Lars Ulrich: "'Lulu' faz 'Justice' parecer o 1º do Ramones"
Por Nacho Belgrande
Fonte: Site do LoKaos Rock Show
Postado em 04 de outubro de 2011
"Você tem que sentir isso," diz LOU REED olhando duramente para o vocalista e guitarrista do METALLICA, JAMES HETFIELD. "Você tem que acreditar."
Reed, Hetfield e o resto do Metallica – o baterista Lars Ulrich, o guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo – estão sentados no estúdio da banda no condado de Marin, ao norte de São Francisco, conversando sobre ‘The View’, uma das faixas de seu novo disco, Lulu, a ser lançado no dia 1 de novembro. As 10 músicas são provocações à moral e aos tabus sexuais originalmente compostas para uma nova produção berlinense do autor expressionista alemão Frank Wedekind. Mas Lulu é uma colaboração genuína. O Metallica escreveu novos riffs e arranjos e gravou quase tudo, inclusive os vocais, com Reed nesse estúdio.
Hoje, na terceira semana de gravações, Reed está acompanhando o vocal de fundo de Hetfield em ‘The View’, uma resposta à fria obsessão contida na performance vocal de Reed. Hetfield rebate ao estilo do roqueiro de Nova Iorque com sua própria intensidade refletida. "Lou diz, ‘Você tem que passar o que sente, ’", pondera Hetfield depois, durante uma pausa para comer. ‘Fala sério. O que você quer que eu passe? E esses versos não rimam. Tem cinco sílabas nesse, dois nesse." Hetfield então percebe que ele e Reed, que virtualmente inventou o rock de vanguarda nos anos sessenta com o Velvet Underground, têm muito em comum, "já que são alienígenas nesse planeta. ‘Ninguém está me ouvindo. Eu não me encaixo. ’ É inacreditável ouvir essa voz recitando essa letra. Você captou a coisa, cara."
O instrumental do Metallica para ‘The View’, gravado naquele dia na mesma sala onde eles gravaram ‘St. Anger’ de 2003, é uma batida irregular com um acabamento thrash. Hetfield grava mais uns urros por cima, e daí Hammett acrescenta alguns elementos de microfonia, não exatamente um solo, mas de modo perfeitamente furioso. O resultado – como a propulsão que chega a cegar de ‘Pumping Blood’ – é um novo tipo de sombra no metal, um realismo brutal propulsionado pela força física do rock de arena. Reed ouve a uma gravação sem expressão alguma em seu rosto até o último acorde. "Eu me sinto renovado com isso," ele diz sorrindo. "Isso ficou bom demais."
Co-produzido por Reed, Metallica, pelo engenheiro Greg Fidelman e pelo colaborador de longa data de Reed, Hal Willner, ‘Lulu’ é "quase como duas linguagens," diz Ulrich. "Nós temos m-e-t-a-l no nosso nome. Mas podemos ir em qualquer direção e fazer qualquer coisa."
Apesar da diferença de idade – Reed tem 69 anos e os membros do Metallica no fim da casa dos 40 – e a reputação de Reed de ser uma pessoa difícil, há um conforto e uma admiração mútua na sala entre as tomadas. A certa altura, Hetfield desenha uma figura feminina horripilante num bloco de notas e mostra a Reed. "Isso é pra você," Hetfield diz com um risinho cínico. "Essa é a ‘Mistress Dread. ’" Reed ri graciosmente. Quando Hetfield brinca com um violão, e faz uma melodia com a boca, Reed olha firme. "Isso é uma música?", ele pergunta. "Eu guardaria isso."
Reed e Metallica tocaram juntos pela primeira vez em 2009, quando a banda serviu de apoio a Lou no aniversário do Rock and Roll Hall of Fame no Madison Square Garden. Reed sugeriu de imediato que eles gravassem juntos. O plano inicial era novas versões de algumas de suas faixas mais antigas. Mas logo antes das sessões no semestre passado, Reed propôs tentar sua trilha para LuLu. Ulrich se lembra de ouvir, na companhia de Hetfield, às fitas ‘alternativas’ de Reed, com longas partes de cello e um instrumento eletrônico, o Continnum, tocado por Reed e Sarth Calhoun, um membro da banda de Reed [Calhoun também aparece em Lulu.]
"Ele ficou na defensiva, pronto para virar os olhos pra cima," diz Ulrich da reação inicial de Hetfield. "Então você podia ver esse peso tirado das costas dele. Ele sentiu uma ligação. Ele não estava esperando aquilo." Um pequeno verso cantado por Hetfield em "Cheat On Me" – "Why do I cheat on myself?/Well I got nobody else" – poderia ter vindo do Black Album de 1991.
Hammett, cujo pai faleceu em Abril, lembra quando Reed gravou seu vocal para a última faixa de ‘Lulu’, "Junior Dad." "Eu quase chorei," o guitarrista afirma. "Eu não consegui ficar na sala." Dez segundos depois, James entra na cozinha chorando. Lou nocauteou os dois guitarristas do Metallica com um golpe. "Depois disso, qualquer coisa que Lou quisesse, eu topava. Eu tocava."
"Seja lá o que eu bolar, eles fecham comigo," diz Reed com deleite. "Toda essa coisa foi do jeito que deveria ter sido, na minha concepção." E não acabou. Reed e o Metallica estão pensando em promover Lulu com alguns shows ao vivo. E ‘Lulu’ já teve um efeito na composição do próximo disco do Metallica. "Ao invés de começar com riffs, James está pensando em fazer as letras primeiro," diz Ulrich. "O que acontece se a música for inspirada por isso?"
Ao telefone, alguns dias depois de Lulu ter sido masterizado, Ulrich descreve ouvir o disco em um passeio de carro de fim de noite. "Eu fiquei embasbacado," ele confessa. "Eu também senti, Isso é algo realmente único. ’" O quão único? Ele ri. "Isso faz com que… And Justice for All pareça o primeiro disco do Ramones."
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