Mostly Autumn: alçando vôos mais altos

Resenha - Heart Full Of Sky - Mostly Autumn

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Por Rodrigo Werneck
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Nota: 9


Mesclando rock progressivo clássico com música folk celta, a banda britânica Mostly Autumn conseguiu um lugar de relativo destaque neste nicho. Apesar disso, e de terem uma atividade bastante prolífica com grande número de discos lançados, nunca alçaram vôos mais altos, sejam eles artísticos ou comerciais. Até agora.

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Formada no final dos anos 90 pelo guitarrista e vocalista Bryan Josh, uma espécie de "David Gilmour wanabee", a formação depois de algumas mudanças se estabilizou em torno do próprio Josh (vocal, guitarra, teclado), mais a vocalista Heather Findlay (que também toca violão, flautas e percussão), o tecladista Iain Jennings, o baterista Jonathan Blackmore (nada a ver com Ritchie), o baixista Andy Smith, o guitarrista base Liam Davison, e Angela Goldthorpe (agora Gordon) nos backing vocals, flautas e teclados. Com seu som altamente influenciado pelo Pink Floyd e pelo Genesis, mais bandas folk como o Steeleye Span e o Spirogyra, e ainda adicionando toques pop eventualmente, o Mostly Autumn rapidamente atingiu algum sucesso no circuito alternativo do norte europeu, juntamente a bandas como o Karnataka, com quem dividiram turnês em várias oportunidades por sinal.

Entre 1998 e 2001, lançaram 4 CDs de estúdio, mostrando um bom potencial mas ainda sem estourar. Na minha opinião, a banda não conseguiu em seus primeiros trabalhos desenvolver uma fórmula eficiente de explorar os talentos inegáveis de seus integrantes. Assisti a um show deles no final de 2001 no London Forum e, apesar de ter sido uma boa apresentação, não foi particularmente marcante. Creio que ainda necessitavam definir seu estilo entre um rock mais pesado, ou mais sinfônico, ou mais folk, ou ainda mais pop.

As próximas etapas do amadurecimento do grupo foram vitais para o seu notável progresso. Optaram por reduzir o ritmo de lançamentos, priorizando a composição de temas. Depois, algumas mudanças importantes na formação acabaram por criar esse novo Mostly Autumn, bem mais consistente. O baterista Jonathan Blackmore foi substituído pelo irmão do tecladista Iain, Andrew Jennings. O próprio Iain acabou saindo para montar seu projeto próprio, o Breathing Space, no final de 2005, sendo substituído por Chris Johnson. Esta foi de fato a modificação mais importante a ocorrer na banda. Apesar de Jennings ser um tecladista talentoso, Chris Johnson acrescentou muito no que diz respeito aos arranjos e composições, passando a formar uma tríade com Bryan e Heather, assumindo um papel central e vital na banda. Além disso, Olivia Sparnenn se juntou ao grupo, fazendo backing vocals.

E é neste cenário que o recém-lançado "Heart Full Of Sky" surge. Colocado no mercado no final de 2006, o disco finalmente mostra um Mostly Autumn com uma perfeita combinação dos elementos supracitados, tudo dentro de um ótimo gosto. Temas fortes, arranjos idem, performances perfeitas, parece ter dado tudo certo nesse disco. Se isso foi ocasionado pela entrada de Johnson, provavelmente ficará claro nos próximos trabalhos, mas o início foi promissor. A banda conseguiu enfim fazer algo dentro do gênero que o Pink Floyd consagrou: composições fortes, com melodias marcantes, canções simples a princípio (o lado pop, agora bem usado), mas com arranjos grandiosos, sem ser exagerados (o lado progressivo, mais bem costurado agora também). Uma ótima escolha de timbres de teclados em todas as faixas, algo em que Johnson deixa Jennings no chinelo, sem sombra de dúvida. Bryan Josh abriu espaço para mais um músico brilhar, e com isso todos saíram ganhando, inclusive ele próprio, com suas partes de guitarra sendo mais valorizadas pelo teclados, em conjunto ou em contraponto a eles. Os vocais de Heather cada vez melhores, ela é certamente uma vocalista que cresceu junto com a banda, onde inclusive começou como vocalista de apoio, e foi depois "promovida". Terá sido talvez esse crescimento influência de Fish, ex-vocalista do Marillion e seu noivo? Quem sabe... As músicas são em sua maioria longas, várias com mais de 6 minutos de duração, mas em momento algum cansativas. As composições foram divididas entre Josh (as mais roqueiras), Heather (as baladas), e Johnson (as mais introspectivas e sombrias).

Um daqueles discos onde se é difícil apontar músicas favoritas. Não apenas são todas bastante inspiradas, com ótimos arranjos, performance e qualidade sonora, como até mesmo a ordem foi extremamente feliz, mantendo uma progressão dinâmica que em momento algum gera cansaço ao ouvinte. Momentos pesados se revezam com outros mais sutis, e mesmo as vozes de Josh, Heather e Johnson se alternam, ajudando a manter a variedade, sempre dentro de uma coerência. Realmente, trata-se de um trabalho muito maduro.

O início, majestoso, apresenta o vocal angelical de Heather e em seguida os teclados de Chris Johnson, que logo de cara mostram ao que vieram. Um peso capaz de fazer frente a guitarras distorcidas, não no sentido literal mas sim em termos de intensidade e feeling. Solos da guitarra de Josh e da slide guitar de Davison se revezam com inspiradas passagens instrumentais de teclados. Johnson foca muito mais seu estilo em arranjos climáticos que em solos auto-indulgentes, mas sempre com grande destaque.

Já em "Blue Light", Heather brilha, lembrando até mesmo Karen Carpenter em seus melhores momentos, mas sem a pitada por demais açucarada que permeava as canções dos Carpenters. Os sintetizadores de Johnson criam uma atmosfera bela e ao mesmo tempo misteriosa e deliciosamente perturbadora, daquelas de se levantar os pelos dos braços. A guitarra lancinante de Josh, muito bem colocada, só coroa uma batalha já ganha. Nada como fazer gols jogando num time brilhante, que te passa a bola redondinha. "Walk With A Storm" começa com a guitarra e o vocal de Josh dominando, num rock correto. Lá pelos 4 minutos, porém, quando não se esperava nada mais da música, até então correta, o andamento muda e surpreende, com ótimos vocais de Josh com Heather, e posterior delírio instrumental pontuado de flautas, violões e teclados, na melhor tradição folk, mas mantendo o peso inicial. Ao seu final, hora da guitarra retornar em toda sua glória, com o órgão Hammond dando um toque de classe.

"Find The Sun" mostra o lado folk de forma mais gritante (dentro do contexto progressivo) por conter a participação super-especial do violinista Peter Knight, do Steeleye Span, grupo citado anteriormente. Interessante notar como a banda dá o devido tempo para que o tema se desenvolva, sem seguir receitas de bolo pré-concebidas, tirando proveito da força dos temas. O uso inteligente do silêncio, parte importante da música, se faz presente constantemente. Lição aprendida com a experiência.

O ponto alto do disco fica por conta da trilogia formada por "Broken" (cantada por Heather, e um réquiem dedicado a um amigo), "Silver Glass" (cantada por Johnson), e "Further From Home" (cantada por Josh e Heather). "Silver Glass" lembra bons momentos do Genesis clássico, notadamente do período pós-Peter Gabriel, mas ainda com Steve Hackett na guitarra, com a bridge nos remetendo ao Pink Floyd dos idos de 73 (leia-se, "Dark Side Of The Moon"). "Further From Home" apresenta um longo intróito instrumental à la "Shine On You Crazy Diamond" (ops!), e somente lá pelos 4 minutos de duração Bryan e Heather atacam nos vocais, trazendo de volta a melodia (e letra) cantada por Heather antes da primeira música, num bom truque conectando diferentes partes do disco.

Talvez tivesse ficado bem como faixa de encerramento do CD, mas incluíram ainda uma última e longa suíte, "Dreaming", com sua longuíssima e intrigante letra sobre sonhos e os limites entre realidade e imaginação. Fico imaginando o trabalho que terão para decorá-la se forem tocá-la ao vivo...

Se existe um senão, ele se refere à arte de uma forma geral. A começar pela capa, totalmente lugar comum e sem graça, não apenas pela retratação escancarada e sem sutilezas do título do disco, quanto pelo uso de técnicas pueris de computação gráfica, o que ocorre no encarte como um todo. Minha primeira impressão foi ruim, de que seria um disco sem graça, e foi totalmente causado pela capa, ou seja, na minha modesta opinião foi uma bola fora. Tal não foi minha surpresa ao colocar o CD para tocar... completa reversão de expectativa!

Algumas curiosidades finais... Após a gravação deste CD, o guitarrista Liam Davison deixou o grupo (e não foi substituído), assim como o baterista Andrew Jennings, em cujo lugar entrou Gavin Griffiths (ex-Fish e Karnataka). Falando em Karnataka, a vocalista Anne-Marie Helder (ex-Karnataka) gravou vários backing vocals adicionais neste CD. Ela, por sinal, é namorada do guitarrista Dave Kilminster, que acompanhou Roger Waters em sua recente turnê pelo Brasil, e tem alguns trabalhos em conjunto com ele.

Altamente recomendável para quem gosta de rock progressivo acessível e melódico, trafegando por algumas diferentes vertentes do gênero. Se quer conhecer o Mostly Autumn, eis uma ótima opção, por ser no meu entender seu melhor trabalho.

Tracklist:
1. Fading Colours 8:27
2. Half A World 4:49
3. Pocket Watch 4:18
4. Blue Light 4:55
5. Walk With A Storm 7:48
6. Find The Sun 5:34
7. Ghost 5:27
8. Broken 5:11
9. Silver Glass 7:07
10. Further From Home 6:26
11. Dreaming 8:36

Site: http://www.mostly-autumn.com




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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D'Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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