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Queen: As dez letras mais profundas da banda

Por Rody Cáceres
Fonte: Lanterna Nerd
Em 27/06/16

Não é uma defesa. O Queen não precisa de defesa. Não hoje. Mas nos anos 80 a banda era acusada de escrever letras simplórias, sem cunho social ou político. O próprio Freddie Mercury dizia em entrevistas e shows que muito de sua produção tinha apenas intenções comerciais, sem o mínimo desejo de mudar o mundo. Mas eu discordo de todos, até do próprio Freddie. Quem sou eu, né? Sou fã do Queen desde novinho e tenho o direito e o dever de falar bem da banda que divide com o Iron Maiden o posto de "banda favorita do Rody".

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O Queen tinha uma veia lírica que passava longe do pedantismo e da presunção, por não abusar de formas poéticas ou fazer uso de um léxico pomposo, o que era costume de muitas bandas inglesas que dividiam o mercado com a Rainha nos anos 70. Com seus versos maquiados de simplicidade radiofônica, o Queen alcançou o microcosmos da vida de um infinidade de pessoas, posicionando-se no mais alto posto da história do Rock.

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Mas como disse, não é uma defesa - é um Top 10 de puro deleite. É um momento de revisão da discografia do Queen, um trabalho que me alegra muito, afinal, minha vida não pode ser feita apenas dos erros da Warner/DC (risos para minha piada).

Optei por não colocar vídeos na postagem a fim de não deixar muito pesado o carregamento. Mas deixei o link para agilizar. Que vida linda essa de internet sem limites! Nós merecemos! Trabalhamos muito por isso e já pagamos demais por qualquer coisa.

Simbora pra lista!

1 - Liar – Queen (1973)

Os versos desconexos desta canção precisam de um bom esforço de interpretação para se chegar a algum lugar. POr quase toda a música ouve-se uma voz pedindo perdão por suas mentiras, seus pecados. Seria uma ideia comum se o eu da música se sentisse perdoado após tantos pedidos. Porém, e esse é o ponto grave, não há perdão alcançável, revelando a ideia central da letra: a culpa. Essa música é de Freddie Mercury, do período em que ele começava a experimentar a vida na música - ainda vivendo com Mary Austin, sua eterna companheira - , provavelmente confuso sobre sua condição sexual. Se procurarmos direitinho, muitas das composições de Freddie dos anos 70 estão carregadas com culpa e um desejo irrefreável por liberdade. Liar sem o contexto de Mercury ainda é uma canção sobre a paranoia ocidental da culpa, herança de um dos pilares do ocidente: o Cristianismo.

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2 - Father to Son - Queen 2 (1974)

A paternidade. Mais do que isso, a herança inevitável. Esta canção épica tem como tema uma palavra que é passada de pai para filho, sem que se possa bloqueá-la de alguma maneira, como um contrato que independe das partes. Poucas canções na música Pop tratam da paternidade com esse viés da inevitabilidade. Posso colocar Father to Son lado a lado suas homônimas executadas por Cat Stevens e Bathory. A música relata a tentativa de um pai em convencer seu filho de que não importa o que ele faça, a palavra continuará passando de pai para filho. O que me impressiona nesta canção, e nas três músicas citadas, é o tom conservador de todas, a tentativa de manter o filho no caminho que já esta testado e aprovado. O Queen, mais precisamente Brian May, autor dessa canção, nunca revelou (não que eu tenha visto ou lido) suas preferências políticas. Em 1974, a Inglaterra estava a poucos anos de ganhar a conservadora Margaret Tatcher como sua premiere e, delirando um pouco, talvez Brian tivesse simpatia pela causa. Na superfície, a canção trata da herança inevitável da paternidade. Mas é bom sair um pouco da faixa e encontrar novidades no Queen. Dizem por ai que todo pai se torna um pouco conservador após o nascimento de seu filho. Parece que Brian May já sabia disso.

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3 - The Prophet’s Song – A Night at the Opera (1975)

Mais uma de Brian May. Nessa época, Brian quase morreu de complicações da hepatite. Enquanto estava hospitalizado, Brian sonhou com o fim dos tempos, sonho este que inspirou a letra dessa canção. O panorama descrito na letra é desolador: um profeta anuncia o fim da humanidade e descreve como tudo vai acontece, com detalhes surreais. Parece até roteiro de filme catástrofe. Logo nos primeiros versos o povo é chamado a ouvir o homem sábio e retorna como a pomba branca, clara alusão a pomba de Noé, que retorna à arca com grama no bico, demonstrando que o dilúvio está descendo, revelando terra firme. O final da canção, após bons minutos de virtuoses de todos os membros da banda, apresenta uma catarse perfeita, com a conversão do povo à visão do profeta. As pessoas costumam aliar o Queen a uma visão mais libertária de mundo, mas, como podemos perceber, a produção da banda tem referências diversas, passando por muitas linhas de pensamento. E esse Top me fez perceber quem realmente é Brian May.

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P.S.: O final da faixa, no original, emenda com Love of My Life, numa perfeita continuidade. Sugiro esta experiência

4 - All Dead, All Dead - News of the World (1977)

Essa música já foi considerada uma das mais depressivas dos aos 70. Nada em sua letra resolve o drama do eu-lírico, que considera sua vida terminada pela chegada de uma pessoa indesejada no momento, mas que já fora importante em outro período. É uma incógnita tudo o que está acontecendo na vida desse "eu", porém ele deixa claro que não sabe o motivo de ainda estar vivendo. Em certo ponto ele assume que não tem maturidade para compreender tudo o que acontece ao redor e pede perdão a seu interlocutor, sem sucesso. Aqui temos novamente a velha conhecida "culpa" que transpassa uma boa parte da discografia do Queen sem que percebamos. "All Dead" é um filho perdido em meio a um dos discos mais positivos do Queen, o que a tornou obscura, sendo conhecida apenas pelos fãs mais dedicados. Sugiro que você ouça com amigos,pois ela pode estragar seu dia, e é sempre bom ter alguém para manter o circuito aberto.

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5 - 39 - A Night At The Opera (1975)

39 é, na verdade, um clássico da ficção-científica e a prova de que Brian May era o nerd máximo da banda. A música narra a história de um astronauta que se perde em uma fenda no tempo durante uma viagem espacial. Quando retorna à Terra, passaram-se décadas, e sua amada já está velhinha. Uma das cenas mais bonitas do Rock é quando o astronauta, em seus momentos de desespero, pede para que sua amada escreva cartas na areia da praia, para que ele possa enxergar do espaço. O nome da faixa é o ano em que este astronauta parte em sua viagem espacial, o que nos dá uma ideia da ficção pensada por May, já que os programas espacias de Russia e E.U.A. ganharam força após a Segunda Guerra. Confesso que sinto uma vontade quase incontrolável de chorar todas as vezes que ouço essa música, que é das mais bonitas de toda a trajetória do Rock. Se Freddie Mercury não tivesse composto Bohemian Rhapsody para este disco, 39 seria a grande canção do Queen naquele ano. Só para saber: Brian May, autor da música, hoje tem doutorado em Astrofísica.

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6 – Who Wants to Live Forever – A Kind of Magic (1986)

Mais uma do Brian May. Dessa vez, a história fantástica por trás da composição diz que Brian estava saindo do estúdio no último dia de gravação da trilha sonora do filme Highlander, insatisfeito com a falta de uma canção que definisse o filme. Brian entrou no carro e se perguntou: quem quer viver para sempre? Gênio, voltou para o estúdio e registrou a primeira ideia da canção. Devem ser raros os casos em que alguém se questiona se quer ou não viver para sempre. E estou sendo generoso, pois nunca vi outra música que fizesse essa pergunta. E no contexto da faixa parece um questionamento corriqueiro. Essa sempre foi a vantagem do Queen: se questionar sobre coisas do dia-a-dia. Em um vídeo disponível no Youtube, Neil DeGrasse Tyson responde a um garotinho na plateia sobre o sentido da vida: é o seu dia e tudo que está a seu redor. May, no alto de sua capacidade, tinha percebido isso, e sabia quais temas tocavam as pessoas; assim, compôs diversas letras que iam no ponto certo, levando o ouvinte a concluir a assombrosa simplicidade da existência. Outro exemplo da capacidade lírica de May é Hammer to Fall, do disco The Works (1984) que se disfarça de rock alegre para nos jogar de cara com a realidade. Brian May sabia como alcançar o coração do ouvinte. O sucesso comercial do Queen é prova disso.

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7 – These Are the Day of Our Live – Innuendo (1991)

Ainda sobre a coisas simples da vida. O Queen chegou em seu último disco tendo Freddie Mercury como cantor falando de situações corriqueiras. Tem até música para um gato de estimação de Freddie. Outro fato interessante é que a banda passara a assinar as composições em conjunto após problemas internos sobre direitos autorais. Num mundo onde esse tipo de problema termina bandas, o Queen mostrou sua superioridade no meio artístico. "These..." é sobre envelhecimento e a percepção de quem são os verdadeiros amores de sua vida, testados pelo desgaste dos anos. O eu-lírico da música tem, logo no início da letra, um sentimento que o faz retornar aos anos de juventude e glória, entregando a boa nostalgia a quem o escuta, para mantê-la até o final da canção, que termina com um "eu ainda te amo". Dá pra chorar do início ao fim. Está é uma canção para ouvintes maduros, que já chegaram naquela fase da vida em que os dias passam e a saudade de pessoas, lugares e situações só aumenta. Você pode levar algo em torno de meia hora para voltar ao mundo real após ouvir esta.

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8 – Under Pressure – Hot Space (1982)

Anos 80, a década em que começou a ressaca da civilização. O deslumbre do progresso e do entretenimento de massa, levado ao extremo pela indústria, apoiado por governantes maquiavélicos, não poderia passar pela lente do Queen. Como tenho dito, o Queen enxergava longe – sempre que uma de suas canções tocavam em um tema importante, era o mais profundo possível. Under Pressure fala sobre viver o ponto crítico da civilização, o progresso desenfreado que resultou, segundo a ótica da banda, em um esfriamento dos relacionamentos entre os homens. Cantada a duas vozes, a letra se intercala entre os reclames da voz de David Bowie e a tentativa de restauração da sanidade na voz de Freddie Mercury, que canta as partes mais catárticas, com a possível intenção de aliviar o ouvinte. Em suma, Under Pressure é sobre nossa dificuldade em perceber se estamos caminhando para o fim ou para uma era de realização. E mais: se o caminho que percorremos é o ideal. Essa letra não nos deixa respostas. Hot Space, o disco a qual Under Pressure integra, passa longe de ser bom. Se não fosse essa faixa, talvez estivesse em lugar sombrio da década de 80.

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9 – Scandal – The Miracle (1989)

Chegando ao fim da década, o Queen entendeu no que a mídia do futuro se apoiaria: o sensacionalismo. Não que nas décadas anteriores tal prática não existisse, mas talvez parecesse óbvio à banda o esvaziamento da informação servida à sociedade. Nossa década se dá como prova. Scandal também pode ser pensada como mais um momento em que a condição de Freddie, homossexual e já com AIDS à época, era pensada por ele, que refletia sobre como a revelação de sua doença seria tratada pela mídia. Talvez por pensamentos como esse Freddie tenha escondido da maioria (inclusive da banda) que seus dias se terminavam. Outro ponto interessante da letra é a influência que as notícias exercem na vida de quem está na mira dos holofotes. A banda estava na estrada desde 1973 (fora os anos anteriores de preparação) e conhecia bem os mandos e desmandos da mídia sensacionalista, principalmente Freddie Mercury, que por ter vida de exageros, era perseguido onde fosse. Apesar de nãos ser uma das faixas mais lembradas da banda, ela é um dos melhores resultados musicais dos anos 80, com um riff de guitarra simples mas extremamente expressivo, e uma interpretação magistral de toda a banda.

10 – The Show Must Go On – Innuendo (1991)

Bem difícil terminar essa lista sem essa. Mesmo sabendo que há uma infinidade de grandes canções compostas nesses quase 60 anos de gravações de música popular, não consegui encontrar uma letra e uma canção mais profunda que essa. Sim, existem milhares de outras que falam sobre a morte. Porém, The Show Must Go On dala da morte de um dos maiores ícones e talvez o mais admirado cantor do Rock: Freddie Mercury. Segundo muitos sites, a música foi escrita por Brian May a pedido de Freddie, que queria uma faixa de despedida. A letra retrata perfeitamente a maneira como Mercury viveu, com todo deslumbre e interpretação do grande personagem que ele foi. As últimas sensações do cantor aparecem em versos como "Lá fora o sol está nascendo, mas aqui na escuridão eu anseio por ser livre". Apesar de "The Show..." tratar do final de uma vida e de uma carreira, seu final não é melancólico ou pessimista. Seu verso final diz "Eu tenho que achar a vontade para continuar", momento em que encontramos Brian May na música. May também parece ter colocado uma reflexão profunda sobre o momento da banda: ele sabia que a era do Queen estava acabando, e que novos heróis surgiriam para ocupar o posto deixado pela banda. Esse é um dos poucos caso em que Brian May errou feio, pois nenhuma banda foi capaz ainda de ocupar o lugar desse fenômeno de qualidade artística, sucesso e tenacidade comercial que foi o Queen. É como se o show tivesse definitivamente terminado.

E terminou. Sei que você tem o mesmo sentimento que eu. Mas eu preciso finalizar a postagem. Se você chegou até aqui, me faça um favor: ouça as músicas. Vai ser bom, bastante espiritual e poderá transformar sua semana ou levá-lo a uma experiência mais integrada com o mundo que vivemos.

Portanto, obrigado pela leitura.

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