Rappa: melhorando na despedida e passando bastão para Baiana System

Resenha - O Rappa (Centro de Eventos do Ceará, Fortaleza, 24/03/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.










O RAPPA já adiantou há mais de um ano que deixaria os palcos como banda. E desde o início do ano passado, tem visitado todas as grandes cidades brasileiras apresentando o seu último show. Em algumas delas, mais de um último. Era o caso de Fortaleza, que recebera o tal último show em outubro de 2017 e agora receberia, mais uma vez, aos 48 do segundo tempo, o "último" show. Se naquele show ficara uma péssima impressão da banda, que apesar de tecnicamente exceder qualquer expectativa, pareciam não suportar mais um minuto juntos, neste, com o final realmente se aproximando, ficou parecendo que poderia haver ainda algo além do horizonte. E, claro, a excelência lírica e musical permanece. Com produção da Arte Produções e precedido pelos mais novos ícones da música baiana, o BAIANA SYSTEM, confira como foi o último e derradeiro show do RAPPA em Fortaleza. Todas as fotos são de Chris Machado.

BAIANA SYSTEM

Quem ficou incumbido de animar o pessoal que ia chegando e, pouco a pouco, lotou o Centro de Eventos do Ceará, foi o DJ Felipe BK. Misturando música eletrônica e alguns clássicos mais recentes do rock, ele até conseguiu que o público cantasse junto nunca canção do NIRVANA. Mas o que as pessoas queriam mesmo era banda no palco. E isso só aconteceu quando o BAIANA SYSTEM começou o seu bombástico show. Depois de uma introdução (que seria instrumental caso Russo Passapusso, o vocalista, conseguisse se conter - quem o conhece sabe que não pode pedir isso dele), vem "Lucro: Descomprimindo", canção em que se sobressai a guitarra baiana de Roberto Barreto serve perfeitamente como cartão de visitas, com inclusão também de "Afoxoque", do rapper CURUMIN. Mas o que é peculiar também é a atitude de Russo, seu domínio do palco e de cada espaço do Centro de Eventos. "Tá tudo certo aí? Eu vou fazer um convite pra vocês. A partir de agora, esqueçam os seus celulares. Usem os seus corações", disse. E aproveitou ainda para lembrar da vereadora Marielle Franco, do Rio de Janeiro, brutalmente assassinada recentemente. "Marielle vive" e "Marielle presente" foram motes que seriam repetidos ainda outras vezes durante a apresentação.

Com oxe axe exu no telão central (que serve de mesa para os dois DJS e o percussionista JapaSystem), a forte "Jah Jah Revolta" tem vez, com o questionamento de Russo: "Se precisar ir pra sua ruas, vocês vão?" E ele completa "todos nós temos índios, negros e brancos no nosso sangue. Eu faço parte de você e você faz parte de mim" e segue para a segunda parte da canção, "Jah Jah Revolta, pt. 2"

Em reverência aos donos da casa, Russo pergunta e declara: "As letras do RAPPA, de Falcão e Yuka, vocês conhecem? Se não mexer por fora mexa por dentro. Quando chegar em casa, faça arder a brasa da liberdade. E Russo manda mais das suas com "Dia de Caça" e "Duas Cidades", pede que respeitem e se respeitem, pede para abrir a roda, deixar as mulheres no meio e também as reverencia. "Mulheres, a gente tem muito a aprender com vocês". E desafia. "Quem fala tanto na Internet, fala agora".

Complementando o som delicioso que sai da pequena guitarra baiana de Roberto Barreto e de seu colega guitarrista (com uma instrumento normal - opa, normal não, usemos melhor as palavras, convencional), temos o baixo pulsante de SekoBass, o som dos DJs e a percussão de JapaSystem, que, de vez em quando até "toca" em um balde. Não há bateria. Nem é tão necessário. O som do BAIANA SYSTEM não se atém a formalidades e é sempre diferente de tudo o que já se possa ter ouvido. No comando de tudo, Russo Passapusso, o Randy Blythe do afoxé, andando de um lado pro outro, inquieto, urgente, desesperado, sempre tentando dar também muita atenção tanto ao público do frontstage quanto ao público da pista. "Os últimos serão os primeiros", diz ele, primeiro, a estes. E aos da frente, convida a derrubar as mesinhas de bebida. "Derruba essas mesas, pega uma latinha e fica de boa, fica sem mordomo". Como não era o dono da casa na noite, ele não poderia convidar o público a pular as grades. E sabemos que ele faria isso [No último show em Fortaleza, no Selvagem Art Mix, Russo não descansou até que conseguiu que alguém da produção desse o OK para que os seguranças deixassem o público da pista normal se juntar aos da pista comum"]. Se fosse a última atração da noite, é certo que tomaria a mesma atitude, impondo o fim do apartheid das pistas. Mas a casa, naquela noite, por mais que naquele momento pertencesse ao BAIANA SYSTEM, era do RAPPA. "Quem já conhecia o BAIANA SYSTEM? Quem tá assustado com essa porra?", ele pergunta. E pede, em ""Capim Guiné" que todas as luzes sejam ligadas, para olhar olho no olho das pessoas.

"Barra Avenida" lembra o circuito dos blocos do carnaval soteropolitano, com imagens de festa de rua nos telões. E Russo lembra o tempo em que ele próprio foliava naqueles blocos e enfrentava os seguranças. "Quando o segurança vai te bater, o que você faz? Levanta os braços. Ele treme. O amor que combate a dor. Funciona".

A mais esse discurso segue uma longa parte instrumental (e viajante) - o BAIANA SYSTEM prova que uma música brasileira fortemente calibrada nos ritmos brasileiros pode ser tão psicodélica quanto qualquer PINK FLOYD. E estava claro que Russo ia apresentar a "folga" que seus colegas lhe garantiram para descer pra pista. Era possível identificar onde ele estava apenas pelo movimento da massa que, compacta, rodava mais em um dos lados do Centro de Eventos. "Sabe porque eu fiz isso? Porque eu queria saber se todo mundo tá pisando no mesmo chão. Aqui na frente. Lá no fundo", ele conclui.

Terminando o show, não aconteceu o Fora Temer de quase todos os shows do BAIANA SYSTEM, mas há sempre espaço para mais uma homenagem a Marielle e aos ídolos do BAIANA na música. "Somos filhos da poesia do RAPPA, de CHICO SCIENCE, dos RACIONAIS, de MARIGUELLA, somos filhos da poesia de cada um que trabalha", declara Russo antes de agradecer ("sem nenhuma soberba", fez questão de salientar) com uma versão rápida de "Playsom", não sem antes reclamar novamente da divisão entre frontstage e pista comum.

O RAPPA

Depois da cartase do BAIANA SYSTEM, um show que deveria ser diário, uma dose diária de subversão em forma de música, viria o show do RAPPA. Mas, como esperado, a espera foi enorme. E, não, não há exagero aqui no uso da palavra espera. Falcão e seus amigos (ei, ainda podemos chamá-los de amigos) axlroseia como nem AXL Rose axlroseia mais. O show só começa perto das duas da manhã. Culpa da produção? Obviamente não. A casa já estava preparada e bela desde o comecinho daquela noite. Culpa do público? Aí é que não foi mesmo. A casa estava cheia, bem cheia, e, alheios ao caos reinante na cidade, todos os fãs estavam ali. Pra que fazer o público esperar então?

Tudo bem. Juramos que é a última vez que esperamos tanto tempo pelo RAPPA subir ao palco. E era mesmo. Quando o quarteto-septeto formado por Marcelo Falcão (voz e guitarra), Xandão (guitarra), Lauro Farias (baixo) e Marcelo Lobato (teclados, vibrafone e sanfona), com o apoio de Marcos Lobato (teclado), Felipe Boquinha (bateria) e Negralha (DJ) sobem ao palco, após uma introdução recitada no telão pelo jornalista Ricardo Boechat, com diversas citações de trechos de letras fica mais uma vez reforçada a importância da banda no rock produzido no Brasil. A espera transforma-se um detalhe quando Negralha puxa o coro "O Rappa, o Rappa" e é seguido por todo o público. "Tem coisas na vida da gente que a gente tem que respirar e ter certeza de que vai tudo melhorar", diz Falcão, referindo-se ao iminente fim da banda. E adianta: "Vai ter disco de cada um de nós quatro. Uma vez me disseram que muita banda grande acaba por causa de empresário. A gente tem que acabar com alguns problemas pro RAPPA sobreviver". "O que a gente tem pra dizer pra vocês é que se divirtam. O RAPPA tá na área. Já passamos por outras", ele conclui. A primeira canção, intencionalmente ou não, oportunamente ou não, ilustrando o momento é "Meu Santo Tá Cansado", seguida do resgate de "Tribunal de Rua", que termina com um solo apoteótico de Xandão.

O RAPPA nunca foi uma banda que teve medo de inovar. Começaram no Reggae, denunciando, como em "Tribunal de Rua", as dificuldades que passa quem vive nas comunidades cariocas (e, transitivamente, no Brasil inteiro), afinal, "de geração em geração todos no bairro já conhecem essa lição". Com o sucesso do segundo disco, não temeram incorporar novos assuntos, nem novos instrumentos. Incorporaram um DJ, ousaram da liberdade de experimentar com instrumentos mais acústicos, com vibrafone, trouxeram o irmão de Lobato para um segundo teclado. E continuaram fazendo sucesso mesmo depois do trágico acontecimento com Marcelo Yuka. Assim como uma pessoa, o RAPPA nasceu, foi criança que não sabia nada, foi adolescente contestador que sabia de tudo, cresceu, teve seus problemas, teve seus defeitos, fez muita besteira e muita coisa boa também. Agora vai morrer tendo vivido uma vida boa, plena. Seus frutos, sua prole, serão as bandas que inspirou, como o próprio BAIANA já confessou. E as carreiras solo, projetos individuais e participações em outros projetos de cada um de seus integrantes ajudarão a manter o nome vivo. Falcão deve dar a cara a novas músicas. Lauro dará potência, Xandão e Lobato, riqueza a outras.

Já sem a guitarra, Falcão manda "Auto-Reverse", do último (e aqui a palavra está completa de todos os seus significados) disco de estúdio da banda, "Nunca tem fim..." (e aqui o significado cai por terra). Temos que ressaltar que, ao contrário também do show anterior, aqui não há nada de só Falcão no telão. Há cenas de clipes e outras imagens relacionadas a cada música. É um tanto mais difícil pra quem está mais atrás do CEC, mas é mais respeitoso com os outros artistas no mesmo palco. E cada música vem também em versão diferente do estúdio, muitas vezes mais rica, como a versão mais pesada de "Lado B Lado A" ou a mais reggueira de "Boa Noite Xangô". Embora não haja comunicação visível entre os gallaghers do rock brasileiro, o som rola em clima de Jam. Talvez quente seja o adjetivo apropriado para as versões apresentadas, embora, incrivelmente, boa parte dos músicos apresentem uma frieza no palco que não é característica do rock.

E o público entra na onda, participando da homenagem a Luiz Gonzaga, "Súplica Cearense", cantando sozinho a primeira parte, acompanhados apenas por Marcelo Lobato na sanfona e Boquinha apenas marcando o tempo na bateria. Foto bem semelhante acontece com "Vapor Barato".

A banda continua mandando sucessos para o público, um atrás do outro e representando várias fases do RAPPA, mas o primeiro disco, "Rappa Mundi", é um tanto ignorado, enquanto o mediano "7x" recebe bem mais atenção do que merece. Muitos gritos recebem "Me Deixa". O baixo de Lauro é sempre muito presente. Sobressai-se até diante do coro em uníssono do público durante o refrão da música só se calando na última estrofe, quando Falcão canta junto e apenas com o público. Podiam ter tocado nessa despedida (e podiam mesmo já que não vai ter nenhuma outra chance), "A Feira", Miséria S.A." e "Minha Alma", esta contemporânea de "Me Deixa", ambas o par que provavelmente mais abriu os olhos do Brasil para o RAPPA.

Ainda com o público cantando junto, mas agora também com as lanternas dos celulares ligadas, proporcionando um belo espetáculo de luzes, "Pescador de Ilusões" não falta, seguida de "Rodo Cotidiano" e com mais cantoria do público. E em "Vida Rasteja" os dois tecladistas imitam o som de uma banda de pífanos. Não fica tão bom mas até que é uma homenagem aos "tocadores de pife" nordestinos. Outra homenagem vem da guitarra de Xandão, tocando "Asa Branca" no meio de "Reza Vela". Depois de "Hey Joe", chega o momento da pausa para o bis. Mas a parada é só pra parte da banda. Negralha bota pra tocar "Só Os Loucos Sabem", do CHARLIE BROWN JR. "Faz um barulho pro vagabundo lá no céu", diz Falcão".

E o vocalista fala da violência em sua cidade natal. "Não é só o Rio não. É o Rio nem é o primeiro. O primeiro é Aracaju. Infelizmente o Brasil inteiro sofre desse mal e a gente só pode se defender com música". A banda volta para "O Salto", com uma menção a "Homem Amarelo" e parte para "Anjos", que é interrompida, sem a menor cerimônia, no meio.

"Em respeito à Marielle e ao Anderson [vereadora carioca e seu motorista, assassinados na semana anterior] todos mãos ao alto. Todos aqueles que acreditam em defender o nosso país da forma justa e legal. Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim".

O momento de protesto dá ainda mais força à canção que já é forte. No telão, anjos voam sobre o Redentor. Seria um bom final, mas Falcão confessa que não quer sair do palco e volta pra guitarra e manda "Sentimento" e "Intervalo Entre Carros", músicas lançadas no DVD "Acústico Oficina Francisco Brennand", dois momentos um tanto desnecessários, até porque algumas pessoas já não resistiam em pé e começavam a deixar o Centro de Eventos. A maioria do público, no entanto, ainda cantou e dançou com trechos de "Redemption Song" e "Bete Balanço", de BOB MARLEY e do BARAO VERMELHO. Esta última só com Falcão na guitarra.

De volta para um segundo bis, acreditem, O RAPPA se despede de Fortaleza, talvez passando uma mensagem subliminar bastante "sobreliminar", com "O Horizonte É Logo Ali". Será mesmo a última vez? Xandão encerra a jam final tocando uma sanfona. E é a primeira vez que sai do seu posto depois de passar o show inteiro tocando imóvel atrás de Marcelo Lobato ou de seu burocrático irmão Marcos Lobato (isso é imperdoável - é um erro gritante e não só do guitarrista, mas da banda inteira que permitiu que ele ficasse ali durante o show).

Era o fim. Quase trinta músicas depois. Agora sim. Valeu como boa despedida. Se no show anterior o que transparecia era que a banda não se suportava, agora parece que, embora ainda tenha suas diferenças, a banda funciona mais como um relógio (não esqueçamos de mencionar aqui que ainda sacrificam seus fãs leais com um atraso injustificado). Não é preciso muita reviravolta, basta cada ponteiro fazer a sua parte. A propósito, já eram 4:35 da manhã. "Muito obrigado, Fortaleza, pra sempre. Gratidão eterna", despede-se Falcão, compromentendo-se ainda a, nas férias, vir mais a Fortaleza, Canoa Quebrada e Jericoacoara, comprar vinis e frequentar o Clube do Reggae.

Setlist

Meu Santo Tá Cansado
Tribunal de Rua
Linha Vermelha
Meu Mundo É O Barro
7 vezes
Uma Vida Só
Monstro Invisível
Auto-Reverse
Hóstia
Lado B Lado A
Boa Noite Xangô
Súplica Cearense
Vapor Barato
Bitterusso champagne
Fininho da Vida
Fronteira (D.U.C.A.)
Me Deixa
Pescador de Ilusões
Rodo Cotidiano
Vida Rasteja
Reza Vela
Hey Joe
Só Os Loucos Sabem (gravada)
O Salto (com Homem Amarelo)
Anjos (Pra Quem Tem Fé)
Sentimento
Intervalo Entre Carros
O Horizonte É Logo Ali

Agradecimentos:
Multi Entretenimento e pessoal da Capuchino Press, pela atenção e credenciamento.
Chris Machado, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Texto publicado originalmente no blog da ThunderBlue.
Confira a matéria original com muito mais fotos de Chris Machado
https://thunderblue.com.br/2018/03/31/o-rappa-ainda-com-atra...



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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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