Dave Ellefson: desesperado por heroína, ele recorreu ao Guns

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Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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Em 1988, o MEGADETH apresentou-se na maior – e mais trágica – edição do festival MONSTERS OF ROCK em Donington, Inglaterra, da qual participaram também o IRON MAIDEN, KISS, DAVID LEE ROTH, HELLOWEEN, GUNS N’ ROSES, entre outros.

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Enquanto vários problemas técnicos se sucediam, como o colapso de um dos telões, dois jovens acabaram morrendo pisoteados na plateia e, em meio a tudo isso, o baixista do Megadeth, DAVE ELLEFSON padecia severamente de sua drogadição à heroína.

O que segue abaixo é um trecho traduzido da autobiografia de Ellefson, “My Life With Deth – Discovering Meaning In A Life of Rock & Roll” – escrito à quatro mãos com a colaboração do autor JOEL MCIVER e prefácio cunhado por ALICE COOPER – no qual ele relata a dor e o desespero daquela ocasião.

[...]

O voo para a Inglaterra era dali a dois ou três dias, e eu estava muito doente com a falta de heroína. Charlie [namorada do baixista] não me deixava ir a canto nenhum sem ela, então eu não podia fugir e comprar nada. Era horrível. Ela me deu um ultimato, dizendo que se eu quisesse ficar com ela, eu teria que ir pra uma clínica no hospital de Van Nuys depois da viagem até Donington.

A sobriedade já despontava no horizonte em 1988. Lembre-se de que naquela época, o AEROSMITH tinha se limpado, tal como os caras do MÖTLEY CRÜE. Músicos veteranos dos anos 60 e 70 como DAVID CROSBY estavam sóbrios, assim como músicos e atores de todos os gêneros. Todo mundo estava falando em público sobre ficar sóbrio, e a indústria do entretenimento estava empolgada com esse novo estilo de vida da vida limpa.

Além do mais, tínhamos contratado novos empresários na McGhee Entertainment, Doc McGhee e seu sócio, Doug Thaler. Eles me disseram, ‘se você quiser se limpar, vamos te ajudar, temos as pessoas certas’, mas eles também deixaram claro que eles não iam mais arrastar gente incapacitada pelo mundo. ‘Cansamos disso’, eles diziam. ‘Não vamos passar por isso de novo. ’

Enquanto os empresários e gravadoras estavam adotando a sobriedade para seus artistas, eu ficava meio tipo, ‘Esse movimento de sobriedade está muito à frente do meu tempo!’ Eu era um menino duma fazenda em Minnesota, e, ao descobrir todo esse sexo, drogas e rock n’ roll, eu estava achando que tinha dado certo. Agora era a hora de enfiar o pé na jaca! Eu tinha visto [o filme] ‘Sid & Nancy’ onde o pai de Nancy pergunta a Sid quais eram os objetivos dele pra vida, e Sid responde, ‘Eu acho que vou mudar pra Paris e morrer no auge da fama’. Era assim que o Megadeth vivia, até certo ponto: a gente acendia o pavio e deixava queimar até que a bomba explodisse.

Voamos de Los Angeles até Nova Iorque e tocamos no Ritz em nosso caminho até a Inglaterra para um show de aquecimento. Eu consegui descolar um pouco de bagulho e ‘ficar de boa’, como chamávamos, então aquela viagem de dois dias foi tranquila. Charlie me encontrou em Nova Iorque e foi comigo até Londres, e claro, você pode ficar chapado o quanto quiser ANTES de entrar num avião. Eu consegui ficar tão louco de heroína quando podia, pura e simplesmente porque eu sabia o que estava por vir.

Chegamos à Inglaterra e fomos de ônibus para o show em Leicestershire. Os caras do GUNS N’ ROSES tinham acabado de chegar lá, e eu achei que eles poderiam estar com um pouco de bagulho, mas eles estavam como eu, no que, quando estavam em casa em Los Angeles, eles podiam estar zoados, mas na estrada, a farra era restrita à bebida. Ninguém tinha heroína. A desintoxicação inevitável, que eu sabia que seria dolorosa, chegava num momento onde eu estava precisar no melhor de minha forma para o maior show da minha vida. Então eu fui pro nosso hotel, o Holiday Inn de Leicester, e fiquei tão doente que todo mundo acabou ficando sabendo. Muitos ficaram bravos porque eu tinha mentido sobre meu vício, mas eles sabiam que, no fundo, eu era um bom garoto, e a preocupação deles superou a raiva.

A natureza doentia do vício em drogas é que, enquanto você está procurando ajuda com uma mão, você está chamando seu traficante com a outra. Um médico veio até o hotel e me deu uma receita de Butalbital, que não me fez efeito algum. Mas ele não teve piedade. “Seu americano noiado!”, ele disse, enojado.

No dia seguinte, de algum modo, eu toquei no show em Donington – o maior show da minha vida, em frente de 107 mil pessoas – mas eu estava tão doente e zuado, eu estava morrendo lá em cima. No palco, eu me chicoteava prum lado e pro outro, usando a adrenalina para me distrair da dor. Logo que saí do palco, eu estava tão doente que eu fui direto pro ônibus e desmontei, ouvindo o KISS ao fundo enquanto íamos de volta ao hotel para dormir.

Logo depois de Donington, tínhamos mais três shows de festivais em estádios programados com o IRON MAIDEN na Alemanha, e eu acabei tendo que cancelar a participação do Megadeth em todos os três pra ir pra casa e entrar em tratamento, tal como eu e Charlie havíamos concordado. Nosso agente, mesmo muito chocado, ficou do meu lado. Eu não sei quem foi responsável por inventar a minha desculpa, que foi que eu havia quebrado meu braço no chuveiro e tinha que cancelar os shows, mas eu queria ser responsabilizado pelos cancelamentos de algum modo, mesmo não querendo que se dissesse “Dave Ellefson é viciado e heroína e tem que se tratar.” Eu não estava pronto pra isso ainda.

[...]

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande foi desde 2004 um dos colaboradores mais lidos do Whiplash.Net. Faleceu no dia 2 de novembro de 2016, vítima de um infarte fulminante. Era extremamente reservado e poucos o conheciam pessoalmente. Estes poucos invariavelmente comentam o quanto era uma pessoa encantadora, ao contrário da persona irascível que encarnou na Internet para irritar tantos mas divertir tantos mais. Por este motivo muitos nunca acreditarão em sua morte. Ele ficaria feliz em saber que até sua morte foi motivo de discórdia e teorias conspiratórias. Mandou bem até o final, Nacho! Valeu! :-)

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