Tears For Fears: uma apresentação que envolve os fãs

Resenha - Tears For Fears (Espaço das Américas, São Paulo, 22/11/2012)

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Por Ricardo Avari
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O TEARS FOR FEARS tem algumas coisas a ensinar para quem faz turnês por aí. Com um repertório rigorosamente igual ao de seu show de um ano atrás (após 15 anos de ausência, um show por ano é um deleite para os fãs), a banda de Curt Smith e Roland Orzabal mostra que ainda assim consegue fazer uma apresentação que envolve os fãs como se estivessem em um bar.

Fotos: Roberta Forster

Para comparar, o mesmo Espaço das Américas semanas antes recebera o show de Slash, que com enorme apuro técnico, bom repertório e um dos maiores instrumentistas vivos em sua grande forma conseguiu ser uma das coisas mais frias que já vi em cena.

A principal, se não única, diferença entre o show do Credicard Hall de 2011 e este foi a troca de backing vocal. A carismática Carina Round no lugar do competente Michael Wainwright. Como este há um ano, foi dela a apresentação de abertura, voz-e-violão, com cinco músicas que surpreenderam o público. Seu estilo lembra Kate Melua ou Joss Stone com a vantagem de não parecer se preocupar com a aura de sofisticação destas. Que venha uma carreira de sucesso!

E enfim, a banda. Pontualmente às 22:30, começaram os acordes de "Everybody Wants to Rule the World". O primeiro a entrar no palco, Orzabal não estava em sua melhor forma, o que beneficiou o carisma tímido de Smith e lhe deu mais chances de crescer em palco. Em compensação, as caras e bocas de Orzabal continuam imbatíveis, e seus agudos que brincavam com a previsibilidade do hit já anunciavam que este seria um show menos técnico e formal.

Talvez mais preparada, a platéia recebeu melhor músicas que estão fora do repertório classico, como a potente "Secret World" que seguiu-se. E então "Sowing the Seeds of Love" arrebatou os poucos ainda perdidos em meio às centenas de câmeras que sempre infestam as primeiras músicas de todo show atual.

Enfim, momento de falar com o público. Auxiliado por um cartaz fonético no chão, Orzabal saudou a plateia e rasgou elogios à "Fénthástica" nova integrante da trupe.

Vieram então "Change", as recentes "Call Me Mellow" e "Everybody Loves a Happy Ending", que figura no ultimo trabalho de estúdio da banda, de 2004! Esta falta de renovação no repertório não incomodou os fãs. Tomando a palavra, e avisando que a próxima foi muito regravada mas não igualada, Smith começou uma interpretação brilhante de "Mad World". Interagindo pela primeira vez em "Memories fade", Orzabal e Smith – que já tiveram rixas de deixar Slash e Axl Rose tremendo de medo debaixo da cama – provaram que o profissionalismo da dupla supera as desavenças e coloca o público em primeiro lugar. É perceptível que ambos tem uma relação estritamente musical, e ela é muito boa.
Um adendo: alguém grita "Toca Raul" na plateia, e Orzabal responde gritando o refrão de "Raoul and the King of Spain". Deveria ter tocado a música, uma das melhores da era sem Smith. O TEARS FOR FEARS é a única banda internacional que pode realmente tocar Raul quando solicitado!

Veio então "Closest Thing to Heaven", talvez a última música da dupla a alcançar o status de hit, e a versão estranha, blueseira e dramática de "Billie Jean" que, apesar de tudo, deve deixar Michael Jackson feliz na tumba e fez a galera suspirar pela bela backing vocal. A quase desconhecida, e muito boa, "Floating down the river" fecha o ciclo de canções recentes e, após algumas brincadeiras instrumentais, chega o momento que encheu o Espaço das Américas: a sequência de velhas conhecidas.

Começou pela arrepiante interpretação de Curt Smith em "Advice for the Young at Heart". Mas esta nem se comparou ao que considero o auge do show, "Badman's Song", talvez a obra-prima do TEARS FOR FEARS, que mostra tudo que fez deles um dos maiores expoentes de sua geração. Carina Round, que até então teve participação discreta em seu papel de apoio, tem aí chance de mostrar sua extensão vocal e carisma. Segue com "Pale Shelter", e depois a única música da fase em que Smith esteve fora da banda, "Break It Down Again".

Esta etapa fecha com "Head Over Heels" e vem a pausa antes dos grandes hits. Ninguém mais acredita em momentos de Bis espontâneo em shows, e todos ficaram imóveis até a volta, com os primeiros acordes de "Woman In Chains". Ali a nova backing vocal escorregou um pouco, sendo inevitável a comparação com a vocalista original da gravação, a insuperável Oleta Adams. Mas tampouco foi uma interpretação vergonhosa, e mereceu os aplausos ao fim. E ao fim, veio "Shout", o melhor coral da noite e única música que Orzabal e Smith tocaram lado a lado.

O Espaço das Américas se mostrou adequadíssimo para este e outros shows de médio e pequeno porte – apesar da decoração de formatura – e a organização da produtora merece igualmente meu respeito. E enfim, a descrição da noite não consegue mostrar o principal: o TEARS FOR FEARS é uma das melhores bandas ao vivo ainda na ativa de sua geração. Seu carisma, comprometimento com o público, profissionalismo e até suas brincadeiras colocam no chinelo muitos nomes maiores que tem pisado em palcos brasileiros, e esta é a principal coisa que todo músico precisa saber quando vai lidar com sua audiência, seja de fãs ou não.

Setlist:

01 - Everybody Wants to Rule the World
02 - Secret World
03 - Sowing the Seeds of Love
04 - Change
05 - Call Me Mellow
06 - Everybody Loves a Happy Ending
07 - Mad World
08 - Memories Fade
09 - Closest Thing to Heaven
10 - Billie Jean (Michael Jackson cover)
11 - Floating down the river.
12 - Advice for the Young at Heart
13 - Badman's Song
14 - Pale Shelter
15 - Break It Down Again
16 - Head Over Heels

Bis:
17 - Woman In Chains
18 - Shout



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Sobre Ricardo Avari

Ricardo Avari é biólogo, ator e arqueiro, ouvia rock já como feto e não tirou as guitarras da cabeça desde então. Perdeu a conta de quantos shows já viu na vida desde o segundo em que esteve (desconsidera o primeiro) e ri de quem acredita que o rock está no passado.

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