Quando o Deep Purple substituiu Ritchie Blackmore por um cantor de baladas
Por Bruce William
Postado em 18 de maio de 2026
Christopher Cross ficou conhecido no começo dos anos 80 por um tipo de som bem distante do peso do Deep Purple. Para muita gente, seu nome remete automaticamente a "Sailing", "Ride Like the Wind" e àquele universo mais macio que depois seria associado ao yacht rock, e que muita gente diz que são baladas, de forma genérica. Mas, antes de virar esse cantor de voz suave e canções cuidadosamente polidas, ele era um guitarrista de San Antonio, no Texas, fã de Ritchie Blackmore e acostumado a tocar rock pesado em bandas locais.
É por isso que uma história envolvendo Cross e o Deep Purple parece piada pronta, mas não é. Em 28 de agosto de 1970, a banda britânica tocaria no Jam Factory, em San Antonio, em uma fase decisiva de sua carreira. Deep Purple in Rock havia saído naquele ano, "Black Night" ajudava a empurrar o grupo para outro patamar, e a formação com Ian Gillan, Roger Glover, Jon Lord, Ian Paice e Ritchie Blackmore estava começando a consolidar a identidade mais pesada que marcaria o Purple dali em diante.

O problema é que Blackmore passou mal antes do show. Em entrevista à Ultimate Classic Rock, o guitarrista contou que estava se sentindo miserável, com uma afta sob a língua, dificuldade para comer e falar, além de um mal-estar que se agravou no dia da apresentação. Segundo ele, a situação explodiu quando caminhava pelo corredor com Jon Lord rumo ao show: "Lembro que eu estava muito mal e caminhava pelo corredor com Jon Lord para ir ao show, então me senti muito tonto. Segurei em Jon, e ele me manteve andando. Depois caí, e me levaram para o hospital."
Blackmore disse que os médicos não sabiam exatamente o que ele tinha e que, olhando em retrospecto, talvez fosse uma mistura de doença, desgaste e um estado emocional ruim durante aquela turnê americana. "Eu simplesmente fiquei no hotel, miserável, e [o Deep Purple] foi fazer o show com, acho que o nome dele era Christopher Cross ou algo assim", afirmou. "Era algum outro guitarrista e, felizmente, eles tocaram, porque é uma sensação terrível quando você fica doente na estrada e deixa todo mundo na mão. Você deixa o público na mão, a equipe na mão e a banda na mão."
A versão de Cross já havia aparecido antes aqui mesmo no Whiplash.net, em matéria baseada em entrevista concedida em 2016 ao R7. Nela, Christopher contou que o promotor Joe Miller, que cuidava do show e também tinha ligação com sua carreira local, sugeriu seu nome porque sabia que ele era fã de Blackmore. Cross apareceu com uma Flying V, cabelo comprido e repertório suficiente para encarar parte da noite. Segundo ele, o Deep Purple explicou ao público que Ritchie não estaria ali, tocou as músicas que ele conhecia e completou o restante com jams de blues.
Cross também disse que encontrou Blackmore depois, no aeroporto, quando a banda deixou a cidade. "Quando eles foram embora, fui ao aeroporto e pude conhecer Ritchie, e ele me agradeceu por ter coberto sua ausência. Ele foi legal", contou. A história já foi tratada com desconfiança por alguns integrantes ligados ao Purple ao longo dos anos, mas o próprio Blackmore agora se lembrou de um substituto chamado "Christopher Cross ou algo assim", o que torna o episódio ainda mais saboroso. Não é todo dia que uma memória torta do hard rock ajuda a confirmar uma lenda do yacht rock.
O detalhe curioso é que Cross não entrou ali como "cantor de baladas", porque esse personagem ainda nem existia para o grande público. Seu primeiro álbum solo só sairia em 1979, e "Sailing" viraria sucesso no ano seguinte. Naquela noite de 1970, ele era apenas um guitarrista local tentando não afundar uma apresentação do Deep Purple sem Ritchie Blackmore. Alguns anos depois, o mundo conheceria outro Christopher Cross, bem mais comportado no rádio. Mas, por uma noite, antes do mar calmo de "Sailing", ele pegou uma Flying V e tentou segurar o rojão no lugar de um dos guitarristas mais temperamentais do rock.
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