Resenha - Shaman (Credicard Hall, São Paulo, 05/04/2003)
Por Thiago Sarkis
Postado em 05 de abril de 2003
Fotos por Carolina Oliveira
A superprodução apresentada pelo Shaman em São Paulo no dia 05 de Abril de 2003 nos possibilita duas vias de comentários completamente diversas, sendo que ambas têm toda a capacidade de não agradar nem a gregos, nem a troianos. De um lado, temos uma série de momentos históricos que dificilmente se repetirão e que funcionaram fantasticamente ao vivo. Do outro, há um cheiro de carne crua no ar. Resta-me a complicada tarefa de escolher qual a linha seguir, mas opto pela primeira e dou algumas pitadas no "restaurante japonês" ao final. Soa esquisito, contudo ficará amplamente compreensível ao longo do texto.
Dois dias após a apresentação de Joe Satriani e o Credicard Hall recebia novamente um excelente público, o qual sofria com a leve e tradicional garoa da capital paulista, e também com as imensas filas enfrentadas, inerentes a qualquer atividade realizada no país. Lamentável em outras situações, entretanto, de certo, aceitável em shows de tal proporção - até o ponto em que a paciência não se esgote, é claro.
Dentre os presentes, figuras de destaque como Marcelo Nova, Kiko Loureiro, Felipe Andreoli e a estrela máxima, o astro Júnior, acompanhante da pura Sandy em seu projeto "dupla solo" de ‘true popnejo teen music’.
Nos bastidores, preparativos para um espetáculo de arrebentar, com convidados e efeitos especiais dignos de um conjunto com anos de estrada e no ponto para entrar definitivamente para a história do metal não só nacional, como também mundial.
Com câmeras em todos os lugares possíveis, e a postos para gravar cada detalhe, feição, entrada e saída dos músicos, mais de setenta técnicos. Para realizar o trabalho de cobertura, chegava a ser complicado não nos trombarmos em lugares reservados à imprensa e sofrermos um vice-versa de trapalhadas. A organização nesse sentido atingiu o razoável apenas, porém nada que não tenha se resolvido em cima da hora, com algumas rodas dos elevados de gravação esmagando pés aqui e ali.
Finalmente então, a banda em cena. André Matos como sempre regendo a platéia e também seus companheiros, começando a apresentação com músicas do álbum de estréia do Shaman, "Ritual". "Ancient Winds", "Here I Am" e "Distant Thunder" anunciavam apenas um bom começo de algo preparado e, principalmente, capaz de se tornar histórico.
O primeiro convidado a aparecer foi Marcus Viana no violino. Sua musicalidade já assusta de início, mas realmente a forma como ele se adapta ao metal, até mesmo em termos de postura e atitude, é inacreditável. Pobres são as bandas góticas e de qualquer outro estilo as quais vivem trabalhando com violinistas, porém nunca tiveram a oportunidade de checar Viana arrebentando em músicas como "Fairy Tale" e "Over Your Head".
Todos já estavam na expectativa de alguma passagem Angra. E ela veio, recheada do soberbo "Holy Land" – apesar da falta da essencial "Nothing To Say" -, contando ainda com "Lisbon" e a fantástica "Time", felizmente incluída no set, já que sua ausência fora sentida em algumas cidades durante a primeira turnê brasileira.
A segunda estrela a adentrar o palco e deixar a noite ainda mais cheia de brilho foi Sascha Paeth, companheiro de Matos no Virgo e renomado músico / produtor. Com toda aquela grandiosidade, numa noite de casa cheia – e que casa, não? – boa sonoridade, entre outras coisas, a escolha tendia a ser pela majestosa "To Be". Contudo, só a sua introdução foi tocada, e emendada com a boa "Crazy Me?".
Depois disso, aí a coisa desandou de vez. O ovacionado vocalista do Edguy entra para a alegria do público, que tenta seguir suas incríveis vocalizações em "Sign Of The Cross" e "Inside" do Avantasia. Matos e Tobias Sammet cantando juntos ao vivo é um dos grandes sonhos de muitos e que se tornou realidade para os que tiveram a sorte de marcar presença no Credicard Hall.
Abrindo parênteses, faz-se importante lembrar das freqüentes paralisações ocorridas durante o espetáculo. Obviamente deu uma esfriada no clima algumas vezes e gravação de vídeo é assim mesmo. Todavia, quando, por exemplo, iniciou-se "Unfinished Allegro", o fervor voltou imediatamente na perspectiva e posterior estampido de "Carry On".
Difícil dar o destaque do show, porém, ouvir a consciência xingando o presidente norte-americano e cantando incessantemente a clássica "Living For The Night" do Viper é de arrepiar e marca um traço impossível de se apagar daqui para a frente. Furor, sensação, êxtase. Incrível!
Pra completar colocam Michael Weikath e Andi Deris para a execução de "Eagle Fly Free" do Helloween. Mais bagunça e empolgação, noutro momento que arduamente imaginaríamos em ocasiões normais. Bem, a noite não foi normal mesmo, então, pode se beliscar porque tudo foi real, inclusive aquela ‘leve’ vontade de Michael Kiske chutar Deris do palco e cantar a música como ela merece.
No final, "Breaking The Law" do Judas Priest com todos os convidados juntos. Uma surpresa, pois se pressupunha a execução da já tradicional "Painkiller".
Vamos então àquele odor de carne crua mencionado anteriormente. Foi um ‘showzaço’, inesquecível. Como presente nada melhor. Apesar disso, não falo apenas do que foi dado aos fãs, mas da relação temporal das coisas. Já um DVD? Cá entre nós, pode ser muito bom para o agora, porém o Shaman nem tomou forma. Sem desvalorizar qualquer músico, no entanto é óbvio que estamos cara a cara mais com uma vivência da carreira de André Matos do que de qualquer outra coisa. Não é o grupo, e sim um projeto de revivescer um glorioso passado.
Impossível meter o pau num espetáculo deste. E é também compreensível essa passagem onde a banda empolga com suas músicas, mas explode mesmo em seu passado. Todavia, o limite deste "momento" já era. Está na hora de começar a criar novamente, preparar um futuro, e não lançar DVD André Matos, Shaman & Convidados.
Agradecimentos:
Assessoria de Imprensa CIE Brasil
Paulo Baron
Lucas Mello Carvalho Ribeiro
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