O músico que apagou as fitas do próprio álbum após a morte de Kurt Cobain
Por Bruce William
Postado em 17 de maio de 2026
Bob Mould já era uma figura importante do rock alternativo antes de muita gente usar esse rótulo com naturalidade. Com o Hüsker Dü, nos anos 80, ele ajudou a aproximar a força do hardcore de melodias mais abertas, guitarras densas e canções que apontavam para muito do que explodiria na década seguinte. Não por acaso, Kurt Cobain admirava a banda. O Nirvana não surgiu do nada, e parte de seu DNA passava justamente por esse tipo de grupo que vinha do underground, mas já pensava em música pesada com senso pop.
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Quando o Nirvana estourou com "Nevermind", em 1991, a relação de influência ficou mais embaralhada. Mould, que já havia deixado o Hüsker Dü para trás e seguia outro caminho, formou o Sugar e lançou Copper Blue em 1992. O disco tinha guitarras altas, melodias fortes e uma energia que conversava com aquele momento do rock alternativo sem soar como mera tentativa de pegar carona. Era um veterano do subterrâneo dialogando com uma cena que, de certa forma, também tinha aprendido com ele.
Essa troca ajuda a entender o peso do que aconteceu em abril de 1994. O Sugar estava em estúdio trabalhando no material que daria origem a "File Under: Easy Listening", seu segundo álbum de estúdio, quando a televisão ligada na MTV trouxe a notícia da morte de Kurt Cobain. Para quem olhava de fora, podia parecer apenas mais uma tragédia envolvendo uma estrela do rock. Para Mould, que estava dentro daquela cena por outro caminho, o impacto foi direto e paralisante.
Em entrevista ao Guardian, Mould contou que aquele momento esvaziou completamente o sentido do que a banda estava fazendo. "Era uma boa hora para se afastar um pouco", disse ele. "Eu puxei o plugue, apaguei as fitas completamente. Não havia nada que valesse a pena salvar." Não era apenas questão de tristeza. Era a fala de um artista olhando para o próprio trabalho e sentindo que, naquele instante, continuar seria forçar uma energia que simplesmente tinha desaparecido.
O gesto também mostra como a morte de Cobain foi sentida como algo maior do que a perda de um músico famoso. O Nirvana havia colocado o rock alternativo no centro da cultura pop, mas Cobain parecia carregar essa visibilidade com desconforto, como se aquele mundo tivesse crescido rápido demais ao redor dele. Quando ele morreu, muita gente da mesma geração ou de cenas próximas pareceu perceber que algo havia quebrado ali. Não era só o fim de uma banda; era a sensação de que a inocência daquele momento tinha ido embora junto.
No caso do Sugar, o álbum ainda sairia em 1994, mas não sem antes passar por esse corte brusco. Conforme relata a Far Out, "File Under: Easy Listening" acabou sendo o último disco de estúdio da banda, que encerraria suas atividades pouco depois. Visto hoje, o relato de Mould dá outra camada a essa fase. Não era apenas uma banda tentando repetir o sucesso de Copper Blue ou lidar com a pressão natural de um segundo trabalho. Havia também um clima de perda no ar, difícil de separar das músicas e das decisões tomadas naquele período.
A ironia amarga é que Mould havia sido influência para Cobain, mas acabou também sendo afetado pelo que Cobain representou depois. O aluno simbólico, por assim dizer, virou uma espécie de espelho para o professor. E quando esse espelho se quebrou, Mould não viu sentido em preservar aquelas gravações. Apagou tudo e começou de novo, como quem entende que certas fitas podem até guardar som, mas não conseguem guardar o estado de espírito que desapareceu da sala.
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