Rock Nacional: cinco ótimos álbuns lançados nos distantes anos 70

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Por Tiago Froks
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Lembro de uma oportunidade, onde questionei um amigo sobre bandas nacionais dos anos 70. Na ocasião perguntei se conhecia alguma interessante e apenas o nome OS MUTANTES veio à tona, acompanhado do seguinte complemento: ah, RAUL SEIXAS vale como banda? Partindo dessa aparente carência, fui atrás do nosso glorioso rock setentista, e digo glorioso pois ele realmente merece o adjetivo. É importante frisar que, naquela época, o nosso rock era intrinsecamente ligado à MPB e sendo assim, não esperem cópias de bandas consagradas do mesmo período ou excesso de solos de guitarra ou virtuosismo exagerado. O nosso rock ainda engatinhava; apesar que com muito estilo e personalidade. Ainda sobre a sonoridade, adianto de forma positiva, que o rock nacional setentista deve muito ao emergente rock progressivo da época, e ainda é possível dizer que, quanto a originalidade, nossas bandas faziam frente a qualquer medalhão do gênero. Eis uma pequena e despretensiosa seleção de belos álbuns desse longínquo e inesquecível período que foram os anos setenta.

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O TERÇO - O Terço (1970)


Apesar de atualmente quase não ser lembrado como uma banda de importância, O TERÇO é, quase que de forma unânime, eleita a nossa melhor banda de rock progressivo. É bem verdade que essa sonoridade ainda não estava presente nesse primeiro disco postado, pois a banda começou evidentemente a fazer rock progressivo a partir do seu segundo álbum, O Terço II, de 1972 e atingiram o ápice de seu talento no terceiro disco, o Criaturas da Noite, de 1975. Nessa época, a formação da banda era Sérgio Hinds no baixo, Jorge Amiden na guitarra e Vinícius Cantuária, na bateria. Além destes mencionados, a banda teve em suas diversas formações, nomes de peso, como o de Flávio Venturini, que trabalhou com o CLUBE DA ESQUINA e futuramente formaria o 14 BIS. Para não alongar muito o texto, eu destaco desse primeiro disco as faixas "Imagem", "Velhas História" e "A Longe Sem Direção" que julgo a melhor da álbum. Em suma, a sonoridade do disco varia entre o rock dos anos 50 e 60, com algumas pequenas intervenções de progressivo, mais evidente na execução da bateria, e em algumas sutis passagens orquestradas. É preciso comentar que a melodia de algumas canções são lindíssimas. Ótimo ponto de partida para começar a conhecer e entender o desenvolvimento do rock progressivo nacional.

A BOLHA - Um Passo A Frente (1973)


Lembro que a primeira vez que ouvi esse disco, eu estava totalmente dominado pelo rock progressivo. Foi por conta disso que fui atrás da banda. Quando comecei a ouvir a primeira faixa do álbum, fiquei surpreso e muito feliz por saber que havia ao menos uma banda nacional que tocava o estilo progressivo de uma forma tão competente. Até então, só conhecia as bandas consagradas inglesas e italianas. Sem ir muito longe, posso garantir que em nada esse disco fica devendo em qualidade a nenhuma banda de fora. Diferentemente do disco anterior, aqui o progressivo exala por todos os cantos. Há passagens maravilhosas de Hammond, tocado pelo Renato Ladeira, solos lisérgicos de guitarra e baixo consistente tocados por Pedro Lima e Arnaldo Brandão, respectivamente. A bateria ficou a cargo de Gustavo Schroeter. Esse disco é de mais fácil assimilação que o debut do O TERÇO, até porque aqui há bastante influência de HENDRIX e em alguns momentos traços de hard rock são percebidos. Só para citar um exemplo, ouçam as primeiras notas da faixa "Tempos Constantes" e me digam se não lembra algo de WISHBONE ASH. Sobre os destaques do disco, cito a suíte "A Esfera" e a faixa-título.

BETO GUEDES - A Página Do Relâmpago Elétrico (1977)


Quando comentei no início da matéria que o rock nacional dos anos setenta era intimamente ligado à MPB, fi-lo pensando principalmente nesse disco. Pode soar estranho o nome de Beto Guedes figurar numa lista como essa, mas me acreditem, esse seu primeiro disco solo, foi totalmente construído em terreno progressivo. Para credenciar ainda mais o que afirmo, Flavio Venturini (O TERÇO, 14 BIS e CLUBE DA ESQUINA) foi o responsável pelos teclados do álbum, e adianto que as nuances desse instrumento são das mais belas já registradas num lançamento de progressivo nacional. Sobre as letras das músicas, é importante citar-lhas, pois são de grande importância na concepção da obra. Mais íntima da poesia, a parte lírica do álbum exige atenção. Por exemplo, na faixa-título "A Página do Relâmpago Elétrico", os versos aparentemente desconexos, são envoltos por um pensamento místico; mas como interpretar e sentir poesia é coisa muito pessoal, é bem possível que não concordem comigo, sendo assim, é interessante ouvirem e tirarem as próprias conclusões. Para aqueles que ficaram interessados em ouvir o disco, cabe uma advertência, ou melhor, um aviso: é preciso acostumar-se com o timbre nada convencional da voz do Beto Guedes. A suavidade com que ele canta pode incomodar alguns roqueiros mais extremistas; mas garanto que isso vai passando com o tempo. Além da faixa comentada a pouco, também destaco a conhecida "Maria Solidária", feita em parceria com Milton Nascimento e Fernando Brant e a incrível e também instrumental "Chapéu de Sol", onde se nota todo o talento de Flávio Venturi tocando moog, ao melhor estilo de Jose Cid, consagrado compositor do prog português que gravou a obra "10.000 Anos Entre Venus E Marte", clássico de 1978.

OS MUTANTES - O A e o Z (1973)


A lendária banda aparece aqui com um dos seus álbuns menos conhecidos, "O A e o Z", gravado em 1973, mas que apenas foi lançado oficialmente em 1992. Quem julga conhecer o som feito pela banda, mas nunca ouviu esse álbum, pode se surpreender. Há dois fatores que fazem deste uma ovelha-negra na discografia da banda, são eles: a ausência de Rita Lee, que saíra um ano antes da banda e o afastamento da sonoridade Tropicalista e um total direcionamento para o rock progressivo. Arrisco a dizer que a faixa-título "O A e o Z" é o que de mais próximos produzimos do som feito pelo YES e de outras bandas de symphonic prog. Mudanças de andamentos, solos de moog, bateria quebrada são constantes durante todo o disco. Com a saída de Rita, os vocais ficaram quase que totalmente a cargo de Sérgio Dias, que também tocou guitarra, violão de 12 cordas e sítar. Esse último que por sinal foi-lhe ensinado por nada mais nada menos que Ravi Shankar, virtuose do instrumento e parceiro de composição de George Harrison, só para citar um exemplo. Completava o line-up da banda Liminha no baixo e Dinho Leme na bateria. Deixei o nome de Arnaldo Baptista por último por ser ele o grande destaque do disco, quiçá, de toda obra da banda até então. Multi-instrumentista tocou além de mellotron, órgão Hammond, violoncelo e até clarinete. Mas o grande destaque, sem dúvida, são as passagens de Hammond. Ouçam as viagens do instrumento em faixas como "Uma Pessoa Só" e "Rolling Stones". O único revés do disco, é que nele marca-se o ponto final do trabalho de Arnaldo com Os Mutantes. Problemas pessoais (como o rompimento do casamento com Rita Lee) e o excesso de LSD levaram o brilhante compositor por caminhos tortuosos. Mas mesmo com as dificuldades, o Sr Baptista ainda lançaria um mítico álbum solo, um ano depois, chamado Loki.

RECORDANDO O VALE DAS MAÇÃS - As Crianças Da Nova Floresta (1977)


A banda nasceu em Santos, estado de São Paulo, em meados dos anos setenta. Também representante do rock progressivo, eles tinham uma forte influência folk e também continham elementos do rock rural, principalmente na temática das letras (isso num segundo momento, pois esse álbum é todo instrumental) Ainda sobre o som feito pela banda, destaques para o trabalho de violão e algumas interessantes passagens de teclado e também de bateria (com muitas viradas na caixa, típico dos anos setenta) O vocal, nesse disco ausente, nos trabalhos futuros assemelhar-se-ia aos do Raul Seixas, mas longe de ser uma cópia. Fernando Pacheco foi o grande mentor da banda e também o responsável pelas partes de guitarra, que por sinal, são muito bem elaboradas. Por mesclarem sons de flauta e também de violino, tocados respectivamente por Domingos Mariotti e Eliseu Filho, o som da banda aproxima-se duma sonoridade renascentista, não sendo rara a sensação de estar-se ouvindo música de alguns séculos atrás. A faixa “The Children Of The New World” é a principal composição do disco e também a mais longa; uma suíte das melhores já feitas no estilo do progressivo sinfônico.

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Sobre Tiago Froks

Nasci em 1986, descobri o rock aos 12 anos com Os Raimundos (nunca esqueço de creditá-los por isso). Posso dizer que nada dentro do rock me é indiferente, mas acabei ficando eclético por acaso. Estudo Letras e moro em São Paulo. Gosto tanto de ouvir rock que acabei não tendo tempo de aprender a tocar nada (ok, também não acredito nisso). Mas ainda vou tocar bateria.

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