Carcass: EM SP, mais que um show, uma noite memorável

Resenha - Carcass (Santana Hall, São Paulo, 09/11/2008)

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Por Glauco Silva
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Imagine o leitor a minha situação: idolatro uma banda faz 18 anos, eles encerraram as atividades há 13, aí decidem se reunir para fazer uns shows e passam por teu país. Num cenário desses fica muito difícil separar o fã do resenhista, portanto esse texto fica, mais que um simples testemunho e análise, um relato apaixonante da memorável noite de 9 de novembro de 2008, quando o lendário Carcass se apresentou em Sampa.

Fotos: Sallua de Moura

Fora o bate-boca que o cancelamento das bandas de abertura causou em fóruns de discussão Brasil afora (o argumento oficial, questionado por muitos, foi a produção do próprio Carcass cortar as 5), tudo deu certo esse dia: a fila fora da casa era enorme - mas organizada -, os seguranças e equipe de apoio ajudavam mesmo, as bebidas estavam geladas, o som ótimo, e o mais importante: a banda estava entrosadíssima e com pique total, apesar do calor que fazia lá dentro.

Apagam-se as luzes, e o enorme público (além da pista, as galerias superiores estavam tomadas) vai à loucura com a introdução do 'Necroticism': Daniel Erlandsson surge na bateria saudando o pessoal, seguido pelo ruivo Michael Amott e um Bill Steer despojadíssimo. Jeff Walker e seu baixo Les Paul assumem a frente e, ainda agora, é difícil assimilar o que aconteceu nos cerca de 90 minutos que se seguiram… baseando o set nos álbuns que lhes renderam mais fama, 'Heartwork' e 'Necroticism', ninguém diria que o trio de frente ficou mais de uma década sem tocar junto, tamanha a afinidade entre os músicos.

Após "Inpropagation" veio "Buried Dreams", com a dupla de guitars mostrando o porquê de ser uma das mais ricas e precisas formadas no Metal contemporâneo: riffs com harmonia ímpar, peso avassalador e sincronismo total nas palhetadas. Daniel mostrou estar à altura do grande Ken Owen no comando dos bumbos: o início de "Corporal Jigsore Quandary" foi executado com total fidelidade aos arranjos originais, e o batera do Arch Enemy ainda encontrou espaço para encaixar sua assinatura pessoal em muitos momentos - sem jamais desrespeitar o original, uma atitude mais que louvável.

O setlist foi pra fazer qualquer fã de death surtar: "Carnal Forge", "Incarnate Solvent Abuse", "No Love Lost" (cujos clips tiveram boa rotatividade na MTV)… Uma pausa pra respirar em "This Mortal Coil" e "Embodiment", aí os fãs antigos lavam a alma: "Reek Of Putrefaction" mostra o por quê de serem ícones da música extrema, com sua sonoridade totalmente brutal e doentia. Mandam "Keep On Rotting" como único registro do 'Swansong', e voltam pro início da carreira: a versão rearranjada de "Genital Grinder" é seguida pela "Pyosisified" e tive que mandar o profissionalismo às favas - tive que entrar no moshpit! "Death Certificate", que encerra o 'Heartwork', veio a seguir… Mickael põe uma bandeira brasileira em seu amp, Jeff apresenta a banda e o pessoal começa a gritar por Ken - era visível o quanto essa homenagem agradou os caras.

Na falta de palavra melhor pra descrever o combo final, foi simplesmente emocionante o que se seguiu: pela primeira vez, mister Steer foi pra frente do palco e assumiu os vocais no hino "Exhume To Consume", batendo uma nostalgia gigantesca… até então, o Jeff estava fazendo tudo, inclusive os guturais, contando com a eventual ajuda do Michael nos backings - algo que realmente me surpreendeu, pois isso não acontecia antigamente.

O Jeff subia nos retornos e brincava o tempo todo com o pessoal, falando sobre calor, mulheres e pedindo pra enlouquecerem como na noite anterior, em Belo Horizonte. Nem precisava muito: Daniel começa a tocar a memorável intro de "Ruptured In Purulence" e, quando a galera já armava um wall of death para a parte dos blastbeats, ele emendam sem piedade sua música mais famosa... "Heartwork" arrepiou todos, o Santana Hall inteiro bradou as letras e as melodias das guitarras. Seria até redundante ficar repetindo um rosário de elogios para o que foi essa apresentação impecável!

Mais que um show, foi uma noite memorável - eu, particularmente, já posso dizer que foi não só o melhor show que vi em 2008, mas muito provavelmente na década. Daria até pra aposentar de ir em shows agora, uma vez que Chuck Schuldiner não vai voltar do outro lado… quem viu, viveu a história. Quem não foi, só resta torcer para que o quarteto inglês continue a carreira e volte algum dia. Se existe algo próximo à perfeição ao vivo, foi o que presenciei nessa noite.


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