Shane Embury (Napalm Death) fala abertamente sobre luta contra o alcoolismo
Por João Renato Alves
Postado em 24 de junho de 2026
Durante entrevista ao The False Face, o baixista Shane Embury falou sobre o problema de saúde que o tirou da turnê do Napalm Death com o Melvins, ano passado. Não foi a primeira vez que o músico se viu na situação, o que o fez reconhecer a necessidade de promover algumas mudanças na vida pessoal.
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"Já tive idas e vindas com doenças, provavelmente há bastante tempo. No geral, minha saúde tem estado bem. Tive muita sorte, na verdade, porque sofri do que chamam de pancreatite. Tive isso umas três vezes na vida, em momentos diferentes, cheguei a ficar internado três vezes. Tive bastante sorte de conseguir me recuperar."
Ao falar sobre o que o levou à situação, Shane não se escondeu atrás de desculpas. "Foi por causa da bebida. A gente não gosta de pensar que é alcoólatra. Você acha que tem controle porque sai em turnê, volta e depois desliga a chave. Já fiquei muito tempo sem beber, mas nos últimos anos o hábito acabou voltando aos poucos, somado a vários outros problemas. Na turnê com o Melvins, aguentei umas três semanas e tive que sair. A situação poderia ter ficado muito feia. Estou muito melhor agora do que estava nesta mesma época no ano passado, com certeza - mentalmente, fisicamente, em todos os aspectos. Consegui me recuperar, por assim dizer, relativamente rápido. Dizem que os alcoólatras são muito resistentes nesse sentido."
Embury também revelou ter buscado ajuda pela primeira vez em uma reconhecida instituição. "Fui a algumas reuniões dos Alcoólicos Anônimos, algo que nunca tinha feito antes. Achei a experiência interessante sob vários pontos de vista: ouvir os relatos e ler o 'grande livro azul', como eles chamam. Pensei: 'Certo, me reconheço nessas páginas'. Também tenho me interessado bastante pela psicologia junguiana (teorias e práticas psicológicas desenvolvidas pelo psiquiatra suíço Carl Jung), que é um aprendizado constante. Não dá para simplesmente aplicar tudo a si mesmo, porque cada pessoa é diferente. Mas toda aquela questão de olhar para a sua sombra interior, para a sua persona, para o ego e outras coisas... Então, somando isso ao AA, senti-me um pouco mais preparado desta vez para tentar lidar com a situação. E, claro, a vida na estrada é muito diferente da vida em casa."
O instrumentista também reconheceu a importância do apoio dos colegas de banda durante o processo. "Você precisa começar a olhar para si mesmo e pensar: 'Bom, talvez eu seja uma grande parte do que está acontecendo aqui. O que é isso?' E o pessoal do Napalm me deu muito apoio, estavam preocupados comigo. Provavelmente não queriam acordar e me encontrar morto no beliche. Ninguém gostaria disso, é claro. Foi uma atitude bem irresponsável da minha parte também, na verdade. Mas aí eu me pergunto: 'Que diabos me levava a abusar do meu corpo daquele jeito?'. Porque, superficialmente, dá para dizer: 'Bom, você é um cara bem-sucedido'. Tenho minha família, tenho vários projetos; então, por que levar as coisas a extremos assim? Tem sido uma busca entender o que desencadeava tudo aquilo. Fazer turnê já tinha ficado um pouco difícil para mim antes disso - não a turnê em si, mas a quantidade. Em certo momento, estava tocando com quatro ou cinco bandas, sempre forçando. Você sofre um esgotamento. Seu corpo precisa te avisar, seu espírito interior ou o que quer que seja."
Embury finalizou admitindo que também havia problemas em casa que agravavam seu comportamento errático. "Principalmente durante a pandemia, a relação com minha família ficou tensa às vezes, porque gosto de pensar que, no geral, sou uma pessoa legal. Mas há momentos em que me torno um verdadeiro pesadelo de conviver. Fico pensando: 'Nossa, o que está acontecendo aqui?'. Então, todo esse processo de autoconhecimento - ou individuação, como chamam em termos junguianos - serve para tentar encontrar a sua versão autêntica.
Mesma coisa em turnê, as pessoas dizem: 'Ah, você é ótimo. Você é maravilhoso. Você é isso, você é aquilo'... Gosto de tentar manter a modéstia, mas você ouve tanto isso e não vale nada quando volta para casa. Lá você precisa ser pai, marido e gente boa. Nunca me vi agindo daquele jeito - aquela coisa de 'astro do rock'; sempre tentei ir contra isso, de certa forma. Mas, às vezes, você acaba trazendo isso para dentro de casa. E eu não curto muito esse lado. Assumo a responsabilidade por tudo isso, de verdade."
Além de seguir na estrada com o Napalm Death, Shane Embury lançou recentemente o álbum solo "Bridge to Resolution". O disco tem influências sonoras de bandas como Cocteau Twins, Killing Joke e The Mission. Também finalizou o terceiro álbum do Insidious Disease, que ainda conta com o guitarrista Silenoz (Dimmu Borgir) e o vocalista Marc Grewe (ex-Morgoth).
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