O hit que Angus Young desprezou e se tornou mais conhecido do que qualquer música do AC/DC
Por Bruce William
Postado em 30 de junho de 2026
Angus Young sempre pareceu desconfiar de qualquer música feita para pegar carona em uma moda. O AC/DC construiu sua reputação fazendo o caminho oposto: riffs simples, refrões diretos, guitarras ligadas no talo e uma fidelidade quase religiosa ao rock and roll básico. A banda podia até ser acusada de repetir a fórmula, mas nunca de correr atrás da tendência da semana.
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Essa teimosia virou uma das marcas do grupo. Enquanto parte do rock passou por fases de baladas comerciais, flertes com a disco music, acústicos de oportunidade e tentativas de parecer moderno a qualquer custo, o AC/DC seguiu como se nada disso tivesse grande importância. Para Angus, o que contava era a música continuar funcionando anos depois, no palco, diante de uma plateia real.
Foi nessa lógica que ele usou "YMCA", hit lançado pelo Village People em 1978, como exemplo de sucesso que, em sua visão, não tinha o mesmo tipo de permanência artística de um clássico dos Rolling Stones, conforme reproduzido na Far Out: "Se você olhar para as paradas antigas, pode descobrir que 'Jumpin' Jack Flash' talvez tenha sido número oito quando saiu, e a música ao lado dela nas paradas talvez fosse 'YMCA', do Village People, sabe? Mas qual delas teve poder de permanência? Os Rolling Stones ainda podem subir ao palco e tocar 'Jumpin' Jack Flash' com toda credibilidade, e é isso que conta."
A fala é muito típica de Angus Young: seca, roqueira e pouco interessada em relativizar. Para ele, "YMCA" representava o tipo de música que explode no momento, domina a cultura pop por um tempo e depois vira lembrança de época. "Jumpin' Jack Flash", por outro lado, seria a prova de que um riff certo atravessa décadas sem perder autoridade.
Só que o tempo pregou uma peça nessa avaliação. "YMCA" não desapareceu. Pelo contrário: virou uma das músicas mais reconhecíveis do planeta, tocada em festas, casamentos, eventos esportivos, programas de televisão e qualquer situação em que meia dúzia de pessoas esteja disposta a levantar os braços e formar letras no ar. Talvez não tenha a credibilidade roqueira que Angus valorizava, mas ganhou uma permanência popular absurda.
A ironia fica ainda maior quando se pensa no próprio AC/DC. A banda tem hinos enormes como "Back in Black", "Highway to Hell", "Thunderstruck" e "You Shook Me All Night Long". Ainda assim, fora do universo do rock, "YMCA" provavelmente alcança um público mais amplo e mais imediato do que qualquer música do grupo australiano. Muita gente que não saberia identificar um riff de Angus Young reconhece o refrão do Village People em segundos.
O ponto de Angus era credibilidade. E, nesse critério, dá para entender sua escolha. "Jumpin' Jack Flash" ainda soa como uma declaração de princípios dos Rolling Stones. "YMCA" carrega uma camada de brincadeira, fantasia e espetáculo que muita gente nunca levou exatamente a sério. Para um guitarrista criado no evangelho de Chuck Berry, Little Richard e blues elétrico, a comparação parecia fácil.
Mas a cultura popular nem sempre obedece aos critérios de credibilidade do rock. Às vezes uma música atravessa o tempo justamente por ser simples, exagerada, divertida e impossível de ignorar. "YMCA" não precisou provar peso, profundidade ou autoridade. Bastou ficar na cabeça de todo mundo - e continuar lá por quase meio século.
Angus, na verdade, estava apenas defendendo uma ideia muito clara: sucesso de parada não vale tanto quanto uma canção capaz de sustentar uma carreira. O curioso é que "YMCA", mesmo sendo tudo aquilo que ele desprezava, também sustentou sua própria vida pública. Não como riff respeitado por guitarristas, mas como hino popular que ninguém conseguiu enterrar. A diferença está no tipo de eternidade. O AC/DC construiu a sua com amplificadores, palhetadas e refrões de estádio. O Village People construiu outra com coreografia, humor e um refrão que virou patrimônio informal das festas. Angus podia desprezar a música, mas o mundo decidiu não esquecê-la.
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