Dorsal Atlântica: Canudos é uma obra prima do metal nacional
Resenha - Canudos - Dorsal Atlântica
Por Thiago Barcellos
Postado em 02 de março de 2019
Nota: 10 ![]()
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DORSAL sempre foi uma banda que diz o que quer dizer, tocam o que querem tocar e azar de quem não curtir ou concordar com ela. A importância e relevância da DORSAL no metal nacional é algo tão imenso que nossos maiores expoentes no heavy metal mundial sequer existiriam (talvez não da forma como os conhecemos) e o estilo, ainda que marginalizado até os dias de hoje, não estaria onde está. Toda banda de metal no Brasil deve à Dorsal e outras bandas da época seu respeito e gratidão.
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Dito isto (achei que precisava ser dito), vamos ao último álbum da DORSAL, Canudos.
Oriundo de um crowdfunding, Canudos é o disco mais maduro da Dorsal. Não que Carlos e sua DORSAL não sejam "maduros", pois se tem alguém com respaldo para falar de evolução musical aqui é o grande Carlos "Vândalo", que em sua carreira (tanto com a Dorsal como com a Usina LeBlond e Mustang) passeou com maestria pelos mais diversos estilos. Tudo aqui é extremamente bem pensado e bem construído, uma ópera rock digna dos melhores álbuns conceituais do metal mundial e com um tema triste, porém deveras inspirador. Além de 100% tupiniquim. Este é o álbum mais "brasileiro" entregue a nós por Carlos Lopes e CIA.
Canudos foi um episódio lamentável da história brasileira, e o álbum retrata isso de forma franca, clara e objetiva. As letras relatam fielmente os acontecimentos e eventos, bem como suas consequências. Porém, na minha opinião o lirismo escorrega um pouco quando Carlão tenta cruzar referências da guerra de Canudos com a situação política atual do nosso país. Afinal de contas, Canudos é um fato histórico concreto e ao misturar com sua opinião política pessoal Carlão toma lado e a meu ver isso pode prejudicar o entendimento ideal da obra, visto que nosso povo anda envolvido na política da forma mais equivocada possível, que é de não respeitar a opinião alheia. Mas Carlão e DORSAL NUNCA vão amenizar e deixar de mandar sua mensagem, e isso faz parte do DNA da banda e seu mentor. Felizmente, apesar de ter a opinião política 110% diferente do seu criador, sei apreciar canudos como a obra de arte que é além de conseguir entender a mensagem geral e admirar a coragem de Carlão de mexer numa ferida histórica brasileira.
Musicalmente falando, o álbum é recheado de melodias, levadas e vocalizações que nos remetem a ritmos nordestinos. A introdução Canudos já é um bom exemplo disso: Melodia forte que nos prepara para o clima e praticamente nos coloca dentro do cenário da história contada aqui, o sertão no interior da Bahia.
Belo Monte entra quebrando tudo com aquele Thrash/Hardcore tradicional da Dorsal, mas as vocalizações, coros e backings de Carlão atingiram um patamar criativo muito interessante e saltam aos ouvidos já nessa primeira música. Solos memoráveis e levadas de bateria insanas e criativas de Américo Mortágua, um grande amigo meu que infelizmente nos deixou no ano passado (descanse em paz, Mequinho).
Não temos nada a Temer vem um pouco mais pro lado do Hardcore, outra pedrada e é a primeira que projeta conexões dos acontecimentos de Canudos com a atualidade.
O Minuto Antes da Batalha é a mais longa do disco, e a minha favorita. Ótimas melodias, letra inspirada e muitas levadas de baterias insanas. Tem um clipe muito legal pra ela, recomendo assistirem.
Carpideiras é uma curta passagem instrumental bela e triste e com um solo bem inspirado servindo de entrada para A Conselheira, mais um show de melodias e riffs inspirados.
Sonho Acabado é a que mais flerta com a tendenciosa alusão ao cenário político atual e a letra é tão panfletária que chega a parecer discurso de militante político. Liricamente falando é única parte que me desagrada do disco, apesar de que se tratando de Carlos Lopes, o lirismo nunca será banal e é um hardcore pra bater cabeça e abrir roda digno da época clássica da DORSAL então esse incômodo meio que passa batido.
Cocorobó (quer saber o que diabos significa isso? Pesquise a história de Canudos, vale a pena) tem os arranjos vocais mais melodiosos do disco, contrastando o peso e velocidade típicos da banda.
Araçá do Peito Azul de Lear é uma ave da região de canudos e é a canção mais "diferentona" do disco, encontrei algo meio psicodélico nela, principalmente nos vocais.
Gravata Vermelha é outro Thrashão que nos remete a Alea Jacta Est com a letra sobre a decapitação da população de canudos, traídos pelo governo que havia prometido que não haveria execuções (Sério, se você não conhece procure saber a história da guerra de canudos).
Liberdade é a mais brasileira de todas. Sabe a sensação de quando ouvimos Carolina IV ou Holy Land do ANGRA, ou Itsári ou Ratamahatta do SEPULTURA? Só que agora com a cara e identidade da DORSAL ATLÂNTICA. Simplesmente Metal Brasileiro. Claro que os "trues" vão torcer o nariz, mas Carlos, eu e muitos outros não estamos nem aí.
Favela também é bem brasileira, com ótimas levadas de batera e Ordem e Progresso fecha com outra porradaria e tem um final bem interessante, que nos remete a introdução.
Enfim meus caros dispam-se dos preconceitos de letras em português, de musicalidade brasileira e de sua posição política. DORSAL ATLÂNTICA sempre foi uma banda injustiçada, e acaba de lançar uma obra prima. Essa ópera rock entra pro meu hall de discos favoritos e deve ser ouvida por qualquer fã de metal que se preze.
Comprem o CD físico, pois a arte gráfica é belíssima e faz valer cada centavo. Além de ajudar a manter viva uma das mais importantes bandas de metal de todos os tempos.
Tracklist:
1. Canudos
2. Belo Monte
3. Não Temos Nada a Temer
4. O Minuto Antes da Batalha
5. Carpideiras
6. A Conselheira
7. Sonho Acabado
8. Cocorobó
9. Araçá do Peito Azul de Lear
10. Gravata Vermelha
11. Liberdade
12. Favela
13. Ordem e Progresso
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