O ex-colega de banda no Pink Floyd com quem David Gilmour nunca mais falou
Por Bruce William
Postado em 29 de junho de 2026
A história do Pink Floyd costuma ser contada pelo conflito entre Roger Waters e David Gilmour, com processos, ressentimentos, declarações atravessadas e décadas de uma tensão que nunca pareceu se resolver completamente. Mas há outra ausência na trajetória da banda que pesa de maneira diferente. Menos como briga pública, mais como ferida silenciosa.
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Syd Barrett foi o primeiro grande centro criativo do Pink Floyd. No início, era ele quem dava ao grupo parte essencial de sua identidade: as canções estranhas, o imaginário psicodélico, o senso de aventura e uma forma de escrever que parecia ao mesmo tempo infantil, brilhante e inquietante. "The Piper at the Gates of Dawn", de 1967, carrega muito desse mundo.
O problema é que Barrett começou a se afastar da própria banda enquanto ela ainda tentava entender o que estava acontecendo. Sua saúde mental se deteriorou, os shows ficaram imprevisíveis e o grupo precisou lidar com uma situação dolorosa: seguir em frente sem a figura que havia ajudado a tornar o Pink Floyd possível. David Gilmour entrou justamente nesse período, primeiro como reforço, depois como substituto.
Essa posição nunca foi simples. Gilmour conhecia Barrett antes do Pink Floyd e não estava chegando a uma banda qualquer. Entrava no lugar de alguém que era amigo, referência e ausência ao mesmo tempo. Com o tempo, o Pink Floyd se tornaria gigantesco sem Syd, mas a sombra dele continuaria atravessando a obra do grupo.
"Wish You Were Here", lançado em 1975, foi o momento em que essa ausência apareceu de forma mais explícita. O álbum dialogava com o vazio deixado por Barrett, especialmente em "Shine On You Crazy Diamond". Durante as sessões, Syd apareceu inesperadamente no estúdio, já muito diferente da imagem que os antigos companheiros guardavam dele. Foi uma visita que virou uma das cenas mais dolorosas da mitologia do rock.
Segundo a Far Out, Gilmour nunca voltou a falar com Barrett depois daquele encontro. Anos mais tarde, ao lembrar do antigo colega, o guitarrista admitiu que carregava arrependimento por não ter insistido em vê-lo novamente. "Foi um desperdício trágico. Também senti um grande arrependimento por não ter ido vê-lo durante todos aqueles anos. A família dele tinha dito que seria melhor se as pessoas não fossem. Mas eu não teria pensado que isso se aplicaria a mim. Então me arrependo de não ter sido mais insistente."
Há uma delicadeza difícil nessa história. A família de Barrett queria preservá-lo, e isso precisa ser respeitado. Ao mesmo tempo, Gilmour ficou com a sensação de que talvez devesse ter insistido mais, justamente por não ser apenas "alguém do passado". Ele era parte daquela história desde antes da fama, antes das capas clássicas e dos estádios.
Roger Waters já afirmou, em outro contexto, que boa parte de seu luto por Barrett havia acontecido anos antes da morte dele. Barrett estava vivo, mas o amigo criativo, carismático e imprevisível que eles conheceram parecia ter desaparecido muito antes. É uma forma cruel de perda: a pessoa continua no mundo, mas algo essencial na relação já não pode ser recuperado.
Gilmour viveu essa distância de outro jeito. Seu arrependimento não parece ligado à banda, nem ao legado, nem a alguma reconciliação pública que os fãs gostariam de imaginar. Era algo mais simples e mais humano: a vontade tardia de ter visto o amigo mais uma vez, de ter atravessado a barreira do cuidado familiar e encontrado um fechamento que nunca veio.
O Pink Floyd construiu parte de sua grandeza em cima de ausências. A loucura, a alienação, a desconexão e a perda aparecem em suas músicas não como temas abstratos, mas como coisas que tocaram diretamente a vida dos integrantes. Syd Barrett foi talvez a ausência mais decisiva de todas.
David Gilmour seguiu adiante, ajudou a levar o Pink Floyd a uma escala imensa e se tornou uma das vozes instrumentais mais reconhecíveis do rock. Mas o silêncio entre ele e Barrett ficou como uma dessas pequenas tragédias pessoais que não cabem em números de venda nem em disputas de liderança. Às vezes, o que permanece não é o que foi dito. É justamente a conversa que nunca aconteceu.
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