O fã não é nenhum idiota, e merece mais respeito
Por Mateus Ribeiro
Postado em 09 de outubro de 2026
Dia desses, enquanto passeava pelo universo quase sempre insalubre das redes sociais, me deparei com uma frase dita por um famoso crítico musical cujo nome você provavelmente conhece. A sentença, repetida diversas vezes tanto por ele quanto por outras pessoas, diz que "todo fã é um idiota".

Somos livres para falar o que quisermos, assim como temos o direito de discordar de toda e qualquer afirmação. Discordo frontalmente da frase acima citada por alguns motivos, que listo a seguir.
Segundo o Dicionário Online de Português, fã é uma "pessoa que tem grande admiração por artistas, figuras públicas ou de quem faz parte do mundo do entretenimento". Nenhuma dessas características faz de um ser humano idiota. Faz?
Devemos levar em consideração que cada pessoa encara a música de uma maneira. Para alguns, é apenas entretenimento, passatempo. Para outros, no entanto, essa ligação vai mais longe: as canções de uma banda ou artista acompanham diferentes fases da vida, ajudam a atravessar momentos difíceis e proporcionam alegrias que nem sempre são fáceis de explicar (ainda mais para quem não faz questão alguma de compreender). A partir dessa relação estreita nasce um apego que muitos não entendem e definem de maneira rasa.
Vamos tomar como exemplo outro vídeo do referido youtuber, gravado em frente a uma casa de shows na qual uma famosa banda de heavy metal, conhecida pela paixão exacerbada de sua base de fãs, se apresentaria. Aparentemente disposto a provar seu ponto de vista a respeito do grupo, ele começou a questionar os presentes sobre o que há por trás de tanta admiração, como se realmente precisasse existir alguma resposta para explicar tal paixão.
As respostas dos fãs não foram exatamente simpáticas. Alguns até o ofenderam com palavras de baixo calão. Ponto para o repórter, que conseguiu aumentar a própria fama e provar seu ponto em um episódio que hoje renderia muito engajamento (e pouca reflexão, imagino).
Mas será que provocar fãs é uma atitude tão inteligente e descolada quanto parece? Creio que não. Cada um gosta do que bem entende e consome a obra de seu artista predileto da maneira que achar mais adequada. Isso sem falar nas questões afetivas e emocionais: uma banda pode conectar o fã a algum ente querido que não está mais neste mundo, por exemplo. É justo tirar um barato com a cara dessa pessoa? Não me parece.
Quer só ouvir um disco e depois esquecer uma banda por semanas? Tudo bem. Também é válido passar o resto da vida escutando o mesmo conjunto musical, usando camiseta, indo a shows e demonstrando esse amor de muitas formas, desde que não se atrapalhe a vida dos outros, é claro.
O fã não é nenhum idiota, e merece mais respeito. É por conta dessas pessoas apaixonadas que artistas mantêm carreiras longevas. Ou você acha mesmo que, se todo mundo tratasse a música apenas como trilha sonora de elevador, sua banda preferida atravessaria o mundo para se apresentar no Brasil?
Em um mundo tão confuso, cheio de informações, preocupações e notícias ruins, ter algo que desperte sentimentos positivos e com o qual possamos nos identificar é valioso. Para quem encontra tudo isso na música e desenvolve uma ligação profunda com determinados artistas, ser fã não é sinal de idiotice. É apenas uma maneira de cultivar uma paixão que faz bem não apenas aos ouvidos, mas também ao coração.
Talvez idiota mesmo seja a generalização e a mania de repetir discursos prontos e simplistas. Portanto, vale a pena pensar alguns segundos antes de reverberar frases desse tipo, meu amigo e minha amiga.
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