Unreal City: uma das forças do moderno rock progressivo italiano
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 03 de outubro de 2017
A cena do rock progressivo na Itália deve ser uma das mais ocupadas do planeta. Longe da visibilidade quase mainstream dos anos 1970, o prog rock não conseguiu ser exterminado pela disco music ou pelo punk/New Wave e a Bota europeia está salpicada de bandas atendendo às expectativas de apreciadores, que se não muito numerosos, dispõem de eficientes canais de divulgação, gravadoras especializadas e circuito de shows.
Um dos expoentes dessa geração século XXI do RPI (Rock Progressivo Italiano) é o parmesão Unreal City. Idealizada em 2008, pelo enfant terrible Emanuele Tarasconi (vocais e teclados) e pela guitarrista Francesca Zanetta, a banda se materializou em 2010 com a adição de Francesco Orefice (baixo) e Federico Bedostri (bateria). Com esse line up, lançaram EP independente que captou a atenção de Fabio Zuffanti, influente na cena prog ítala, que os apresentou ao selo Mirror Records e envolveu-se na produção do álbum de estreia.
La Crudelitá di Aprile (2013) é deleite para amantes da linha sinfônica e rendeu bastantes elogios ao cantor, que emprega seu nativo italiano. O álbum já traz a marca registrada do Unreal City: sonoridade muito contemporânea, mas carregando toda a tradição setentista, expressa em constantes, fluentes e generosos jorros de teclados analógicos. Guitarras solando em diversos registros, muita teatralidade, alternância de ritmos e tempos, os quase 60 minutos de música têm trechos para agradar roqueiros, góticos, Neo Proggers e a moçada que curte bandas jovens.
No começo de 2015, retornaram com Il Paese del Tramonto. Sete faixas compõem o longo CD, que tem na Overture: Obscurus Fio seu momento mais curto: cinco minutos. Há fãs prog que vão direto na faixa mais longa, atrás de viagem sinfônica, psicodélica, seja qual for seu sub-sub-gênero favorito. Neste caso, tal procedimento é desaconselhável. Ex Tenebrae Lux encerra o álbum com seus mais de 20 minutos meio sem graça e chatos. Se a gente vem das outras faixas até pode funcionar pelo contexto, mas sozinha a suíte não decola.
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Il Paese del Tramonto proporcionará muito prazer a fãs de sinfônico nas quatro ou cinco faixas iniciais, que trazem bastante influência de prog europeu continental da segunda metade dos anos 70. Confira como os teclados lembram o alemão Eloy. A guitarrista Francesca Zanetta tem mais destaque do que no trabalho anterior. Sua guitarra fumega e plange em distintos timbres. Essa novidade foi muito boa, porque o álbum equilibra bem para quem curte chuvas torrenciais de teclados vintage ou solos guitarreiros. Desse modo, a peteca não cai nas primeiras faixas, que, antes de serem complexas, são muito mutáveis. A alteração de ritmos e andamentos dá falsa ideia de complexidade; na verdade, são diversos longos pedaços até que simples (bem) emendados. Em termos de desenvolvimento grupal, Caligari é a faixa mais interessante, porque adiciona toques de música tradicional d’alguma região italiana alegremente traduzidos pela guitarra, constituindo-se na melodia mais marcante de um álbum cujo ponto forte não é ficar na memória. É bom, mas é prog já ouvido muitas vezes, então não gruda, exceto por Caligari.
O quarteto retornou dia 10 de setembro deste ano com Frammenti Noturnni, lançado pela AMS Records. Além de Tarasconi e Zanetta, do quarteto original restou o baixista Dario Pessina; a bateria e percussão foram assumidas por Marco Garbin. O violino atuante e importante em alguns trechos é do convidado Matteo Bertanni. As cinco faixas perfazem quase 48 minutos de música, gravadas entre janeiro e abril na franciscana Pádua.
Unreal City e Frammenti Noturnni são indicados apenas para fãs de rock progressivo sinfônico bem dramático e italiano dos anos 1970. Até a produção soa um pouco como a da época, embora mantenha o alto padrão disponível hoje. Ela só não tem a sensaboria de algumas das coisas produzidas agora. Embora Tarasconi seja o sempre o mais citado e a banda seja mesmo mais centrada nos mais diversos tipos de teclados analógicos, a guitarra de Francesca Zanetta – oscilando entre Hackett, Fripp e Gilmour, sem copiar nenhum – esculpe belos solos em diversos registros e costura por fora e por baixo das camadas de teclado, baixo e percussão criadas pelo quarteto, sempre interessado em melodias, bem ao estilo e gosto do prog italiano setentista de PFM, La Locanda delle Fate e tantas outras. Mesmo nos curtos trechos mais "experimentais" à King Crimson, nem todos os instrumentos estão nessa sintonia. Frammenti Noturnni é muito indicado para repetidas audições.
Tudo começa com os 13 minutos de La Grande Festa de Maschera, dividida em seções, sendo que na primeira Tarasconi pirotecniza com seus Hammonds, Moogs e MiniMoogs, com Zanetta metendo por trás com a guitarra e o violino desenfreado, ou seja, é para desarmar e botar de quatro qualquer fã de prog sinfônico. O resto da faixa varia entre momentos de piano clássico até um final algo sombrio, que se liga com a segunda faixa, Le Luci dele Case (Spente), que abre com delicado órgão eclesiástico e guitarra fininha e fará fãs saudosos do Genesis explodirem em choro convulsivo lá pelo sétimo minuto, quando parece que Banks e Hackett estão duelando num Paraíso eternamente primaveril. Daquelas canções de encher de orgulho o coração de fã de prog sinfônico!
A curta – 5:46 para prog é curto – Barricate tem momentos quase pop, mas no fim há solaço de teclado e guitarra. O clima fica mais urgente em Il Nido delle Sucubbi, mas não chega a hard prog, não se desespere, quem não curte. No encerramento Arrivi All’Alba, voltam as melodias de derreter metal e encher de esperança e luz.
Felizmente, todo cantado em italiano, Frammenti Noturnni não deve nada à geração setentista do Rock Progressivo Italiano ou de qualquer nacionalidade.
Outra banda mais para o lado alternativo da força que não tem desculpa de não ouvir por falta de acesso. Os três LPs estão no Bandcamp:
https://unrealcityprogband.bandcamp.com/album/frammenti-notturni
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