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Andre Matos: vocalista fala sobre sua vida e obra em Workshop

Resenha - Andre Matos (Teatro das Bacabeiras, Macapá, Amapá, 04/04/2013)

Por Bruno Blackened
Postado em 23 de abril de 2013

O dia 4 de abril de 2013 vai ficar marcado na história do Metal amapaense pela vinda de nada mais, nada menos que ANDRE MATOS, lendário vocalista, pianista e compositor que integrou bandas como VIPER, ANGRA, SHAMAN, VIRGO e SYMFONIA e também já fez participações especiais com AVANTASIA e AINA. Em carreira solo desde 2006 e com 3 discos (Time to be Free [2007], Mentalize [2009] e The Turn of the Lights [mais recente, lançado ano passado]), o mestre esbanjou simpatia, agradecimentos e bom humor em um workshop no qual falou de técnicas vocais, composição e histórias sobre sua vida e obra. Horas antes, em entrevista a este mesmo site, ANDRE MATOS mostrou-se uma pessoa gentil, simpática e aberta ao falar de VIPER, o momento atual de sua carreira e o show no Rock in Rio.

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Com atraso devido a atenção que deve que dar à imprensa durante boa parte da tarde, Matos adentrou o palco do Teatro das Bacabeiras aproximadamente às 21:30min, ao som de Nothing to Say (ANGRA), levando os metalheads à loucura. Logo de cara, estando bem perto do mestre, é possível perceber a mudança em relação ao passado: Andre já não abusa dos agudos, mas isso não significa que seu vocal tenha perdido potência. Muito pelo contrário. Está cantando melhor do que nunca. Depois de passar pelas mãos de fonoaudiologistas e otorrinos, descobriu como funciona as cordas vocais, o que o ajudou a achar sua identidade vocal e melhorar sua performance.

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E performance Andre tem de sobra. Com o público na mão, o vocalista parecia muito à vontade e atiçava-o, seja regendo-os, elevando as mãos em tempo para os famosos "heys!", coros, palmas e erguendo o microfone para dar vez aos bangers. Logo na esteira, veio Rio, clássico do disco Time to be Free, com o refrão cantado em uníssono e destaque para o riff cavalgado, pesadíssimo e, claro, a interpretação impecável do anfitrião.

Antes de começar o workshop propriamente dito, ANDRE MATOS agradeceu pela atenção que lhe foi dada e cogitou a possibilidade de voltar com sua banda solo, o que deixou a platéia eufórica. Aproveitando a deixa, ele também elogiou a alta qualidade dos músicos amapaenses de Heavy Metal e teceu críticas aos governos que liberam verbas absurdas para festas de som de qualidade questionável e duvidosa (entenda-se: pagode, axé, funk, forró e afins) em detrimento da boa música. Aprovação e aplausos gerais do público.

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Ao contar que começou seus estudos de piano e canto ainda na infância e por incentivo da família, mais uma crítica: desta vez, aos pais que não apóiam um investimento musical nos filhos, que veem o aprendizado musical como algo que desvia a atenção dos estudos (leia-se: ensinos fundamental, médio e superior). Andre defende a ideia de que quem estuda música em paralelo com a escola tem, em geral, uma capacidade maior de desenvolver-se intelectualmente, opinião na qual este resenhista concorda. Em seguida, o mestre apresentou um vídeo sobre a origem da música e sua relação com a matemática.

Do vídeo, o músico destacou o trítono, também conhecido como diabolus in música ou som do diabo. Localizado entre o F (fá) e o E (mi), é chamado assim porque gera instabilidade musical e, como mostrado no documentário Metal – A Headbanger's Journey (2005), era um som temido na Idade Média por ser, supostamente, usado para evocar o Diabo. Também é sabido que o trítono está presente na música Black Sabbath, da autoria do lendário grupo de mesmo nome. O trítono forma a base dessa composição, o que combina perfeitamente com a sonoridade sombria que o guitarrista Tony Iommy praticava na época (influenciado pelo Blues) e com a letra mórbida. O que fiquei curioso foi Andre afirmar em alto e bom som que o Thrash Metal (minha vertente favorita) usa muito o trítono, citando como exemplo o SLAYER, mas isso é outra história.

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Ainda neste mesmo bloco do workshop, Matos destacou a importância da música clássica para o Heavy Metal, enfatizando o compositor Sebastian Bach ("não o do SKID ROW", brincou ele), que contribuiu criando o temperamento na música e a readaptação dos intervalos de quarta e quinta. Para completar, o mestre ensinou que é preciso estudo para praticar ambos os estilos, que o Metal é um dos poucos gêneros musicalmente abertos a elementos de outros tipos de som e que manifestações artísticas, como cinema e literatura, servem de inspiração para a criação das letras. Corretíssimo!

Depois disso, a bem-vinda e curiosa história do surgimento da música Lisbon (do álbum Fireworks [1998], último trabalho que gravou com o ANGRA) arrancou gargalhadas dos bangers. Segundo Matos, a melodia de teclado que introduz a obra surgiu de um toque de despertador. Histórias como essa sempre são interessantes de ouvir. Já a letra veio das experiências vividas na cidade de Lisboa, capital de Portugal. Após o discurso, veio a execução da faixa citada acima, com direito ao coro "oh, oh, oh!" acompanhando a intro.

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Antes de continuar com os versos "See/the birds are back", uma jam improvisada pelos instrumentistas que acompanhavam o anfitrião tomou lugar. "Vejam a qualidade dos músicos que vocês têm", alertou ele aos presentes e fez questão de apresentá-los: Alexandre Avelar e Vinicius Rocha (guitarras), Danilo Araújo (baixo), Pedro França (bateria) e Eugene Ludvig (teclado). Todos competentes e escolhidos pelos organizadores para tocar com uma das vozes mais marcantes do Metal nacional. Embora Andre tocasse teclado em alguns trechos, ele se ateve mais ao vocal.

Prosseguindo, um vídeo (um tanto nauseante) sobre um exame de laringoscopia. Consiste em uma câmera adaptada em uma espécie de tubo ou cabo colocado pelo nariz para saber como funcionam as cordas vocais. Mais gargalhadas gerais quando o vocalista tentou fazer um gesto que parecia uma vagina, mas era só para demonstrar um pequeno orifício que existe na laringe. Matos continuou seu discurso reforçando o que afirmou em entrevista ao Portal G1: a plenitude vocal masculina é aos 45 anos. Em seguida, ele contou o problema que teve durante a gravação do disco Holy Land (1996). Devido ter forçado demais a garganta na turnê de Angels Cry, ele teve que voltar ao Brasil para tratamento e afirma que, depois dele, não teve mais problemas.

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Usando Ozzy Osbourne (OZZY OSBOURNE, BLACK SABBATH) como exemplo, o músico defendeu que é importante desenvolver característica vocal própria, referindo-se ao fato de sabermos quem está cantando sem precisarmos ver. "A voz é o único instrumento que não se vê", reforçou ele, pedindo aos presentes uma salva de palmas em homenagem a todos os professores de canto do mundo, no qual foi imediatamente atendido.

Fechando este bloco do workshop, Andre explicou o que é o falsete ("é o cacete!"). Segundo ele, é um efeito vocal no qual a voz sai "cheia de ar" e suave. Na prática, é uma imitação da voz feminina. Como exemplos, ele citou King Diamond (KING DIAMOND, MERCYFUL FATE), Rob Halford (JUDAS PRIEST), Eric Adams (MANOWAR) e ele próprio, revelando as músicas na qual usou esse recurso: Wuthering Heights (KATE BUSH) e Fairy Tale (SHAMAN), o que serviu de gancho para a execução desta lindíssima obra.

Fairy Tale é uma das músicas mais famosas do SHAMAN e está presente no "debut" Ritual (2002). Curiosamente, ela foi escolhida como parte da trilha sonora de uma novela da TV Globo (O Beijo do Vampiro), o que é um feito e tanto em termos de Brasil, visto que, aqui, o Heavy Metal ainda é visto com presunção pelas grandes emissoras. Nas palavras do vocalista para a revista Roadie Crew (outubro de 2012), "foi um fenômeno pop que nos deixou ocupados em turnê pelo Brasil por mais de dois anos" (lembrando que o SHAMAN já fazia shows antes mesmo de lançar Ritual).

Para ajudá-lo nos backing vocals, foram escolhidos Vanessa Rafaely (MYSTERIAL, ex-SEED FALLS), Hanna Paulino (HIDRAH) e Mateus Farro. Ao começar os versos "Jesus/Salvator mundi", gritos entusiasmados dos metalheads em aprovação ao coro do trio: perfeito! É inquestionável a qualidade interpretativa dos vocalistas escolhidos para acompanhar o mestre.

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No último bloco, Matos criticou (e com razão) cantores e artistas que tem muito apelo visual e pouco talento. Como exemplo, ele usou Britney Spears, exibindo um vídeo que escancarava o uso do playback. Ao assisti-lo, constatei que ela não sabia realmente cantar, e sim gemer/enrolar algo ininteligível enquanto fazia coreografias sensuais em roupas insinuantes. Nessas horas, questiono se esses "artistas" pop REALMENTE FAZEM as músicas. Foi uma tortura, mas valeu para reforçar a crítica do anfitrião.

A seguir, o oposto foi mostrado: um vídeo de um cara com muito talento e pouco apelo visual. Eis que o telão mostra Freddie Mercury em uma performance com o QUEEN, usando apenas um short e um chapéu brancos e um lenço vermelho em volta do pescoço. É exatamente o oposto de Britney: sem se importar com o visual, Freddie é, sem dúvida, uma das vozes mais marcantes do Rock, como se o microfone em sua mão, literalmente, se rendesse à sua vontade, a cada palavra e verso. ANDRE MATOS é fã confesso de Freddie Mercury.

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Com o tempo cedido pelo teatro estourando, o bloco destinado às perguntas dos presentes teve que ser eliminado, dando lugar aos sorteios de prêmios, como duas bolsas de estudo da Escola de Música Acordes e uma guitarra. Para encerrar, as duas últimas músicas do workshop e hinos do Metal brasileiro, fechando com chave de Metal a noite histórica: Carry On e Living for the Night.

Magistral. Essa a palavra que uso para descrever um verdadeiro show de performance, carisma e interação com os metalheads, que, sem se importar em perderem seus assentos, amontoaram-se perto do palco para acompanhar, cantar junto, bangear e curtir as músicas. No final, um agradecido e sorridente ANDRE MATOS deixou o palco aos gritos de "ANDRE! ANDRE! ANDRE!" e aplausos. Um final apoteótico e inesquecível para uma noite marcante na memória dos bangers amapaenses. Para nós, fica a ansiedade pelo vocalista incluir o Estado na turnê de The Turn of the Lights e voltar com sua banda solo. Estaremos esperando, mestre!

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Sobre Bruno Blackened

Metalhead desde os 16, jornalista desde os 23. Grande incentivador da cena Metal amapaense através de resenhas, reportagens, fotos, artigos, entrevistas e assiduidade nos shows. Minhas vertentes favoritas são o Thrash, Death e Power Metal. \m/
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