U2: registro de uma banda ainda virgem

Resenha - Under A Blood Red Sky - U2

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Por Ricardo Seelig
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Com mais de vinte e cinco anos de carreira, há pelo menos quinze o U2 é uma das maiores bandas do mundo. Estranhamente, o grupo de Bono ainda não possui em sua discografia o famoso "duplo ao vivo", aquele álbum celebração que toda grande banda de rock lança um dia.

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Alguns poderão dizer que "Rattle And Hum", registro do filme homônimo dirigido por Phil Joanou e lançado em 1988, cumpre este papel, mas eu acho que não. Muito mais uma trilha para o documentário de Joanou, o álbum traz diversos registros ao vivo durante a turnê americana do disco "The Joshua Tree" e algumas músicas inéditas gravadas em estúdio, e, apesar de ser um ótimo trabalho, não possui a aura mítica que todo grande álbum ao vivo carrega consigo (e que pode ser encontrada, por exemplo, no excelente DVD "Go Home", lançado pelo U2 em 2002, registrando o antológico show realizado pela banda no histórico castelo de Slane Castle, na Irlanda).

Por isso, "Under A Blood Red Sky", EP gravado ao vivo durante um show nas históricas montanhas Red Rocks, no estado americano de Colorado em meados de 83, ainda permanece imbatível. Documento de uma época em que a ideologia da banda era bem mais inocente e juvenil, apresenta um grupo muito distante da grandiosidade que hoje cerca tudo relativo ao seu nome.

Com um repertório focado em seus três primeiros álbuns ("Boy" de 1980, "October" de 1981 e "War" de 1983), o EP apresenta apenas oito faixas, mas o número reduzido de músicas é recompensado com uma performance absolutamente empolgante de toda a banda, com destaque, é claro, para Bono Vox e The Edge. Abrindo com "Gloria" (que infelizmente está fora do set list do grupo há muito tempo), o CD já começa com tudo, com a banda se entregando de corpo e alma ao público. Bono canta como nunca, chamando os fãs a gritarem juntos o refrão, enquanto Edge toca a sua guitarra de forma característica (aliás, para mim, ele é um dos guitarristas mais originais e influentes destes últimos vinte anos, mostrando que ainda há muitos caminhos a serem abertos pelo principal instrumento do rock). O momento em que Bono apresenta a banda no meio da música é inesquecível.

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O show segue com "11 O´Clock Tick Tock" e "I Will Follow", canção emblemática da primeira fase da banda, aqui em uma versão antológica, infinitamente superior a registrada no álbum "War". É muito legal ouvir a canção e perceber como Bono, desde o início, sempre teve um talento natural para erguer e reger a platéia, mantendo o público sempre em suas mãos.

Muito antes de "One" (que só conheceríamos em 91 com o lançamento de "Achtung Baby") o U2 já tinha uma balada matadora, daquelas que fazem um estádio inteiro cantar junto. Simples como somente as boas canções são, "Party Girl" segue o riff da guitarra de Edge e foi executada incessantemente nas rádios em meados dos anos oitenta. Um tesouro perdido no meio das dezenas de canções compostas pelo grupo, e que infelizmente está esquecida pela banda, mas que vale a pena ser (re)descoberta.

Entrando em sua segunda metade, "Under A Blood Red Sky" traz a versão mais conhecida do hino "Sunday Bloody Sunday", uma das canções mais politizadas do U2, e que relata o trágico massacre de católicos e protestantes que ficou marcado na história como o "domingo sangrento" (aliás, vale a pena assistir o filme do mesmo nome, que mostra como esta tragédia acabou acontecendo). A banda se entrega inteiramente durante toda a canção, com destaque para Bono, que parece incorporar todas as almas das vítimas em sua voz, em uma interpretação muito intensa. Não é a toa que, ao lado de "Pride (In The Name Of Love)", "Sunday Bloody Sunday" se transformou na marca registrada da primeira década de carreira do U2.

As três últimas faixas de "Under A Blood Red Sky" são uma celebração. "The Electric Co" é a união da banda de garagem que o U2 foi um dia com os caminhos que o grupo seguiria na década seguinte. "New Year´s Day", uma das canções mais fortes da carreira dos irlandeses, ganha contornos épicos neste EP, seja pelo grito de Bono no início da canção, seja pela performance perfeita de The Edge não só nas guitarras, mas também nas belas melodias de teclado. E "40" revela-se a canção perfeita para fechar um show histórico, com seu refrão emocionante sendo cantado em uníssimo pelos milhares de fãs presentes.

A produção do álbum, feita por Jimmy Iovine, conseguiu captar com rara eficiência a interação entre a banda e a platéia, e o resultado final é que, ao ouvir o CD, você acaba se sentindo como se estivesse no meio do público, a poucos metros de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr.

Um CD obrigatório, registro de uma banda ainda virgem, transbordando tesão, paixão e juventude, em um passado que pavimentou todo o caminho que o grupo seguiu nas décadas seguintes, e que teve um papel muito importante no surgimento de álbuns excelentes como "Achtung Baby" e "All That You Can´t Leave Behind".

Se você é fã do grupo, provavelmente já tem este álbum. Se você não é, ouça e entenda porque o U2 não é apenas uma das maiores bandas de rock das últimas duas décadas, mas também uma das mais relevantes, originais e influentes do estilo.

Faixas:
1. Gloria
2. 11 O´Clock Tick Tock
3. I Will Follow
4. Party Girl
5. Sunday Bloody Sunday
6. The Electric Co
7. New Year´s Day
8. "40"


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