Duff McKagan: as lembranças de quando tocou no Rock In Rio
Por Renato Palhano
Fonte: SeattleWeekly.com
Postado em 06 de dezembro de 2009
O baixista Duff McKagan assina uma coluna semanal toda quinta-feira no SeatlleWeekly.com. Segue abaixo um trecho de uma edição de dezembro de 2009.
"Assim que nosso vôo nos pegou em algum lugar na America Central, o piloto veio nos contar que os Estados Unidos tinham acabado de atacar o Iraque em algo que o Pentágono chamou de Operação Tempestade no Deserto, Isso foi em janeiro de 1991.
Antes da internet ser de conhecimento geral, e antes de haver computadores em quase todos os lares (como há agora), tocar shows de rock em locais longuínquos como o Brasil era uma aventura exótica, para dizer o mínimo. Voar até lá embaixo para ser headliner em duas noites no Rock in Rio Festival era um bocado surreal. Nós não tínhamos idéia se o Guns & Roses tinha fãs nesta parte do mundo ou não.
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Minha primeira viagem para muitas terras estrangeiras, foi graças ao aumento da popularidade de minha banda. Na maioria dos lugares aos quais viajamos pela primeira vez, nós tínhamos uma idéia de quantos fãs tinhamos, porque tinhamos dados sobre as vendagens dos albuns (sim, artistas costumavam vender álbuns!). Mas em quase toda a América do Sul, daqueles tempos até hoje, CDs, camisetas e qualquer outra coisa, eram todos pirateados. Como resultado, e sem nenhum Myspace ou contagem de seguidores no Twitter, nós não tínhamos idéia de quantos fãs iriam ao show para nos ver.
Eu odeio voar. Eu sempre fui claustrofóbico. Um avião é um tubo de metal sem saída. Eu costumava me auto-medicar com o que quer que estivesse disponível. E depois de uma longa viagem como esta com entra e sai e ir e vir, eu estava exausto. O avião aterrizava e centenas de fãs estavam esperando. Eu sou muito tímido. Eles estavam super contentes. Eu me sentia como uma porra de marciano após viajar por tanto tempo e alimentando meu corpo com entorpecentes entoxicantes. Eu tinha então que chegar ao hotel para colocar minha cabeça no lugar.
Por mais engraçado que pareça agora, Billy Idol foi uma referência para mim. Não que ele soubesse disso, e isso não queria dizer que éramos realmente próximos, mas eu o conhecia o suficiente e sabia que ele iria tocar também no RiR. Às vezes, mesmo em minha própria banda eu me sentia totalmente sozinho e alienado. O fato de Billy estar lá, me deu uma sensação de segurança de alguma forma. Eu nunca falei sobre isso, e agora isso parece um pouco bobo e pateta.
Se eu pudesse realmente pintar um quadro sobre como realmente era viajar constantemente, sendo claustrofóbico e sendo adorado e amado, e sendo puxado, e retrebuindo o amor o mais forte que pudesse, e enchendo meu corpo com toda aquela porcaria, o quadro que eu pintaria lembraria algo como subir e descer escadas protegido por um cara bombado vestido de agente secreto. Com meu nome escrito em letras grandes no topo da lista de procurados. Eu sofri de uma gradual mas sólida perda de sanidade durante os três ou quatro anos iniciais. Coisas como essa que são simplesmente insanas pra mim agora, eram absolutamente normais naqueles tempos.
De volta ao fato de não saber se nós tínhamos fãs no Brasil até a conclusão: Aparentemente nós tínhamos e eram muitos. O estádio do Maracanã no Rio era o maior do mundo e nós tocamos duas noites lá.
No ano anterior a estes shows, nós infelizmente tívemos que substituir nosso baterista original por causa de sérios problemas com drogas. Nós tivemos que substituí-lo para que pudêssemos finalmente fazer o nosso novo album e viajar. A sorte estava conosco, e nós achamos Matt Sorum, que havia tocado antes com o The Cult. Matt é um puta baterista e segurou as pontas com firmeza na estrada junto conosco. Estes dois shows no Rio, 175.000 pessoas por noite, com Matt pela primeira vez como nosso baterista. Foi um batismo de fogo... com esteróides!
Aqueles primeiros shows começaram como se fosse um namoro de longa duração, com o lugar e profissão escolhidos e a América do Sul como o resultado final. Naquela primeira viagem, nós descobrimos a absoluta paixão e honestidade que os muitos fãs de rock lá tem sobre música e sobre a vida.
Aquela primeira viagem até lá pra mim, me traz memórias boas e ruins, eu acho. Eu me aborreço quando as pessoas fazem suposições do quão mágica minha banda era naquele tempo. Que nós devíamos nos sentir como princesas e que tudo nos era permitido. Pra mim é a história de 'você sempre quer aquilo que não tem'. Posso dizer que naqueles tempos muitos amigos meus trocariam de lugar comigo. Amigos cujas vidas pareciam normais e nos trilhos, enquanto a minha parecia estar saindo do controle: as pressões no meu peito e o meu estômago doente.
O engraçado é: Ter vivido estas coisas e aprendido todas as lições difíceis, a vida pra mim, como qualquer outra pessoa, é de fato o que você faz dela. Meus momentos de claustrofobia e doieira ainda estão na minha memória, mas não me pertencem mais."
Comente: Quantos anos você tinha quando o Guns tocou pela primeira vez no Rock In Rio?
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