Thin Lizzy e o álbum picareta de covers do Deep Purple que garantiu sua sobrevivência
Por Bruce William
Postado em 15 de agosto de 2022
Matéria da Loudersound relembra a história do Funky Junction, banda criada para gravar um único álbum, um tributo ao Deep Purple, e que contava com os três integrantes da primeira formação do Thin Lizzy: o vocalista e baixista Phil Lynott, o guitarrista Eric Bell e o baterista Brian Downey.
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Mas vamos voltar um pouco no tempo, aproveitando parte das informações do texto da Loudersound: em 1972, o Thin Lizzy havia lançado dois álbuns para a Decca, um auto-intitulado de 1971 e outro no ano seguinte, "Shades of a Blue Orphanage", ambos com uma pegada um pouco mais folk/blues que não atingiram êxito comercial e, com isto, a gravadora estava prestes a demitir a banda, que teria a chance de gravar mais um single e só.
O supergrupo de Ritchie Blackmore e Phil Lynott que poderia ter mudado completamente a história do Rock
Neste meio tempo, por pouco aconteceu algo que mudaria completamente a história do Rock caso tivesse dado certo, que foi o Baby Face, power-trio juntando Ritchie Blackmore e Ian Paice do Deep Purple com Phil Lynott, mas que não aconteceu por diversos motivos, conforme explicou André Garcia nesta matéria chamada "Baby Face, o supergrupo que uniria Deep Purple e Thin Lizzy, mas não saiu do papel", publicada aqui no Whiplash.net.
E para quem acha que isto é apenas uma lenda do Rock, veja esta outra matéria também aqui no Whiplash.net, onde Ritchie em pessoa confirma a história: "Deep Purple: Blackmore cogitou deixar a banda em 1971 para tocar com Phil Lynott".
Retornando ao Thin Lizzy: Lynott botava fé em uma música que ele havia composto, "Black Boys On The Corner", que de acordo com Brian Downey, era vista como algo meio Hendrix mas com uma pegada pop. "Acho que foi a primeira canção que Phil escreveu sobre ser negro, o que foi muito importante para ele", disse o baterista. Mas a gravadora pensava diferente, e acabou relegando "Black Boys" ao lado B do single, que saiu em novembro.
E no lado A estava a releitura do Thin Lizzy para uma canção folk clássica irlandesa chamada "Whiskey In The Jar", o que deixou Phil furioso: "Ele apostava muito em 'Black Boys', mas não estávamos em posição de argumentar", conta o empresário Ted Carroll. "A banda estava no vermelho e a situação estava começando a ficar desesperadora. A Decca queria Whiskey do lado A, então assim foi feito, e a banda começou a tocar a música ao vivo".
A canção folclórica imortalizada pelo Thin Lizzy que o Metallica regravaria anos depois
Apesar do sucesso de "Whiskey In The Jar", que ficou conhecida mundialmente na versão do Thin Lizzy - e anos mais tarde inspiraria uma homenagem do Metallica - a situação financeira continuava muito complicada, e o Thin Lizzy acabou aceitando uma oferta de mil libras esterlinas para gravar um álbum de covers do Deep Purple - sim, justamente o Deep Purple de Ritchie Blackmore e Ian Paice, com quem Phil quase montou uma banda!
O álbum seria gravado para o Stereo Gold Awards, pequeno selo meio picareta fundado por um sujeito chamado David L. Miller, que usava um modelo de negócios no mínimo duvidoso do ponto de vista ético, consistindo em contratar músicos profissionais para regravar canções de sucesso, que eram lançadas em um álbum que poderia enganar um comprador incauto, pensando que estava adquirindo um produto dos músicos originais. Um caso típico foi um álbum de regravações de músicas de Jimi Hendrix que foi creditado a uma banda chamada The Purple Fox.
Para a gravação, que foi realizada nos estúdios De Lane Lea em Londres, onde o Deep Purple havia gravado os álbuns "In Rock" e "Fireball", o Thin Lizzy trouxe dois outros músicos adicionais de uma banda também da Irlanda, o Elmer Fudd: o tecladista Dave "Mojo" Lennox e o vocalista Benny White, "que era praticamente uma cópia de Ian Gillan" disse Downey, revelando que Phil julgou que não seria capaz de cantar as músicas que haviam sido registradas pelo vocalista do Deep Purple.
Downey conta ainda que aquela banda improvisada ensaiou por "duas ou três horas" antes de gravar o álbum inteiro em um único dia. Foram registradas nove músicas: quatro releituras de originais do Deep Purple: "Fireball", "Black Night", "Strange Kind Of Woman" e "Speed King"; uma versão de "Hush" do Joe South, que foi um hit do Deep Purple em 1968; e também quatro músicas, três delas instrumentais, creditadas a Leo Muller - pseudônimo de David L. Miller, que assinou as tais faixas apenas para ter direitos adicionais de royalties: "Palamatoon"; "Dan", versão de uma canção tradicional; "Rising Sun" - na verdade, um cover de "The House of The Rising Sun", canção tradicional imortalizada na versão do The Animals; e por último uma composição aparentemente original chamada "Corina".

"Funky Junction" foi lançado em janeiro de 1973, trazendo na capa a foto ao vivo de uma outra banda empresariada por Carroll, o Hard Stuff, que tinha em suas fileiras dois ex-integrantes do Atomic Rooster, John Du Cann e Paul Hammond. Na Alemanha, o álbum foi lançado sob o nome de outra banda que só existiu no papel, The Rock Machine. E o título era bastante pomposo: "The Rock Machine plays the best of Deep Purple and other hits".
Funky Junction seria usado ainda para outra picaretagem de David Miller, "Especially for You... Gladys Knight and the Pips with guests Funky Junction", sem a presença de nenhum dos músicos que gravaram o tributo ao Purple.
Neste ano, o Thin Lizzy lança seu terceiro álbum, "Vagabonds of the Western World", com uma pegada um pouco mais pesada e com outro sucesso comercial, "The Rocker". Eric Bell deixa a banda, que sai da Decca e vai para a Vertigo. No lugar de Eric entram dois guitarristas, o escocês Brian Robertson e o norte-americano Scott Gorham, e o Thin Lizzy adota a sonoridade Hard Rock com guitarras gêmeas que imortalizaram a partir do álbum lançado no ano seguinte, o "Nightlife".
E quanto ao disco do Funky Junction, ficou legal? Você pode tirar suas próprias conclusões conferindo o álbum no player abaixo.
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