Resenha - Bedlam Born - Steeleye Span
Por Raul Branco
Postado em 12 de fevereiro de 2001
A saída da cantora Maddy Prior, última remanescente da primeira formação da banda, parece que mexeu com os componentes do Steeleye Span. Bedlam Born (PRKCD55, Park Records, 2000) será, provavelmente, um choque para fãs antigos e mais voltados para o folk, mas é animador ver um conjunto consagrado e com mais de 30 anos de carreira buscar um novo som e, de volta às raízes, mais rock do que nunca.

Das bandas inglesas que surgiram inspiradas pela fusão de rock e música tradicional, o Steeleye Span foi a única que ousou encarar esta mistura pelo prisma do rock ao invés do folk. A guitarra do Steeleye Span, por exemplo, sempre dividiu a honra dos solos com o violino, enquanto que, em outros grupos, seu papel era, basicamente, fazer a cama para outros instrumentos e mesclar seu timbre apenas para dar um toque de modernidade ao som, deixando o solo para acordeões, violões e violinos.
A introdução da primeira faixa, "Well Done Liar!", já causa estranheza no ouvinte desavisado, que procura um som a la Enya ou Loreena McKennitt: a bateria de Dave Mattacks soa como um cruzamento de Charlie Watts com Lee Kerslake, seguido de um riff de guitarra dobrado pelo baixo, e aí você jura que vai entrar Mick Jagger cantando. Em vez disso, ouvimos Bob Johnson, que, infelizmente, participou em apenas seis das 14 músicas que compõe o álbum. Mal o disco foi lançado, ele e sua Fender Stratocaster largaram o grupo para cuidar de sua vida pessoal, após 28 anos de bons serviços prestados.
Esse clima de riffs de guitarra, baixo e bateria pesada aparecem em outras peças, como "The Beggar", "We Poor Labouring Men" e "John Of Ditchford", onde o destaque fica, nesta última, para o baixista/tecladista/guitarrista/vocalista Tim Haries, figura que vem ganhando cada vez mais espaço na banda. Tanto a levada quanto a frase que Tim executa antes de cantar lembram muito o baixista anterior, Rick Kemp, que retornou ao grupo para a excursão de lançamento do cd, permitindo que Tim assumisse a guitarra.
O mais importante para se entender esta nova fase do grupo é sentir o clima do disco, muito denso. Mesmo uma balada como "I See His Blood Upon The Rose", cantada por Gay Woods, tem um acompanhamento que, para descrevê-lo, precisamos, no mínimo, de adjetivos como "opressivo", "claustrofóbico", "cavernoso" ou "angustiante".
O disco tem momentos que lembram a velha fórmula, como nas músicas compostas por Peter Knight, "Who Told The Butcher" e "Poor Old Soldier", e numa peça de clima mistíco/onírico (falamos de Enya, certo?), "Beyond The Dreaming Place", mas são exceções. O melhor exemplo é "We Poor Labouring Men". Nunca gravada anteriormente, fazia parte do repertório da banda em shows, onde a base do arranjo eram os vocais harmonizados de Maddy, Gay, Tim, Peter e Bob, secundados pelo teclado com timbre de piano elétrico e a guitarra com o som limpo, sem efeitos, de Bob. Em Bedlam Born, a base passa a ser tanto a guitarra cheia de overdrive quanto o vocal, áspero e seco, ambos por conta do guitarrista Bob Johnson. Esse arranjo condiz mais com a letra, orgulhosa e sarcástica, onde os trabalhadores falam de sua importância, subestimada por uma "elite" profissional composta por fazendeiros, açougueiros e padeiros.
Falando-se em letra, somente cinco são tradicionais. Todos os componentes do grupo, mais do que excelentes arranjadores, são compositores e letristas de grande habilidade, sendo que algumas capturaram tão fortemente a essência do folk que as músicas parecem ter origem popular.
Em resumo: Bedlam Born é ao mesmo tempo uma reviravolta e uma surpresa agradável. Resta saber se, com a ausência de Bob Johnson, a banda manterá esta linha ou partirá para outro tipo de trabalho.
Ficha Técnica:
"Bedlam Born" – Steeleye Span
PRKCD55, Park Records, produzido pelo grupo e mixado por John Etchells e Steve Watkins
Gravado nos estúdios Warehouse (Oxford, Inglaterra) em 2000
Peter Knight: Violinos acústicos e elétricos, teclados e vocais
Bob Johnson: Guitarra, violão e vocais
Gay Woods: Vocais e percussão
Tim Harries: Baixo, guitarra, teclados e vocais
Dave Mattacks: Bateria e percussão
Músicas: "Well Done Liar!", "Who Told The Butcher", "John of Ditchford", "I See His Blood Upon The Rose", "Black Swan", "The Beggar", "Poor Old Sodier", "Arbour", "There Was A Wealthy Merchant", "Beyond The Dreaming Place", "We Poor Labouring Men", "The Connemara Cradle Song", "Stephen" e "The White Cliffs Of Dover".
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