O lendário escritor brasileiro que não curte rock progressivo: "Chatérrima"
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de agosto de 2026
Ruy Castro é o nome por trás de "Chega de Saudade", reconstituição definitiva da bossa nova, e de biografias como "O Anjo Pornográfico" (Nelson Rodrigues), "Estrela Solitária" (Garrincha) e "Carmen" (Carmen Miranda). Sua relação com o rock, no entanto, tem capítulos que fogem completamente dessa imagem - incluindo uma opinião nada diplomática sobre o rock progressivo.

O tema apareceu quando o escritor relembrou, em entrevista à revista Continente, o que ouvia no início dos anos 1980. A trilha daquele período foi a new wave, com o Police como referência principal. Castro explicou o que o agradava naquele som - e aproveitou para dizer o que não o agradava. "Era uma música bem dançante, não era aquela coisa intelectualizada no rock progressivo dos anos 1970, que era chatérrima, nem se tornou depois tão violenta como heavy metal."
O contexto em que ele ouvia essas bandas, porém, é o dado mais revelador da entrevista. "Tive uma recaída roqueira entre 1980 e 1983", contou o escritor, associando o período a um momento pessoal difícil. "Tive uma fase de droga muito violenta, e se você está nessa, do jeito que eu estava, não suporta ouvir nada que não seja rock." O que o atraía era o volume: "Coincidiu com a minha fase de querer ouvir música barulhenta em alto volume, que era só o que eu aguentava fazer."
Nesses anos, Castro abandonou quase por completo o jazz que havia moldado sua formação. "Parei de ouvir jazz nessa época. O único jazzista que eu ouvia era Coltrane." O fim do período veio junto com a superação do vício. "Fui salvo por uma namorada, consegui parar com a droga e voltei à normalidade de ouvir a grande música americana, brasileira e universal."
O escritor também contou por que não entrou na onda dos Beatles como o restante de sua geração. Quando a banda surgiu, em 1963, ele tinha 15 anos e já era ouvinte formado em jazz. "Já era grande ouvinte e fã de Thelonious Monk, Modern Jazz Quartet, Clifford Brown, adorava Charles Mingus", relembrou. "Era um tipo de música tão adulta que eu não precisava ficar tão deslumbrado com 'She Loves You'."
A resistência acabou cedendo. "Os Beatles melhoraram muito, evoluíram, foram fazer outras coisas. Retrospectivamente, passei a gostar até de 'She Loves You' e 'I Want to Hold Your Hand'", admitiu. Castro traça um paralelo entre os dois fenômenos que dominaram a década no Brasil: "Assim como não tinha como fugir da bossa nova na primeira metade dos anos 1960, não tinha como fugir aos Beatles na segunda metade."
Sobre o rock dos anos 1950, a avaliação é igualmente direta. "Era engraçado, era uma cópia do rhythm and blues americano", afirmou. Após o fim dos Beatles, o escritor diz não ter se interessado por nada do que veio depois - com exceção do intervalo de três anos que ele mesmo chama de recaída.
Ainda assim, o repertório da banda britânica ocupa um lugar que Castro não nega. "Do ponto de vista emocional - e música tem muito a ver com isso -, é a trilha sonora da minha vida."
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