Little Richard: Wop Bop A Loo Bop A Lop Bam Boom

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Por Márcio Ribeiro
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Wop Bop A Loo Bop A Lop Bam Boom. As vocalizações que permeavam as interpretações de Little Richard eram tão inusitadas quanto o seu visual andrógino de topete imenso, maquiagem forte e paletó. Homossexual assumido, pastor protestante e um dos maiores egos que já passaram pelo planeta, dizia ser um presente de Deus para a humanidade.

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Little Richard nasceu Richard Wayne Penniman no dia 5 de dezembro de 1932 em Macon, no estado da Georgia. Terceiro de uma família de doze irmãos, era o filho preterido pelo pai e que sofria deboches dos irmãos por já demonstrar uma sensibilidade típica do que é costumeiramente chamado de mariquinhas. Teve uma infância triste, afastado dos garotos de sua idade, também por causa de um defeito na perna esquerda, mais curta que a direita, o que impedia que ele brincasse normalmente. Aos sete anos sapateava nas ruas para ganhar trocados, aos oito ganhou um concurso local de talentos. Como a maioria dos negros de sua época, aprendeu a cantar em uma igreja evangélica, e no processo aprendeu também a tocar o piano. Cansado de ser motivo de deboche, fugiu de casa aos 14 anos para se juntar a um grupo de músicos andarilhos chamados de Dr. Hudson's Medicine Show, trabalhando como cantor, dançarino e pianista. Richard Penniman mudou seu nome para Little Richard, o "Little" (pequeno) em função de quê, segundo ele, "todos os bluseiros que ele conhecia usavam 'Little' no nome" como Little Walter. Uma vez em Alabama, passou a viajar com Sugar Foot Sam em outro típico Medicine Show, um show de variedades que no final tentava lucrar com a venda de algum remédio, geralmente um tônico feito de ervas.

Em 1951, ganhou um concurso de talentos no 81 Theater, na cidade de Atlanta, capital do seu estado Georgia, o que lhe permitiu gravar seu primeiro disco pela gravadora Victor (antes de se unir à RCA), um compacto que não provocou nenhuma mudança em sua vida artística. Ele, a esta altura, estava lavando pratos em uma lanchonete ligada a uma estação de ônibus. Teve a oportunidade de gravar um segundo compacto que igualmente não lhe trouxe maiores perspectivas. Mesmo assim, tinha montado uma banda própria, para apresentações ocasionais à noite.

Em 1952 juntou-se ao grupo Tempo Toppers, capitaneado por Raymond Taylor e baseado em Nova Orleans, com apresentações constantes no Club Tijuana. Entre 1953 e 54 gravaram quatro músicas para o selo Peacock, em Houston, inicialmente como The Tempo Toppers e depois já como Little Richard and the Deuces of Rhythm. Entre essas gravações, principalmente durante o ano de 1953, Little Richard voltou a sua cidade natal trabalhando fora do âmbito artístico, novamente como Richard Penniman, onde casou e teve um filho.

Em 1955, já com uma nova banda, sua música demonstrava fortes influências não só do gospel que ele trazia da Georgia mas também do rhythm & blues de gente como Roy Brown, Jay Hawkins e Fats Domino. Sua postura artística também já amadurecera para incluir um topete imenso e uma maquiagem facial pesada. Lloyd Price, autor de, entre outras preciosidades, "Lawdy Miss Clawdy", ao assistir a uma apresentação, sugeriu que Richard mandasse uma demo para a Specialty Records. A gravadora ficou satisfeita e Richard assinou um contrato, mas a primeira sessão deixou a desejar. Em um intervalo para o almoço, ao ver um piano em um canto da lanchonete, Little Richard, com sua eterna necessidade de chamar atenção, sentou-se ao piano e começou a tocar uma canção extremamente obscena para a época e cheio de seus "woooo's", que se tornaria parte de sua marca ou assinatura musical. "É isso que queremos nos seus discos", falou o produtor, e assim, surgiu a canção "Tutti Frutti", gravada com uma letra menos picante. E Little Richard nasceu para o mundo. A letra original dizia: A wop bop a loo mop, a good goddam! Tutti Frutti, good booty! (boa bunda).

Pela Specialty Records, entre 1956 e 57, Richard gravou diversas músicas que viriam a ser clássicos do rock de todos os tempos, como “Long Tall Sally”, “Rip It Up”, “Tutti Frutti”, “The Girl Can't Help It”, “Good Golly Miss Molly”, “Slippin' and Slidin'”, “Jenny, Jenny”, “Keep a Knockin'” e “Lucille”, entre outras. Participou de filmes como “The Girl Can't Help It”, “She's Got It” e “Mister Rock And Roll”, que reforçaram sua imagem e ajudaram a divulgar sua música internacionalmente. É apenas justo que parte do seu sucesso seja também creditado à sua banda, composta de excelentes músicos de Nova Orleans, como Lee Allen no sax tenor, Alvin Tyler no sax barítono e de seu baterista favorito, Earl Palmer, que gravou e excursionou com ele por quase toda a carreira.

Vocalista mais virtuoso da primeira fase do rock and roll, Little Richard influenciou com seus falsetes, seu piano e seu temperamento extrovertido, os grandes nomes da história do rock, de Paul McCartney a Robert Plant, de Jerry Lee Lewis a Billy Preston, de Otis Redding a Freddie Mercury, de Elvis Presley a Prince. Sua performance explosiva e insinuação em palco agitavam e levavam o público à loucura, chegando a causar tumultos. Sempre o centro das atenções, sua música ajudou a promover a desmistificação entre brancos e negros, uma vez que os jovens brancos passaram a invadir os espaços reservados aos negros, diretamente em frente ao palco, para dançarem juntos. Assim, jovens brancos puderam perceber melhor a discrepância do tabu racial vinda dos mais velhos e em que eram obrigados a acreditar.

Excursionou durante esse período não somente por todo os Estados Unidos, de costa a costa, como também foi um dos primeiros artistas a levar o rock 'n' roll para a Austrália. Durante sua viagem de volta desta excursão, a meses depois do acidente mortal de outra lenda, Buddy Holly, seu avião teve problemas e Richard em pânico implorou a Deus que, se ele sobrevivesse, largaria a vida artística e voltaria suas energias para espalhar a palavra de Deus. Ele diria depois que o chamado já estava lhe incomodando fazia tempo e que entendeu o incidente no aeroplano como um ultimato de Deus.

Após terminar alguns compromissos restantes, Little Richard abandonou a profissão em 1958, tornando-se novamente Richard Penniman, e passou a cursar a Oakwood Collage Seminary School em Huntsville, Alabama, formando-se em 1961 como bacharel em Teologia. Foi ordenado ministro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, renegando seu passado mundano e se afastando do show business. A gravadora Speciality não gostou nada desta decisão e procurou forçá-lo a se manter como performer, ameaçando-o à ter que assinar um acordo abrindo mão de todos os seus direitos sobre suas canções, como alternativa. Little Richard, porém, estava sério sobre sua crença religiosa e prontamente abriu mão de todos os direitos que detinha sobre sua música. Em 1961 gravou discos religiosos e excursionou pelo sul de igreja a igreja, pregando e cantando hinos religiosos.

Mas Richard não conseguiu ficar mais de três anos longe do rock. Em 1962, viajou para Europa, onde em Hamburgo conheceu os Beatles, seguiu para o Oriente e depois para a Austrália. Em 1963 tocou na Inglaterra, a nova Meca do rock, para se juntar à excursão dos Everly Brothers, que incluía apresentações dos Rolling Stones e Bo Diddley. A TV Granada fez na ocasião, um especial sobre sua carreira. Os tempos mudaram mas as apresentações de Little Richard eram uma das poucas atrações da já velha guarda que ainda mantinha o público pulando. Com a Beatlemania e a posterior psicodelia, a maioria dos grandes astros da primeira fase caíram no esquecimento, como coisa do passado. Mas Richard ainda voltou para a América e fez temporada em Chicago, no City Opera House. Em 1964, bandas como os Beatles e os Rolling Stones, com diversas entrevistas fazendo questão de frisar a importância dos artistas negros americanos na sua música, ajudaram Little Richard a conseguir um hit moderado com a canção "Bama Lama Bama Loo".

Em 1965 fez temporada no Paramount Theater de Nova York. É neste período que Little Richard teve como guitarrista um desconhecido Jimi Hendrix, acorrentado pela obrigação de tocar de modo simples, com afinação tradicional e sem distorção de qualquer espécie. Hendrix foi dispensado pouco antes de Little Richard seguir para uma excursão européia. Eternamente tentando reconquistar o novo público jovem, esses anos, em sua maioria, foram bastante frustrantes para esse gigante do passado. Ainda mais quando cálculos concluíam que até 1968 ele já havia vendido cerca de US$32 milhões em discos ao redor do mundo, nenhum centavo deste dinheiro indo para seu bolso.

Foi somente em 1969, após a psicodelia, com uma onda de revalorizar o rock simples do passado, que Little Richard conseguiu novamente atenção. Entre todos os velhos roqueiros que reapareceram neste "revival", como Gene Vincent, Everly Brothers, Fats Domino e Chubby Checker, entre tantos outros, Little Richard e Chuck Berry foram os únicos a realmente sobressair. É só a partir desta fase que Richard passa a ser visto como uma autêntica mega-estrela de todos os tempos pelo público americano. Ele se auto-pronunciou o "Arquiteto do Rock", seguido por outros títulos como “O Criador”, “O Emancipador”, “O Inventor”, e é claro, nada menos do que "O Verdadeiro Rei do Rock 'n' Roll". Outro apelido curioso que ele recebeu foi "O Liberace de Bronze". Richard ainda conseguiu em 1970 outro hit moderado com "Freedom Blues". Passou o restante da primeira parte da década de 70 aparecendo em "talk-shows", dando entrevistas e fazendo pequenas apresentações em eventos nostálgicos.

Ao final de 1976, em eterno duelo com seu "outro lado", Little Richard sucumbiu novamente para a respeitabilidade de Reverendo Richard Penniman. Mas como passou a ser visto como um ícone do rock 'n' roll, seus sermões apareceram nos jornais fora de contexto. Em tais sermões, ele pregava a força absoluta da fé com frases como "Se Deus pode salvar um velho homossexual como eu, ele pode salvar qualquer um". Em jornais sensacionalistas, a frase foi explorada indevidamente e a opinião pública o viu como um traidor decadente.

Com o tempo e a idade, o artista Little Richard e seu alter ego, o Reverendo Richard Penniman, aparentemente aprenderam a conviver em paz dentro do corpo desta personalidade tão complexa. Little Richard reapareceu em 1986 para a filmagem de "Down And Out In Beverly Hills", uma comédia com Richard Drefuss e Betty Midler, onde Little Richard rouba o espetáculo como o vizinho que se irrita facilmente. O filme abriria caminho para o seu último hit até o presente, a canção "Great Gosh O' Mighty". Ainda em 1986 ele foi convidado a entrar para o Rock 'n' Roll Hall of Fame, o chamado Corredor da Fama, misto de museu e título de honra para seus membros. Durante o seu discurso de agradecimento, ele começou a chorar em público, ato incomum para este artista geralmente muito seguro de si. Em seu discurso de agradecimento, declarou que este tipo de reconhecimento é como um sonho se realizando. Pouco depois Richard Penniman voltou a pregar a palavra de Deus enquanto processava a Speciality Records, querendo reaver o dinheiro dos direitos das vendas de seus discos. Infelizmente, depois de o processo correr por quase um ano, a Justiça considerou o documento que ele assinou legal e ele fica mesmo sem direito àquela fortuna.

Durante a década de 90, novamente como Little Richard, ele passou a freqüentar a televisão americana constantemente, entre participações em seriados como Miami Vice, a documentários como "A Tribute To Woody Guthrie And Leadbelly", e propagandas como a do McDonald’s. Gravou uma participação no disco infantil da Disney "For Our Children", fez backing vocals para o dueto entre Bono Vox e BB King, "When Love Comes To Town", apareceu no Vila Sésamo participando do quadro "Kurmit Unpigged", sátira à série Unplugged da MTV, cantando "She Drives Me Crazy" e contracenando com Caco, o sapo.

Recebeu outros prêmios na década de 90, como o “Lifetime Achievement Award”, da National Academy of Recording Arts and Sciences, o “Pioneer Award”, da Rhythm & Blues Foundation, em 1994, e em reconhecimento por todas as suas contribuições e vasta influência em tantos artistas posterior ao seu auge, foi presenteado com o extremamente prestigioso “Award of Merit” pela American Music Awards, em 1997, outro momento de intensa emoção em sua carreira.

A partir de 1997, Little Richard voltou a excursionar pelo mundo com incrível disposição para um homem acima de sessenta e sete anos de idade, mantendo intacta sua imagem de roqueiro selvagem. Com incrível bom humor, ele explica que está em paz não só com sua persona artística como também com o verdadeiro Richard Penniman que existe atrás deste artista. Antes de ele poder ajudar os outros, ele precisava chegar a este meio-termo.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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