As três músicas punk que Lemmy escolheu entre as maiores de todos os tempos
Por Bruce William
Postado em 27 de junho de 2026
Lemmy Kilmister nunca precisou vestir uniforme punk para entender o que o punk significava. O Motörhead tinha cabelo comprido, couro, volume absurdo e uma competência musical maior do que boa parte dos grupos que explodiram em meados dos anos 1970. Mas, em espírito, Lemmy sabia que estava muito mais perto daquele levante barulhento do que de certo rock pomposo que ele detestava.
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Para ele, o punk chegou como uma faxina. Lemmy olhava para uma parte do rock da época e via excesso, pose, solos longos demais e um tipo de grandiosidade que já não tinha tanta urgência. O Motörhead, em sua visão, ajudou a varrer esse cenário junto com os punks, mesmo sem soar exatamente como eles. A afinidade estava menos no corte de cabelo e mais na atitude.
Segundo a Far Out, Lemmy já resumiu essa proximidade de maneira bem direta. Ele dizia que, se alguém ouvisse o Motörhead sem ver a aparência da banda, poderia achar que se tratava de um grupo punk. O som era mais pesado, mais sujo e mais veloz do que boa parte do rock tradicional, mas carregava a mesma vontade de quebrar a mobília antes que alguém pedisse licença.
Lemmy não comprava tudo que vinha com o rótulo punk. Ele nunca teve grande entusiasmo pelo The Clash, que considerava uma espécie de música antiga vestida como punk. Mas tinha enorme admiração pelos Ramones. Para ele, Joey Ramone possuía um instinto raro para o rock and roll, aquela capacidade de transformar simplicidade em canção irresistível.
Uma das três músicas punk escolhidas por Lemmy entre as maiores foi justamente "I Wanna Be Sedated", dos Ramones (youtube). A faixa tem aquela combinação que a banda fazia como poucos: riff simples, refrão imediato, humor juvenil e uma ideia tão absurda quanto perfeita. Não era preciso empilhar camadas para soar novo. Bastava acertar a dose de tédio, sarcasmo e energia elétrica.
A segunda escolha de Lemmy foi "Anarchy in the UK", dos Sex Pistols (youtube). Aqui, a admiração passava também pela história pessoal. "Sid Vicious morou no meu apartamento por alguns meses, e eu tentei ensiná-lo a tocar baixo, mas ele era impossível." A tentativa, pelo relato do próprio Lemmy em entrevista à Louder Than War, não foi exatamente um sucesso.
A lembrança continua com o humor cruel típico de Lemmy. Ele contou que Sid apareceu todo empolgado dizendo que havia conseguido o emprego nos Sex Pistols. Lemmy achou que era como parte da equipe técnica, não como baixista. A graça da história está justamente aí: no punk, a falta de domínio técnico podia ser compensada por presença, insolência e vontade de dizer alguma coisa antes que alguém ensinasse o jeito certo.
"Anarchy in the UK" condensava essa ruptura. Não era uma música interessada em pedir entrada no rock estabelecido. Era provocação, manifesto e deboche em pouco mais de três minutos. Lemmy entendia esse impacto porque o Motörhead também nasceu com a missão de tocar alto demais, rápido demais e sem suavizar a própria natureza.
A terceira faixa da lista era "Neat Neat Neat", do The Damned (youtube). Lemmy tinha carinho especial pela banda e via nela uma das encarnações mais verdadeiras do punk. Ao falar à Planet Rock sobre suas escolhas, ele lembrou que participou do primeiro show do grupo quando eles se reuniram novamente e definiu o Damned como a verdadeira personificação do punk em sua cabeça.
Lemmy gostava do fato de o Damned parecer uma reunião de figuras incompatíveis que, no palco, viravam caos organizado. Havia humor, velocidade, personalidade e uma recusa em tratar o rock como cerimônia solene. Esse ponto aproximava o Damned do Motörhead: as duas bandas sabiam que barulho e diversão não eram inimigos da força musical.
As três escolhas dizem muito sobre Lemmy. Ramones, Sex Pistols e Damned não aparecem ali por virtuosismo, nem por sofisticação. Aparecem porque capturaram algo que ele sempre valorizou: impacto imediato, personalidade, desrespeito saudável e uma ligação direta com o rock and roll mais bruto.
No fundo, Lemmy nunca viu uma fronteira tão rígida entre punk, metal e rock. Para ele, o que importava era a energia. "I Wanna Be Sedated", "Anarchy in the UK" e "Neat Neat Neat" tinham essa energia sobrando. Eram músicas curtas, ferozes e cheias de identidade. Exatamente o tipo de coisa que fazia sentido para o homem que passou a vida dizendo que o Motörhead era apenas uma banda de rock and roll.
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