O músico que resumia os Estados Unidos para Charlie Watts, dos Rolling Stones
Por Gustavo Maiato
Postado em 02 de novembro de 2026
Para muitos músicos britânicos que despontaram nos anos 1960, os Estados Unidos eram a terra prometida do rock and roll, o país que tinha dado ao mundo Elvis Presley e Little Richard. Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, enxergava aquele território por outra lente. Como lembra Tim Coffman, da Far Out Magazine, o som que para ele traduzia a América não vinha do rock, e sim do jazz, mais precisamente do baixista Charles Mingus.
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A prova está numa lembrança da primeira excursão dos Stones em solo americano. Enquanto nomes como Chuck Berry e Jerry Lee Lewis pouco despertavam seu interesse, Watts gastava as noites atrás de outro tipo de palco, como ele mesmo descreveu: "Na nossa primeira turnê americana, eu fui a cada um dos clubes de jazz. Lembro de ir ao Birdland e ver Charlie Mingus com sua orquestra de 13 integrantes. Aquilo, para mim, era a América. O resto eu não dava a mínima."
Embora seja lembrado como um dos grandes bateristas da história do rock, Watts nunca viveu o gênero com a mesma entrega de Mick Jagger e Keith Richards. Respeitava a raiz no blues de Muddy Waters, mas buscava no jazz ferramentas para ampliar o próprio vocabulário, caminho que Ginger Baker, do Cream, também percorreu. Essa paixão por música americana deixou marcas nos discos dos Stones, que flertaram com o country em "Dead Flowers", com o blues cru em "Midnight Rambler" e com uma jam de clima jazzístico no meio de "Can't You Hear Me Knocking".
O jazz também ajuda a explicar por que Watts jamais entrou na disputa de exibicionismo com os bateristas de sua geração, segundo a Far Out. Onde John Bonham via na bateria a chance de dominar a canção, ele preferia, assim como Ringo Starr, a contenção: sabia a hora de recuar e a hora de empurrar a banda adiante. Era a mesma lógica dos grupos de Mingus, em que a música nascia de instrumentistas ouvindo uns aos outros em tempo real. Anos depois, Keith Richards resumiu essa ideia por escrito:
"Há algo lindamente amigável e edificante num bando de caras tocando música juntos. Esse mundinho maravilhoso, inatacável. É trabalho em equipe de verdade, um cara apoiando os outros, tudo com um único propósito, e sem nada estragando a festa, pelo menos por um tempo. E ninguém regendo, tudo depende de você. É jazz de verdade, esse é o grande segredo. Rock and roll não passa de jazz com uma batida pesada."
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