Joy Division: Os 40 anos da derradeira obra-prima,Closer
Por Arlindo Gonçalves
Postado em 19 de julho de 2020
Em 18 de maio de 1980, Ian Curtis, o mítico vocalista e letrista da banda pós-punk Joy Division, cometeu suicídio. Ele tinha apenas 23 anos. Em 15 de julho de 2020, caso a tragédia não tivesse ocorrido, Curtis faria 64 anos.
Dia 18 de julho daquele mesmo ano, Closer, segundo e último LP do grupo, foi lançado. O disco teve diversas repercussões, gerou críticas pela escolha da capa – retratando um monumento funerário italiano –, julgada por muitos como mórbida e oportunista. O próprio Curtis, em nota escrita ao amigo Rob Gretton, prenunciou que o disco seria um fracasso: "A julgar puramente por meus próprios termos, e não para ser interpretado como uma opinião ou reflexão da grande mídia ou pelo gosto do público (...) está decretado que este LP seja um desastre". Não seria. Pelo contrário. A obra é, até hoje, impressionante; um dos discos mais belos dos anos 1980, admirado e cultuado por fãs ao longo de todas essas décadas, seguindo incólume e impressionando seus ouvintes. A história de sua produção também daria um romance.
Para o Joy Division, o ano de 1980 seria trágico e, de início, foi marcado por uma pesada agenda de shows. Antes deles, bem no começo de janeiro, ocorreriam as sessões da primeira gravação da Love will tear us apart, no Pennine Sound Studios, em Oldham. Dois dias depois, tocaram na Holanda em três noites diferentes. Na sequência, vieram apresentações na Bélgica e Alemanha. Em seguida, intensas idas e vindas: Holanda, Bélgica, Holanda de novo, Alemanha mais uma vez...
No início de fevereiro, o Joy Division tocou no projeto Factory Benefit, em Manchester. Contaram com as bandas A Certain Ratio e Section 25 para a abertura do show. Dali até o fim do mês, apresentaram-se em Londres, Preston e Manchester.
Março, já em seu alvorecer, foi marcado pelo lançamento do single Licht und blindheit, do selo Sordide Sentimental. Ele trouxe duas poderosas canções do Joy Division: Atmosphere e Dead souls e foi produzido em tiragem limitada de pouco mais de 1.500 cópias numeradas para venda exclusiva na França. Também no início do mês, a banda tocou no Trinity Hall, em Bristol.
Ainda em março de 1980, o Joy Division foi para Londres com a intenção de gravar seu segundo álbum. Os músicos e a equipe se hospedaram em dois flats em York Street, entre a famosa Baker Street e a Marylebone. Peter Hook, Stephen Morris e Rob Gretton ficaram juntos em um dos endereços. No outro, hospedaram-se Ian Curtis, Bernard Sumner, Martin Hannett e Annik Honoré. Os trabalhos de gravação avançavam noite adentro. Os músicos voltavam para os apartamentos às nove da manhã, dormiam o dia inteiro para, depois, repetirem tudo. Stephen Dalton reporta: "A real história de Closer é menos melodramática e poética; é muito mais humana e complexa". Martin Hannett descreveu o disco como "cabalístico, fechado em seu próprio mundo misterioso". Peter Hook tocou baixo de seis cordas; Bernard Sumner fabricou um par de sintetizadores a partir de alguns kits de instrumentos. Os amigos trocavam de instrumentos e gravam um no lugar do outro. Tudo nessa história foi ímpar.
Agora, quando Closer completa 40 anos, é lançado o livro Joy Division – Closer: testamento musical (Editora Estronho), de autoria do fotógrafo e escritor Arlindo Gonçalves. A obra apresenta essas e outras histórias sobre o disco do quarteto britânico.
Por meio de um conteúdo que mistura ensaios históricos, ficção, relatos de processos criativos, fotografias (do próprio autor) e ilustrações (de Matheus Vigliar), somos apresentados a narrativas inspiradas pelo disco de Ian Curtis & Cia. As emoções íntimas que afloram da audição de cada faixa de Closer invocam o drama de um jovem que sofre pelo desemprego crônico, pela falta de perspectivas, pelo isolamento e pela perda de sentido de sua existência. Essa história real inspira a construção de personagens como dona Joana, uma velha alcóolatra, verdadeira rocha que chora a ausência de um filho executado numa chacina e o casal de artistas fracassados, Tânia e Marcos.
Os textos, organizados e expostos por Arlindo, e conectados ao retrospecto biográfico do Joy Division, servem como um exercício estético de ovacionar Closer em seus 40 anos. Com drama e tom pesado, e também com humor decadente e autodepreciativo (marcas de estilo do autor), o disco é celebrado – não como uma peça mórbida, simples culto ao suicídio de Ian Curtis a inspirar outros a fazerem o mesmo –, mas como uma obra-prima que valoriza o aprendizado pela compreensão dos grandes dramas individuais e coletivos; um triunfo da vontade inspirada pela arte para superar as perdas e o sofrimento humano. Ian Curtis previu que o disco seria um fracasso. Felizmente, ele estava errado.
FONTE: Editora Estronho
https://www.lojaestronho.com.br
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