O que os Kinks acharam da versão do Van Halen para "You Really Got Me"
Por Bruce William
Postado em 01 de junho de 2026
"You Really Got Me" já tinha feito seu trabalho uma vez. Em 1964, a música colocou os Kinks no mapa, chegou ao topo da parada britânica e levou a banda ao Top 10 nos Estados Unidos. Aquele riff seco, distorcido e simples parecia uma pedrada curta demais para ser "sofisticada", mas forte o bastante para abrir caminho para muito hard rock, punk e metal que viria depois.
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Quatorze anos mais tarde, a mesma música ajudou outra banda a entrar pela porta da frente. Em janeiro de 1978, o Van Halen lançou sua versão de "You Really Got Me" como primeiro single do álbum de estreia. A gravação vinha depois de "Eruption" no disco, o que tornava tudo ainda mais explosivo: primeiro Eddie Van Halen apresentava sua nova linguagem de guitarra; logo depois, a banda atropelava um clássico dos Kinks com volume, velocidade e David Lee Roth em modo espalhafatoso. A versão chegou ao 36º lugar da Billboard Hot 100.
A escolha não veio do nada. David Lee Roth contou que, nos tempos de bar, comprou uma coletânea dos Kinks, dessas com dezenas de faixas, e o Van Halen aprendeu um lado inteiro do disco para tocar nos clubes. Segundo ele, as músicas funcionavam porque eram boas para dançar e seguravam bem o público da noite. Antes de virar single mundial, "You Really Got Me" era material de sobrevivência em palco pequeno.
A reação dos Kinks, porém, não foi uma coisa só. Dave Davies, guitarrista que havia ajudado a criar o riff original, nunca pareceu muito encantado com a leitura do Van Halen. Em entrevista ao podcast The Magnificent Others with Billy Corgan (via Ultimate Classic Rock), ele chamou a versão de "muito chamativa" e perguntou: "por que eles teriam copiado a nossa gravação?". Em outras ocasiões, foi ainda mais ácido ao falar do som de estádio, das calças apertadas e do estilo cheio de pose daquela releitura.
Dá para entender um pouco a irritação de Dave. Para ele, "You Really Got Me" vinha de outro lugar: um riff bruto, direto, quase acidentalmente perigoso, feito por uma banda britânica tentando abrir espaço em 1964. Na versão do Van Halen, tudo fica maior, mais musculoso e mais exibicionista. Eddie não apenas toca o riff; ele coloca o riff dentro do universo dele, cercado por técnica, harmônicos, bends e aquele brilho de guitarra que parecia anunciar outra década.
Ray Davies foi menos duro. Em 2014, ele disse que a versão foi um grande sucesso para o Van Halen, colocou a banda em uma carreira de excessos e a mandou para a estrada, e que, por isso, ele gostou. Em outra lembrança, resgatada pela Rock And Roll Garage, Ray contou que, durante uma turnê americana dos Kinks na época de Low Budget, um garoto chegou depois de um show e elogiou o "cover da música do Van Halen". Ele disse que era preciso sorrir diante de uma coisa dessas, embora seja fácil imaginar o sorriso meio atravessado.
No fundo, as duas reações fazem sentido. Dave ouviu a própria criação sendo transformada em espetáculo de arena e torceu o nariz. Ray enxergou a ironia, o dinheiro circulando e a permanência da música em outra geração. Para o Van Halen, era um cartão de visita perfeito: uma canção já testada, direta, dançante e com espaço para Eddie mostrar que a guitarra elétrica estava entrando em outro capítulo.
A graça é que "You Really Got Me" sobreviveu às duas versões justamente porque o riff aguenta quase tudo. Com os Kinks, era garagem britânica, distorção rude e urgência adolescente. Com Van Halen, virou fogos de artifício californianos, palco grande e virtuosismo sorrindo de lado. Dave Davies podia achar demais. Ray Davies podia rir da confusão. Mas a música fez o mesmo truque duas vezes: apresentou uma banda ao mundo e deixou guitarristas tentando entender como algo tão simples podia causar tanto estrago.
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