "You Know You're Only Dreaming" outra brilhante canção originalmente presente "X In The Search Of The Space".

A vinheta sintetizada "Electronic Nº1" retoma o clima lisérgico, abrindo caminho para "Orgone Accumulator", um dos pontos altos do trabalho, que seria um exemplar perfeito de R&B não fossem as saraivadas de efeitos espaciais executados nos instrumentos de sopro, osciladores e sintetizadores. A metálica "Upside Down" é o único momento do disco para os espectadores "bangearem" ao invés de permanecer em estado de transe, com um dos riffs mais inspirados já elaborados pela mente humana esta canção certamente deveria entrar para os cânones da história do rock como um exemplo do melhor heavy rock setentista.

Calvert da seqüência ao play como a psicodelia interestelar de "10 Seconds To Forever", que introduz uma versão abissal de "Brainstorm", bem mais acabada do que a versão de estúdio, aqui ela soa com uma tonelada de peso a mais e conta com arranjos vocais muito bem elaborados, indiscutivelmente o ponto alto do disco. Pena que a versão presente no vinil original teve de ser editada para caber em um LP duplo, e cerca de 4 minutos da mesma tiveram de ser cortados para tal finalidade. A versão integral da canção só aparecia na edição do álbum editada em 2007.

O segundo disco tem inicio com "Seven By Seven", originalmente o lado B de "Silver Machine" (cuja presença deixaria o álbum beirando a perfeição), a canção se mostra um rock de respeito com uma segura base de baixo, guitarra e bateria. "Sonick Attack", narrada por Calvert, mas de autoria de Michael Moorcock (renomado autor de ficção científica que ocasionalmente colaborava com o Hawkwind), explica como escapar de um ataque sônico e abre alas para "Time We Left This World Today" que poderia ser chamado de “música refrão”, devido ao seu estilo pergunta e resposta, alternando entre os backing vocals e os vocais principais. Com um baixo muito agressivo e um sax espacial por trás de tudo, a canção é daquelas que ficam grudadas a cabeças do ouvinte logo na primeira audição.

Já "Master Of Universe", a mais pesada canção do disco, é um monólito composto por riffs hipnóticos de metal, gritos ascendentes no oscilador e fantasia espacial digna de história em quadrinhos. Em "Wellcome To The Future" Calvert saúda os ouvintes, antes de o grupo embarcar em seu próprio Stonehenge com as digressões espaciais de "You Shouldn't Do That" que encerra com chave de ouro esta obra prima.

Um fator de destaque no disco é sua originalíssima e singular arte gráfica que foi concebida pelo injustamente subestimado artista gráfico Barney Bubbles. Na versão original do álbum o belo desenho da capa se abria num painel que trazia mais três ilustrações do artista, somado a dois painéis com fotografias que representavam o verdadeiro espetáculo que era um show da banda que contava com elaborados jogos de luzes e com Stacia uma dançarina que se apresentava completamente nua enquanto oferecia drogas à plateia. (A matéria completa sobre este assunto esta presente no site: https://poeirablog.wordpress.com/2009/05/25/hawkwind-a-capa-de-space-ritual/).

Arte gráfica de Space Ritual:

O Hawkwind editaria outra obra prima do space rock em 1974, "Hall Of The Mountain Grill", que contava com o violinista Simon House no lugar de Dik Mik. Em 1975 era a vez do também essencial "Warrior On The Edge Of Time" que é mais conhecido por ser o último álbum do Hawkwind a contar com Ian Kilmister, que seria expulso durante uma turnê no Canadá no mesmo ano por ser apreendido com posse de drogas e acabou sendo substituído pelo também criativo Adrian Shaw. Talvez o último dos grandes lançamentos do grupo, "Quark, Strangeness And Charm" é o primeiro disco do grupo sem o membro fundador Nik Turner e o terceiro sem Del Dettmar que havia se debandado durante as gravações de "Warrior On The Edge Of Time". O guitarrista Paul Rudolph (que havia tocado com o The Deviants) e o baterista Allan Powell que haviam colaborado no álbum de estúdio de 1976 "Astounding Sounds, Amazing Music", também abandonaram o barco do Hawkwind neste álbum.

De 1977 em diante o grupo sempre liderado por Dave Brock continua lançando bons discos, obviamente sem a repercussão de outrora, mas é inegável que sua performance áudio visual tenha influenciado muitos outros grupos como o Pink Floyd.

"Space Ritual" é o testamento definitivo do Space Rock em seu estado bruto.

FAIXAS
01. Earth Calling
02. Born To Go
03. Down Through The Night
04. The Awakening
05. Lord Of Light
06. Blacck Corridor
07. Space Is deep
08. Electronic Nº1
09. Orgone Accumulator
10. Upside Down
11. 10 Seconds To Forever
12. Brainstorm
13. Seven By Seven
14. Sonic Attack
15. Time We Left This World Today
16. Master Of Universe
17. Wellcome To The Future
18. You Shouldn't Do That

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Judas PriestJudas Priest
Lemmy significou muito para Rob Halford

153 acessosFuturo Headbanger: Pai homenageia Lemmy e Mustaine em nome do Filho24 acessosEm 16/05/2000: Motorhead lança o álbum We Are Motörhead20 acessosEm 09/08/1986: Motorhead lança o álbum Orgasmatron11 acessosEm 04/06/1983: Motorhead lança o álbum Another Perfect Day5 acessosEm 11/07/1995: Motorhead lança o álbum Sacrifice0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Motorhead"

BarbasBarbas
Cinco das mais influentes do Rock

MotörheadMotörhead
Foto de Amy Lee no colo de Lemmy Kilmister

Lemmy KilmisterLemmy Kilmister
Errar a letra de Overkill foi um bloqueio mental

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDs0 acessosTodas as matérias sobre "Hawkwind"0 acessosTodas as matérias sobre "Motorhead"


Hall Of ShameHall Of Shame
As melhores músicas ruins da história do Metal

Metal HammerMetal Hammer
Dez estranhas colaborações no metal

MetallicaMetallica
New Music Express elege as melhores músicas do grupo

5000 acessosRenato Russo: a história do maior nome do rock nacional5000 acessosU2: as 10 melhores músicas de todos os tempos da banda5000 acessosMilho Wonka: quem são os Posers do Rock hoje em dia?5000 acessosRoger Tullgren: Sueco ganha pensão do governo por ouvir Metal5000 acessosQueen: "Bohemian Rhapsody" em vídeo inusitado de brasileiro5000 acessosFoo Fighters: "Dave Grohl é um m....!" diz famoso jornalista

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.


Sobre Elias Rodigues Emídio

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em junho: 1.119.872 visitantes, 2.427.684 visitas, 5.635.845 pageviews.

Usuários online