Os "primeiros punks" segundo Joey Ramone não são quem você imagina
Por Bruce William
Postado em 20 de janeiro de 2026
A palavra "punk" demorou um tempo pra virar um rótulo musical do jeito que a gente entende hoje. Antes disso, ela aparecia como xingamento, como etiqueta pra "encrenca", pra "moleque", pra gente vista como problema. Um uso bem antigo nesse sentido apareceu em 1969, quando o crítico Lester Bangs resenhou o disco de estreia do MC5 e descreveu a banda como "um bando de punks de 16 anos numa viagem de metanfetamina".
O curioso é que o Bangs, sem querer, ajudou a empurrar a palavra pra um canto novo. A Far Out lembra que o termo vem lá de trás (até Shakespeare aparece nessa história), mas o que importa mesmo é: "punk" começou a ser usado pra descrever atitude e som quando ainda não existia uma caixinha pronta pra aquilo. E aí foi virando uma palavra elástica, que servia pra músico "com cara de problema", servia pra banda que assustava pai e mãe, servia pra qualquer coisa que parecesse incômoda.
A própria matéria cita exemplos de jornal chamando Jim Morrison de dono de uma "voz de punk de rua e coroinha", e até frase de colunista resumindo o mundo em "crianças boas e punks". Ou seja: era uma mistura de desprezo com fascínio. O rótulo pegava porque ajudava a apontar algo que muita gente sentia, mas não sabia nomear.

Só que, se alguém podia brincar de "definir" punk sem parecer tese de faculdade, era Joey Ramone. Ele mesmo era um sujeito que não soava igual a ninguém, e o Dee Dee resumiu isso de um jeito ótimo: "Todos os outros cantores [em Nova York] estavam copiando David Johansen (do New York Dolls), que estava copiando Mick Jagger... Mas o Joey era único, totalmente único."
Quando Joey explicava o que chamava de punk, ele puxava a ideia pro lado mais simples, e mais difícil de falsificar: ser indivíduo e bancar a própria cara. A frase dele é bem clara neste sentido: "Pra mim, punk é ser um indivíduo, ir contra a corrente e se levantar e dizer: 'É isso que eu sou'."
E aí vem a parte que desmonta metade das discussões de bar: pra Joey, os "primeiros punks" não precisavam tocar rápido nem vestir couro. Ele citava John Lennon e Elvis Presley. A justificativa é quase desarmante: "Pra mim, John Lennon e Elvis Presley eram punks, porque faziam música que despertava essas emoções nas pessoas. E enquanto tiver gente fazendo música que provoque isso, o punk rock está vivo e bem."
No fundo, o Joey estava tirando o punk do museu de figurino e devolvendo pra onde ele sempre quis estar: no estômago. Se a música cria aquela reação meio física, meio difícil de explicar, ele já colocava o selo ali - seja num trio tosco e barulhento, seja num cara que mudou a cultura pop inteira com um microfone na mão.
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