Andre Matos: análise da música "Oversoul"
Por Carlos Siqueira
Fonte: Blog Palavras Aleatórias
Postado em 27 de julho de 2015
Oversoul é uma música da banda de Heavy Metal "Andre Matos"; composta pelo próprio vocalista e tecladista, Andre Matos, Bruno Ladislau (baixista), Hugo Mariutti (guitarrista), encontra-se no álbum The Turn Of The Lights, de 2012. A letra traz uma visão crítica da e à nossa realidade, sobre o capitalismo, consumismo e alienação. Pode-se dizer que a música não chega a ser "pesada", mas é rápida, assim como o ritmo da vida moderna — e não, como pensa a maioria, que a música é rápida ou pesada somente por a banda ser de Heavy Metal, pois conteúdo e melodia estão intrinsecamente ligados —; havendo em certo momento uma "quebra" de ritmo, mas que depois volta à sua velocidade de início. Analisemos a tradução:
Superalma
As mandíbulas das corporações
Estão se espalhando para todos os lados
Invadindo como uma praga, você não pode ignorar
Você é levado para uma armadilha
Eles parecem nem se importar
Com sua vida, sua saúde — sua miséria!
Eles precisam que você diga
Eles precisam que você jogue
Eles vão achar um jeito para suas necessidades
Você é examinado de cima a baixo
Porque eles querem saber:
Você é simples o bastante para nos servir?
Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...
O florescer de uma vida
Você é inocente e selvagem
Você acha que sabe a verdade, mas simplesmente não sabe.
É assim mesmo, quando se começa:
Você tem que se juntar ao jogo!
Você está procurando por respeito — para ser alguém!
Eles forçam você a jogar
Eles forçam você a desejar
A partir de agora eles estarão por trás de suas necessidades
Você fará o que eles dizem
Não consegue escolher seu próprio caminho
Exatamente quando é tarde demais para voltar atrás.
Toda vez que eles atingem seus objetivos
Você é esfaqueado, mas não sabe
Você não consegue sentir a Superalma?
O significado de tudo isso...
Olhe ao redor e veja:
Você perdeu toda a vontade de viver?
Por que você não levanta e luta por sua alma?
Análise do conteúdo
Começa-se então com um eu - lírico alertando sobre o crescimento das corporações/empresas/grupos/instituições que, como sabemos, regem influência direta em nossas vidas. Interessante que ele compara as corporações às pragas, pois elas alastram-se, destruindo os ambientes — no caso, nossa terra, nossa natureza, nosso Planeta, nosso lar — e as vidas; ainda sim, é certo que pragas são prejudiciais, mas podem ser combatidas (o que mostra a esperança do eu – lírico).
Em seguida, diz que somos levados à uma armadilha e que eles, corporações/empresas/governantes/etc., parecem não importarem-se sobre nossas vidas, nossa saúde e miséria; e é isso mesmo, pois que, todas essas instituições estão preocupadas somente com lucros (lucro deles, e não, nosso lucro; para eles,quando pensamos e agimos diferente da maioria, nós é que somos a praga a ser combatida).
Na segunda estrofe, o eu - lírico mostra o quanto estamos ligados às corporações, e elas a nós. Diz que elas precisam de nossa opinião, precisam conhecer nossas necessidades, nossas vontades, para que assim, continuemos no jogo (deles). Não é muito raro vermos empresas, sites, etc. perguntando ou pedindo a nossa opinião sobre tal produto, modificação ou ação; sempre usando a segunda pessoa do singular, "tu/você", para dar a impressão de que realmente se importam e que você é quem manda, dando um ar de "construção", quando na realidade, é manipulação. Termina-se esta estrofe dizendo que somos examinados de cima a baixo e que as corporações realmente estão preocupadas conosco: querem saber se iremos servi-las ou não.
Então chega o refrão da música, onde é dito que todas as vezes que "eles" atingem seus objetivos, somos esfaqueados sem saber, claro, nossa pobreza ou prejuízo é o lucro e riqueza dos donos de empresas; ou ainda, como vemos atualmente no Brasil, os políticos comemorando suas vitórias, com seus projetos pessoais, irracionais ou empresariais, que fazem bem somente a eles, mas não ao povo — e que, se não pesquisarmos, nem ficamos sabendo. O refrão termina com uma pergunta: "Você não consegue sentir a Superalma?/ O significado de tudo isso..."; nota-se o uso da letra maiúscula em "Superalma", algo que dá um significado maior à palavra.
Em inglês, a palavra "over" já deixa a expressão com mais ênfase, portanto, "oversoul" seria uma "superalma", mas Andre Matos ainda a deixa com letra maiúscula. Quando se usa uma palavra com letra maiúscula, trata-se de algo supremo, algo universal, a representação perfeita daquilo que propõe — característica da Literatura Clássica. Interpreto essa "Superalma" como a situação da vida, a situação como um todo, com seus lados bons e ruins, externos e internos.
Na próxima estrofe o eu – lírico fala sobre o florescer da vida, sobre o despertar; diz que somos inocentes e selvagens, achamos que sabemos a verdade, sem saber. Aqui mostra-se a experiência do eu – lírico, este, mais velho, sabe que quando estamos despertando, achamo-nos inteligentes, mas temos tanto a aprender... Ou, talvez, esteja falando dos alienados; vemos tantas pessoas se achando cultas, considerando todos os outros que não concordam com suas ideias, alienados e dominados por uma ideologia, quando, na verdade, nem percebem que eles também estão sob outra ideologia, mas não sabem — ou não querem saber.
E para terminar a estrofe, diz que a vida é assim mesmo, temos de nos juntar ao jogo, procurar por respeito, procurar ser alguém. Isso é ensinado e realmente torna-se o desejo de muitos. Essa é a ideologia passada, mas poucos perguntam-se: o que é ser alguém? Ter respeito pelo o quê? Muitos confundem "respeito" com "medo", outros, querem ser respeitados pelo o que tem, e não, pelo o que são; todos devem buscar ser alguém, sendo assim, ser alguém é ser igual, e quem não pensa assim, é diferente, é perigoso, é louco, é praga. O jogo deve ser jogado, não pode ser modificado, não pode ser construído ou debatido.
E como objetos, somos forçados a jogar e levados a desejar, assim, não necessitamos somente das necessidades, mas de quem as produza (e induza) também. Fazemos o que mandam fazer, não escolhemos nosso próprio caminho, tornamo-nos alienados. Como diria Paulo Freire, tornamo-nos objetos, ao invés de sujeitos. Depois disso, repete-se o refrão e inicia-se o solo.
Neste momento, quando o refrão acaba, a música tem um corte repentino, tocando somente o piano, a música fica silenciosa, triste, como se fosse um momento à reflexão; aos poucos, os instrumentos voltam à velocidade inicial e o eu – lírico faz suas últimas questões ao leitor/ouvinte: "Olhe ao redor e veja/ Você perdeu toda a vontade de viver?/Por que você não levanta e luta por sua alma?", incitando-nos a sermos nós mesmos, buscarmos e lutarmos para sermos o que somos, e não, o que querem que sejamos. Além disso, ao sugerir a luta pela alma, que é algo abstrato, deixamos, pelo menos nesse momento, de lutar por coisas materiais. Repete-se o refrão e termina-se a música, novamente, com quebra de ritmo, triste, assim como a situação da vida no mundo atual, ou como a de acabar se continuarmos assim.
Andre Matos é um dos maiores representantes do Heavy Metal brasileiro, sendo reconhecido como um dos maiores vocalistas do mundo. Já esteve à frente das bandas Viper, Angra, Shaman, Virgo e Symfonia, além de participar de vários projetos. Está em carreira solo desde 2006, onde lançou três álbuns até então, sendo o último, The Turn of The Lights.
Letra da música em inglês:
http://www.vagalume.com.br/andre-matos/oversoul.html
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A banda em que ninguém recusaria entrar, mas Steven Tyler preferiu dizer não
Megadeth inicia turnê sul-americana, que passará por São Paulo; confira setlist
A banda que parecia barulho sem sentido e influenciou Slipknot e System Of A Down
A opinião de Regis Tadeu sobre o clássico "Cabeça Dinossauro" dos Titãs
O álbum do AC/DC que tirou Malcolm Young do sério; "todo mundo estava de saco cheio"
Pôster do Guns em Fortaleza gera reação da Arquidiocese com imagem de Jesus abraçando Axl
A canção para a qual o Kiss torceu o nariz e que virou seu maior sucesso nos EUA
O maior álbum do Led Zeppelin para Jimmy Page e Robert Plant
Metaleiros fazem Mosh na baleia da Faria Lima ao som de Gojira
Sepultura lança "The Cloud of Unknowing", último EP de sua carreira
Dream Theater realiza show que será lançado como álbum ao vivo; confira setlist
O clássico do Iron Maiden cujo título surgiu após filme de terror e conversa de bar
15 bandas de rock e heavy metal que colocaram seus nomes em letras de músicas
10 discos que provam que 1980 foi o melhor ano da história do rock e do heavy metal
Bruno Sutter disponibiliza show completo que ensaiou com o Angra; ouça aqui

Por que Andre Matos nunca mais fez um disco como "Holy Land"? O próprio respondeu em 2010
Rafael Bittencourt pensou em encerrar o Angra após saída de Andre Matos
O dia que Luis Mariutti e Roy Z vandalizaram as linhas de bateria de Rafael Rosa
Veja vídeo inédito de alta qualidade do Angra com Andre Matos ao vivo em 1999 na França
O dia que Andre Matos se chateou com Gabriel Thomaz do Autoramas no camarim do Angra
Jaco Pastorius: um gênio atormentado
Para entender: o que é rock progressivo?


