Resenha - Curtains - John Frusciante

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Por Eduardo Carli de Moraes (Dying Days)
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John Frusciante teve uma divina diarréia criativa em 2004 e começou a gravar discos como se fosse um coelho parindo filhotes: foram, no total, SEIS álbuns. E a boa nova é: o material é todo de primeira e merece uma exploração. Frusciante, que é para quase todo mundo só o guitarrista dos Red Hot Chilli Peppers, demonstra cada vez mais que tem uma carreira-solo que parece muito mais importante para sua vida do que a música que faz com sua banda principal: é nos seus discos-solo que ele põe toda sua energia, toda sua alma, todo seu imenso talento, acabando por criar uma música extremamente pessoal e vigorosa.

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Frusciante esteve no inferno e retornou. Flertou com a morte por anos e anos, abusando pesado nas drogas, injetando fortunas veia adentro, atingindo os abismos mais profundos da depressão, adotando a auto-destruição como modelo de vida... Esse cara tinha tudo para já estar morto e já ter se tranformado em mais um mito do rock’n roll que seguiu à risca, depois de Sid Vicious, Ian Curtis e Kurt Cobain, o preceito live fast, die young. Mas fez mais que isso: sobreviveu. Frusciante conseguiu renascer das cinzas e trouxe para nós, dessa sua caminhada sombria e intensa pela vida, algumas lições de sabedoria. Encontrou a salvação na Arte e hoje há poucos artistas na música pop que façam uma música tão poderosa e tão tocante quanto a dele.

Ainda acho que sua obra-prima é o Shadows Collide With People, disco ao mesmo tempo épico e trágico, dolorido e viajante, como que um Macbeth da música pop. Mas Curtains, último álbum da enxurrada, finalizado em dezembro de 2004, é também excelente, um dos álbuns mais peculiares na discografia de John e certamente um dos mais belos. Mais humilde e quietista, o álbum investe num certo clima intimista e acústico, em que os violões e pianos tomam o lugar das guitarras e os vocais estão muito mais nítidos e em primeiro-plano. Surge por aqui uma forma nova de melancolia, uma nova e devastadora maneira que Frusciante encontra para transformar a tristeza mais terrível numa indescritível forma de beleza.

Sim, Curtains é um disco extremamente melancólico e não muito recomendado para quem está flertando com o suicídio ou precisando melhorar o astral. Quem ousar penetrar nesse universo, porém, vai acabar percebendo que por trás de tudo não há nada parecido com derrotismo ou apatia: Frusciante, hoje mais do que nunca, diz um imenso "sim" à vida, e essa mistura de afirmação vital e de doce melancolia é o que faz o charme e a força de Curtains. Confesso que esse álbum é capaz de arrancar cachoeiras dos meus olhos mais que qualquer outro disco da história da música pop que eu conheça: mais que o Closer ou o Unknown Pleasures, mais que o Tidal, mais que o Songs of Love and Hate, mais que o Ok Computer ou o Hail To The Thief...

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Sei: os que seguem a religião do prazer à qualquer preço podem argumentar que arrancar lágrimas de alguém nunca foi parâmetro pra julgar o valor de nada, muito pelo contrário: "se te faz chorar, por que seria bom?" É que me acontece às vezes o desejo estranho de ser tomado por sentimentos intensos, algo que escape desse esquema banal de diversões e futilidades... E por vezes chorar é uma delícia, uma purificação: é como uma divina água que corre de dentro pra fora, levando consigo algo como demônios e pesares diluídos, deixando atrás de si somente leveza e tranquilidade.

A base de Curtains é John Frusciante largado no chão de seu quarto com um violão e um gravador de quatro canais, cantando melhor do que nunca, sem medo de gritar sem a companhia do barulho, furando o silêncio com o punhal da sua garganta... Depois se ornamentou esse esqueleto de violão e voz com pianos, solos de guitarra e efeitos eletrônicos, o que não impede que esse seja o álbum mais despojado e acústico da carreira do cara. Seu talento como músico, que os seus dois primeiros álbuns solo colocavam em dúvida (eles não passam de loucuras sônicas de um junkie), está evidente, por exemplo, no excelente solo de violão que termina "The Past Recedes" ou nos guitarrismos catárticos que são o clímax de "Anne". Seu talento como poeta brilha em quase todos os seus versos - que prosseguem sombrios e misteriosos.

Curtains é provavelmente o disco em que John se mostra mais sereno, mais autêntico, mais "ele mesmo", sem nenhum sinal perceptível de pose, imitação ou cinismo. Eis um cara que me ensinou algo que eu não posso deixar de considerar como uma sabedoria de vida, e que parece consistir no seguinte: ao invés da repressão das angústias e da insistência nos sorrisos artificiais, prefere expressar tudo que vai dentro do seu coração. Quando tem raiva, grita como um doido, até passar. Quando está melancólico, canta a mais melancólica das canções. Parou de lutar contra a tristeza: se satisfaz em expressá-la, e se salva dela através dessa expressão.

Lembro de ter lido em algum livro de filosofia, já não me lembro qual, a seguinte anedota: o mestre budista pergunta pra seu discípulo o que deve fazer o Iluminado quando recebe uma paulada na cabeça. O discípulo diz: "Não deve se abalar, deve suportar a dor, calar o grito que quer fugir-lhe da garganta, se resignar ao seu destino, aceitar o sofrimento que é inerente à existência humana etc...". O mestre discorda: "Mas não, ficar reprimindo a expressão do sofrimento não é aceitar o sofrimento... O Iluminado, quando recebe uma paulada, faz isso: berra de dor! Aceitar a vida como ela é significa aceitar o sofrimento, aceitar a nossa vontade de protestar contra ele, aceitar gritar de dor quando sentimos dor!"

Frusciante me deu uma lição parecida: não conseguimos ser felizes porque fingimos ser alegres o tempo inteiro e andamos pelo mundo com um sorriso falso na cara e sempre respondendo "tudo bem" a todos "como vai?", mesmo que esse "tudo bem" seja sempre uma mentira deslavada e esse sorriso somente uma máscara para a nossa angústia... Não ousamos botar pra fora todos os maus sentimentos que, por ficarem no interior, meio reprimidos e inexpressados, nos bloqueiam o caminho para uma felicidade mais verdadeira, para uma existência mais genuína. Expressar é exteriorizar. Aquele que só exterioriza alegria e clarões, deixa dentro de si justamente aquele material que deveria ser lançado fora... Não sei se sei me explicar bem. Mas acho que está aí a chave para entender porquê a arte de Frusciante é tão fascinante e pode ser tão importante, existencialmente falando.

Frusciante espalha versos extremamente soturnos por todo o disco ("Life is soooo saaaad!", chora em "Leap Your Bar"; "I see the hope running low. We never found our way home. There is no hope, there are no dreams", canta na desolada "Hope"), mas acaba soando em estado de extrema elevação, talvez dotado de uma felicidade muito mais pura do que aquela que podem conseguir aqueles cujo único serviço na vida é fingir que são alegres o tempo inteiro. "I'm ascending endlessly and I don't even have to try", canta no refrão de "Ascension", e não se trata de simples jogo poético. Qualquer um que ouça Curtains com o coração aberto vai ficar com a impressão de que Frusciante realmente está subindo e subindo e subindo, o mais improvável dos Ícaros, montado nas asas da angústia, rumo ao céu na Terra: I-lu-mi-na-do!...

(publicado no: http://www.dlm.cjb.net)




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Sobre Eduardo Carli de Moraes (Dying Days)

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