Áudio: você se importa com a qualidade do que ouve?

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Áudio: você se importa com a qualidade do que ouve?


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Você deve se lembrar do tipo: largado numa poltrona, viajando ao som de Rachmaninoff, Reinhardt ou os Rolling Stones, encobertos pelo supra-sumo, primo, topo de linha dos aparelhos de som estéreo que um aficionado poderia ter dinheiro pra comprar.

Na cadência robótica da década de 80, o audiófilo podia ouvir seus componentes favoritos, que podiam incluir um amplificador de sistema de tubos Premier One fabricado pela Conrad-Johnson, um toca-discos Sapphire, uma cápsula Ortofon MC-2000 e um par de falantes Magneplanar.

Esquisito? Provavelmente.

Mas o audiófilo era um símbolo da Era Áurea da Audiofonia, um tempo quando certas pessoas adoravam ao altar de equipamento caro de alta fidelidade de estéreo de dois canais. Eles eram cavaleiros errantes em uma eterna procura pela perfeição em áudio – a reprodução exata de uma performance original.

Eis a maneira que um jornalista do (jornal estadunidense) New York Times descreveu um sistema do tipo ‘cálice sagrado’ em 1980: “Há uma maior transparência de texturas orquestrais, dando a cada instrumento uma presença quase tátil”. Os debates teológicos embatiam defensores da amplificação valvulada contra os que preferiam amplificação transistorizada. As sagradas escrituras eram revistas como a Stereo Review e a High Fidelity. Lojas de áudio eram altares sacros.

E daí veio a revolução dos bárbaros. O paraibinha, o Walkman e outros aparelhos de mão tornaram a música mais portátil. O som digital permitiu aos ouvintes estocar grandes quantidades de arquivos musicais comprimidos e fáceis de baixar – primeiro por computadores, depois por aparelhos em miniatura e telefones celulares. A qualidade nas gravações foi sacrificada por velocidade e conveniência. A altura (ou amplitude) se tornou mais importante do que a clareza. A riqueza e o calor de uma gravação foram substituídos por metal barato e pompa.

Estamos em 2011. E em meio aos iPods com seus fones de ouvido, smart phones e tocadores de MP3, não dá pra não pensar: o que será que aconteceu com o audiófilo?

A Paisagem Mudou

“Ainda há pessoas que apaixonadamente compram a mais alta qualidade de som possível em seu equipamento de execução, e estão dispostos a gastar grandes quantias de sua renda nos melhores falantes, amplificadores ou toca-discos de vinil”, diz Mark Katz, um professor adjunto de música na Universidade da Carolina do Norte, Chapel Hill, e autor de Capturing Sound: How Technology Has Changed Music. “Uma vez dito isso, o cenário – ou talvez a paisagem sonora – mudou.”

A qualidade do som raramente é abordada em conversas sobre música hoje em dia, diz Katz, e para muitos ouvintes, a alta fidelidade não é nem digna de ser discutida, “especialmente pelas pessoas muitas vezes ouvirem música em ambientes barulhentos.”

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Ouvir música costumava ser um evento de agregação, de ficar parado. Agora é algo que as pessoas fazem enquanto fazem outra coisa, como comer enquanto dirigem ou conversando num telefone enquanto caminham. A experiência de ouvir música hoje em dia, diz Timothy Doyle, da Consumer Electronics Association, “não tem nada de diferente de usar um computador pessoal: é uma proposta de multilocalização 24 horas por dia, 7 dias por semana; as pessoas estão levando sua música com elas, e como um todo, o mundo mudou então há simplesmente menos e menos propósito ‘da velha guarda’ em sentar e ouvir música.”

Chequem as estatísticas: em 1998, o New York Times estimou que as vendas de áudio high-end totalizavam aproximadamente US$ 500 milhões por ano. Em 2010, a CEA diz que as vendas estacionaram em US$200 milhões.

Definir áudio high-end é uma tarefa capciosa, diz Doyle. E “não é inteiramente uma questão de vendas caírem tanto como é de vendas sendo espalhadas ao longo de um espectro mais amplo de produtos e empresas.” Ele aponta que deflação de preços e competição internacional também afetam os números das vendas.

Mas “o que pega aqui,” diz Doyle, “é que o mercado encolheu e não cresceu.” E talvez, Doyle e outros sugerem, o mercado de áudio esteja de movendo para uma metamorfose – estilo estéreo. Em um canal: enquanto as vendas de aparelhagem de alta qualidade que desempenham som de alta definição podem ter diminuído, as vendas de aparelhos baratos que alcançam uma qualidade de áudio melhor e melhor – tais como aqueles vendidos em lojas de departamento – estão subindo. No outro canal: alguns consumidores de mídia que no passado teriam sido considerados audiófilos voltaram suas paixões – e holerites – para outros sistemas de execução, incluindo televisores de tela plana Brobdingnagian, home theaters e instalações audiovisuais para vários ambientes.

Não Mais Trancado em Um Só Formato

Para Jon Iverson, do website da Stereophile, os audiófilos estão para sempre se movimentando em ritmo constante – e em sincronia com – os amantes de música não tão comprometidos. “O Mercado de massa seleciona e os audiófilos aperfeiçoam,” ele diz. “A execução do vinil foi primeiro um sucesso no mercado de massa, e os audiófilos a aperfeiçoaram e ainda o fazem. Depois veio o CD e os audiófilos e as empresas de áudio high end passaram as últimas décadas aperfeiçoando tecnologia de áudio para o formato disco. Isso sempre vai ser assim;

O contragolpe de otimismo, Iverson diz, é que o mundo digital online/download é, de fato, “a maior oportunidade para audiófilos até agora.” E, à medida que os audiófilos empurram as empresas para aperfeiçoarem a audição de música via internet, a Segunda Era áurea da Audiofonia pode estar tendo sua alvorada.

“Começou meio difícil com arquivos comprimidos em MP3 e iTunes, que, pra ser franco, tem um som OK, mas não bom,” diz Iverson. “Mas o mercado de massa tem claramente aceitado a música online. E veremos esses formatos rumarem para resolução mais alta à medida que a banda larga permitir. E já estamos vendo isso com o iTunes e web sites como o HDTracks.com.”

Também há uma vasta comunidade online underground de fãs de arquivos de alta resolução que exigem tecnologia de transferência melhor e melhor para todos os tipos de música, diz Iverson. “É fascinante ver as discussões sobre qual masterização de um clássico é melhor. Existem as primeiras tiragens, remasterizações, edições especiais, versões japonesas, et Cetera, e daí muitas maneiras de transferir tais títulos em alta resolução para um disco rígido de um disco flexível.”

Iverson fica excitado com a possibilidade de a Apple introduzir iTunes de resolução mais alta. “Mais eis a questão,” ele diz. “Uma vez que não estamos mais presos a um formato físico como o LP ou CD, há bem mais flexibilidade para introduzir formatos de áudio de resolução mais alta num mundo online. Então o potencial para audiófilos é maior do que jamais foi antes para ter um formato direcionado a eles que coincida com o mercado de massa. E talvez mesmo com o equipamento de áudio de alta fidelidade que você compra em lojas de departamento e supermercados".

Cercados pelo Som

No front do home-theater, Mike Metter, editor-chefe da revista Sound + Vision, vê muitos audiófilos tornarem-se videófilos. “À medida que o boom do home theater começou a explodir de verdade, uma década atrás,” ele diz, “os audiófilos mergulharam nisso relativamente interessados, uma vez que nós também apreciamos os benefícios de assistir uma ótima imagem em uma bela tela ou televisão. Mas tudo remete a reforçar nossa paixão inerente por um ótimo som.”

Para Mettler, som bom hoje em dia é achado “ligando aparelhos de televisão de alta definição a sistemas de som surround.” Também conhecido como sistemas 5.1, a configuração de seis falantes é feita de falantes frontais esquerdos e direitos; um canal central, usado para diálogos na maioria das vezes; canais traseiros esquerdo e direito e um subwoofer – o 1 da equação – para definir a categoria de base do espectro do som. Você também pode comprar sistemas 7.1 e 11.1.

Tais conglomerações, diz Mettler, “espelham-se nos 360 graus de áudio com os quais lidamos em nossa vida cotidiana, e elas servem para enriquecer a experiência audiovisual como um todo. Pense na sensação de sentir que você está no meio da torcida barulhenta de um estádio enquanto assiste a futebol americano em alta definição. Ou ouvir um carro literalmente passar pelas caixas frontais e parar no ponto atrás de você que corresponde exatamente ao que você vê o carro fazendo na tela.”

O som Surround “faz você se sentir como se você estivesse lá,” diz Mettler, e “isso é uma das principais maneiras pelas quais o audiófilo entra em intersecção com o vídeo. Quando o A e o V estão trabalhando em conjunto, é realmente algo lindo.

‘Totalmente Obcecada por Som’

Partes do debate são apenas muito barulho para Laurie Monblatt, uma pintora e escultura da Virgínia do Norte e uma audiófila convicta. “Eu acho que eu sou o que você pode descrever como totalmente obcecada por som,” diz Monblatt. “Eu tenho tido essa doença por mais de 30 anos. Minhas aventuras sonoras começaram quanto eu tinha 15 anos; eu agora tenho 56. Eu cresci no norte do estado de Nova Jérsei e podia ser encontrada no (casa de show) Fillmore East ou o The Bottom Line, assim como em muitas outras casas, na maioria dos finais de semana.”

Ela continua, “Minha paixão por música era tremenda e permanece assim até hoje.” Vamos deixar que Monblatt descreva sua aparelhagem: “Eu tenho uma sala só pra audição em dois canais. Minha paixão é por tubos a vácuo e esse sistema consiste de um amplificador valvulado KT88, um pré-amplificador valvulado, um CD Player valvulado, um conversor digital – analógico valvulado ligado a um iMac para arquivos digitais e um maravilhoso par de falantes muito eficientes. A energia elétrica da sala vem de fontes separadas.”

Ao longo dos anos, “muitos componentes vieram e foram – tanto transistorizados como valvulados,” ela diz, “mas à medida que minha obsessão crescia, ficou óbvio para meus ouvidos que válvulas me fornecem mais do ‘lance real’ no que diz respeito à textura, vigor, amplitude e tonalidade. Eu poderia continuar e continuar...”

Cada componente em sua sala de som está estrategicamente colocado para tornar o som perfeito. As paredes são tratadas acusticamente para assegurar um ambiente de audição mais apurado.

Quando ela senta em um sofá confortável, no ponto exato onde todo o som s converge, e ela escuta a Paul McCartney cantando "Blackbird", ela consegue ouvi-lo de maneira tão perfeita que ela pode notar McCartney batendo a palma da mão contra seu apertado jeans azul. É um barulho de palma bem distinto, ela afirma, e bem diferente do que seria se Sir Paul vestisse calças de lã.

Não há equipamento de vídeo na sala de audição de modo algum. E quando Monblatt se senta no sofá, ela não lê ou manda torpedos ou conversa.

Então se você um dia quiser perguntar a Laurie Monblatt para onde foram todos os audiófilos, eis onde você provavelmente irá encontrá-la. Em seu santuário de som. Apenas ela e sua música.

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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