Shaaman: A turnê de "Reason" finalmente passou por Belo Horizonte
Resenha - Shaaman (Armazzém 841, Belo Horizonte, 25/03/2006)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 26 de março de 2006
Finalmente a turnê do álbum "Reason" passou por Belo Horizonte. Recebido com cautela por alguns fãs (aqueles dispostos em dizer que o primeiro trabalho será sempre o melhor) e entusiasmo por outros, a verdade é que este último disco representa a emancipação da banda de qualquer amarra predecessora. "Turn Away" e "Trail Of Tears" são ótimos exemplos disso. Afinações baixas, riffs secos, cozinha sólida e André Matos rasgadíssimo. Reflexo de uma banda corajosa que não teve medo de duelar com seu passado, no entanto, sem agredi-lo. E certamente a próxima bolachinha trará uma evolução notável em vários aspectos...
Voltando ao passado, "Distand Thunder" e "Time You Come", já consagradas clássicos, e que sempre ganharam notável punch em shows, relembram o porquê duma banda tão "nova" ter tido o colhão de lançar CD e DVD ao vivo logo depois do primeiro lançamento de sua carreira. Hugo Mariutti é muito seguro e competente. Não se vê nenhum buraco nas músicas, em nenhum momento tem-se a sensação de que uma outra guitarra contribuiria para isso ou aquilo, não há fendas, quedas de ritmo ou coisas do tipo. Sua única Flying V consegue suprir toda a polpa das composições, dando a consistência necessária para que os outros integrantes preocupem-se apenas com seu papel.
"For Tomorrow", que consegue reunir climas e texturas diferentes com fluidez e simpatia, foi dedicada aos fãs mais fiéis – na verdade, aqueles que mantém a mente aberta para compreender os rumos do grupo. E, apesar de linda, ressaltou os estranhos problemas de som do Armazzém nesta noite. Não sei se por complicações técnicas - dos aparelhos – ou humana – do operador -, mais para o último, este foi o pior show neste quesito que já presenciei nesta casa. Microfonias constantes e péssima equalização. Ora o vocal sobrepunha todos os instrumentos, ora desaparecia, oscilando freqüentemente (estranhei que André não se irritou com isso, demonstrando muita frieza e postura). O instrumento melhor ajustado neste ponto foi sem dúvida a bateria de Confessori.
E então chegava o momento do violinista mineiro Marcus Viana subir ao palco. Claro, ovacionado pela platéia. "Innocence" iniciou sua participação, evidenciando que, apesar de qualquer crítica sem sentido de detratores acéfalos, Matos sempre compôs ótimas baladas. E o mais importante: elas são exploradas com competência, gerando mídia e público para eles. Ao final dela Viana nos brinda com um curto, porém empolgante e agressivo intermezzo instrumental de violino, arriscando inclusive "Paranoid". E após "More", o acertado cover que, todavia, teve uma execução duvidosa, o show que até então era ótimo deu uma caída considerável. E só iria se recuperar muito tempo depois.
A explicação é simples. Findada "Reason", morna em demasia, tivemos um bobo e desnecessário instrumental desembocando num (pasmem!) solo de bateria. Eu nunca costumo reclamar muito deles, mas tenho quatro motivos para este ter sido especialmente reprovável: Ricardo Confessori já é um baterista reconhecido e reverenciado nacionalmente há muito tempo, não tendo necessidade nenhuma de aparecer; o público aplaudiria qualquer coisa que ele fizesse; tal momento já se tornou comum em apresentações do Shaaman (vez ou outra, e de forma espontânea, ainda vai, mas sempre?); e o pior: empobrece o show. Devemos ter ficado uns dez minutos (ou mais) nessa brincadeirinha. Imagine esse tempo melhor aproveitado...
Não há necessidade de todo esse desperdício. Se não abrem mão de jeito nenhum, deviam usar apenas as partes mais suingadas, e como introdução para alguma música. A seqüência com "Scarred Forever" também não ajudou muito, e André teve sérias dificuldades para reanimar a platéia. Para incendiar de fato, precisariam duma pedrada certeira, e ela veio em forma de "Pride", sem dúvida uma das melhores de "Ritual".
Começam o bis com "Fairy Tale", numa nova (e perigosa) digressão. A música é boa, mas não para aquele momento (tenho pra mim que deveriam escolher apenas uma balada, entre ela e "Innocence" para o set-list), todavia, Marcus Vianna conseguiu manter o interesse na execução. "Here I Am" (essa sim!), fechou o quadro de "clássicos indispensáveis do primeiro álbum". Continuando nossa montanha russa, "Iron Soul" se arrastava no palco. Nova parada. Havia uma má impressão no ar. O show parecia ter sido pior do que realmente havia. Como tirar esse desconforto? Resposta: com algo tremendamente empático e consagrado de sua carreira. Ou seja, a irrepreensível "Lisbon". Que, se em estúdio sempre foi ótima, eles (dios mio!) conseguem torná-la uma catarse coletiva no concerto.
Mas catarse e concerto caem melhor para, como disse meu amigo Thiago Sarkis, uma das árias máximas do metal. Quando o público, numa demonstração incrível de criatividade e sabedoria, pedia em uníssono a mega-super-ultra-batida "Carry On", que já está perdendo seu brilho em virtude da onipresença, o Shaaman vem com uma "surpresinha" não prevista no set list: "Painkiller". Foi só Confessori descer o braço na introdução para que o Armazzém se tornasse o lugar mais feliz do planeta naquele momento. Desconfio que, a despeito de todos os comentários que o último show do Judas Priest no Brasil suscitou, a apresentação foi superior à do próprio.
Para não dizerem que fui injusto, convém dizer que Luís "Jesus" Mariutti é um destaque por si próprio. E pude confirmar uma coisa: dentre vocalistas como Tom Englund, Timo Kotipelto, Eduardo Falaschi, Alírio Neto e Renato Tribuzy, para ficar só em alguns, André Matos é o que tem a melhor performance ao vivo. A potência e o alcance de sua voz impressionam (e, ao contrário do que dizem, os "falsetes" aparecem em raríssimos momentos). Um frontman magnífico, que se entrega realmente ao que faz, e por todo estudo e experiência apenas potencializa seu talento natural.
Foram embora depois de um show convincente, prometendo voltar mais rápido que da última vez. Abençoados sejam.
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