Entrevista: Rita Lee leva Beatles para a Argentina
Fonte: Terra Música
Postado em 23 de novembro de 2002
Aos 54 anos e 36 de carreira, Rita Lee está embarcando para Buenos Aires. Será a primeira visita da cantora à Argentina, em um show no dia 23 de novembro no Luna Park. É uma viagem de negócios, pois Rita receberá também o Disco de Ouro pela ótima vendagem do CD Bossa'n Beatles. Mas que gravação é essa, afinal? Calma, trata-se de um novo nome para Aqui, Ali, em Qualquer Lugar, em que Rita abrasileira, com todo respeito, as canções eternas dos Beatles. "Autorizações para gravar essas músicas foram fáceis de conseguir, versões para o português é que foram quase impossíveis", explica Rita ao Terra, em entrevista por email, sobre a administração dessas reinterpretações.
Como Rita tem uma carreira abrangente e multifacetada, seu nome virou uma das referências da MPB lá fora há muito tempo. O CD com versões dos Beatles, além de circular pela América Latina, foi lançado em Portugal e exportado para países como Espanha, França, Holanda, Israel, Itália, Canadá e Suíça. No show Yê Yê Yê de Bamba, Rita está sem um de seus guitarristas, o filho Beto Lee, que partiu para carreira-solo. Se Rita sente falta da cria? "Muuiiitaa", faz questão de enfatizar. Mas o aniversário de 50 anos do pai, Roberto de Carvalho, acabou reunindo toda a trupe, incluindo os três filhos. "As velinhas foram devidamente apagadas pela família reunida que jamais será vencida", completa, rindo.
Mas quem pensa que Rita está mansa, se engana. A cantora fez parte da revolução elétrica da música com Os Mutantes, em plena transição do tropicalismo para o rock Brasil. Nessa época, o deboche e o humor ácido transitavam pelas letras - e parte disso, é claro, continua com Rita. Ao ser perguntada sobre a aparente sonolência da música brasileira atualmente, ela dispara: "Cobrar posturas rebeldes de quem já revolucionou um determinado tempo é falta de visão". E ela cita Pablo Picasso em sua explicação, o pintor que um dia disse que a "juventude não tem idade". Mas vale lembrar a resposta bem-humorada da cantora à pergunta "Em que tipo de ocasião você mente?". A resposta: "Em entrevistas".
Confira entrevista e Questionário Proust com Rita:
O show do CD Aqui, Ali, em Qualquer Lugar já está na estrada há quase um ano. Que mudanças você fez no show desde a estréia. O que funcionou e o que não funcionou?
Cada show é um show. Mudanças e improvisos acontecem para reoxigenar quem está no palco e com isso passar o mesmo prazer a quem nos assiste. Mas não rola essa de funcionar ou não funcionar, a idéia é não deixar a coisa se cristalizar.
Tem alguma música que vai ficar com sotaque latino por causa do show na Argentina? Soube que o nome do CD mudou para esse mercado.
O público latino americano de um modo geral está recebendo este trabalho com muito carinho. Ensaiei um show especial para os argentinos, há várias músicas novas e antigas com arranjos diferentes. E o disco na América Latina ficou Bossa'n'Beatles.
No caso dos shows, você tem de pagar direitos autorais para a editora que cuida das músicas dos Beatles? Custa caro? No caso do CD, foi difícil conseguir as autorizações?
As autorizações foram fáceis de conseguir, versões para o português é que foram quase impossíveis. Não sei como tem sido cobrado o direito autoral das músicas deles nos shows. O que eu sei é que os meus direitos eu mal recebo.
É curioso o fato da editora dos Beatles não ter deixado algumas músicas entrarem no seu álbum por considerarem versões "exóticas" demais. Mas a idéia toda dos últimos álbuns dos Beatles não era essa mesma? Experimentar, ousar, gravar de um jeito que não daria para reproduzir no palco?
Vai falar isso para os burocratas da editora deles. No palco quem manda sou eu e acho que você não soube das "reproduções" que andei fazendo pelos bailes da vida...
Vendo o cenário de cantoras brasileiras, não falta o ingrediente "vamos chocar pra agitar"? Não gratuitamente, mas provocar para fazer a poeira levantar e as engrenagens comerciais se sentirem incomodadas? A coisa toda parece muito "morna"?
Os "culpados" por essa falsa aparência da MPB estar bocejando criativamente são os meios de divulgação.
Você sente sua postura na música mais tranqüila, menos desafiadora? São tempos de conformação, de valores familiares no lugar de explodir com tudo?
A resposta é simples: cobrar posturas rebeldes de quem já revolucionou um determinado tempo é falta de visão, seria o mesmo que cobrar de Picasso aos 60 anos de idade uma volta a sua fase cubista.
Fizemos uma entrevista com seu filho Beto Lee para o Terra, antes de ele lançar CD. Ele parece um jovem muito seguro de si. É a vida no rock que deixa a pessoa escolada ou foi a educação familiar mesmo?
O Beto desde o berço demonstrou vontade de trabalhar com música. A segurança dele vem de ter preferido ralar sozinho ao invés do caminho fácil de participar de reality shows ou de colocar uma loira rebolante para cantar na banda.
Sente falta dele nas turnês?
Muuuita...
Questionário Proust
O famoso Questionário Proust carrega a fama de ter sido criado pelo escritor francês Marcel Proust. Na verdade, ele foi um dos mais ilustres e criativos a responder esse questionário, ganhando o crédito. Atualmente, a revista americana Vanity Fair também utiliza esse questionário, que tenta desvendar "discretamente" a personalidade do entrevistado:
Qual sua concepção de perfeita felicidade?
A felicidade reside nos contrastes.
Qual seu maior medo?
Violência
Com qual figura histórica você mais se identifica?
Joana Dark
Que pessoa (ainda viva) você mais admira?
Keith Richards
O que você menos gosta em sua aparência?
Meu nariz
Em que tipo de ocasião você mente?
Em entrevistas
Qual seu maior arrependimento?
Ter participado do primeiro Rock in Rio
O quê ou quem é o maior amor de sua vida?
Roberto e meus 3 filhos
Se você pudesse mudar alguma coisa em sua família, o que seria?
A preguicite
Qual sua ocupação favorita?
Meditar
Quem é seu herói de ficção favorito?
Peter Pan
Como você gostaria de morrer?
Lúcida
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