Como o Aerosmith terceirizou a escrita da própria volta por cima nos anos 80
Por Lucas Caldeira
Postado em 13 de setembro de 2026
Em 1980, sem banda e sem dinheiro, Joe Perry vendeu sua Gibson Les Paul de 1959 pra conseguir passar o Natal. Sete anos depois, o guitarrista estava de volta ao topo das paradas com o Aerosmith, num álbum que reergueu a carreira do grupo, "Permanent Vacation". A história que costuma ser contada sobre essa virada é de superação pessoal, a banda que largou as drogas e voltou por mérito próprio. A parte que raramente aparece é que boa parte das músicas que salvaram o Aerosmith não foram escritas só pela banda.
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Pra entender o tamanho do buraco, vale lembrar de onde a banda estava saindo. Perry tinha deixado o grupo em julho de 1979, depois de uma briga nos bastidores logo após um show, no meio do ciclo de gravação de "Night in the Ruts", em meio a desconfiança sobre como o dinheiro da banda estava sendo administrado. O guitarrista Brad Whitford saiu dois anos depois, em 1981, relatando ter vendido guitarras e a própria casa pra cobrir pensão e hipoteca. Sem os dois, o Aerosmith gravou "Rock in a Hard Place" (1982), que não vendeu, enquanto o baterista Joey Kramer descrevia estar sem nenhum dinheiro sobrando.
A formação original voltou a se reunir em 1984, mas o relançamento não emplacou de imediato. "Done with Mirrors", de 1985, vendeu abaixo do esperado e não trouxe de volta a banda que enchia estádios na década anterior. Foi só depois do sucesso inesperado de uma regravação, "Walk This Way" ao lado do Run-DMC em 1986, que o Aerosmith voltou a aparecer na MTV e no rádio, chamando a atenção da gravadora Geffen para investir pesado na recuperação do grupo.
Foi o executivo da Geffen, John Kalodner, quem desenhou o resto do plano. Ele contratou o produtor Bruce Fairbairn, recém-saído do sucesso de "Slippery When Wet", do Bon Jovi, e trouxe pra dentro do estúdio três compositores contratados especificamente pra escrever hits: Desmond Child, Jim Vallance e Holly Knight. Foi a primeira vez na história do Aerosmith que a banda dividiu crédito de composição com profissionais de fora, e o resultado foram três dos maiores sucessos do álbum "Permanent Vacation": "Dude (Looks Like a Lady)", escrita com Child, "Angel", também com Child, e "Rag Doll", com Vallance e Holly Knight.
A colaboração nem sempre foi tranquila, e a própria "Rag Doll" mostra isso bem.
A faixa se chamava originalmente "Rag Time", até Kalodner decidir que a referência não dizia nada pro público jovem que a gravadora queria atingir. Depois de descartar várias tentativas de Tyler e Vallance pra resolver o título, ele chamou Holly Knight só pra esse ajuste. Ela trocou uma palavra, "Time" virou "Doll", e ficou com crédito de composição pela mudança. Tyler contaria depois, na autobiografia da banda, que a decisão o irritou na hora. Ainda assim, o grupo optou por dividir o crédito e seguir em frente.
"Permanent Vacation" vendeu mais de 5 milhões de cópias só nos Estados Unidos e chegou à 11ª posição da Billboard 200, o maior sucesso comercial do Aerosmith até então. Dois anos depois, "Pump" repetiu a mesma fórmula, produtor e compositores contratados incluídos, e vendeu ainda mais. Uma das faixas, "The Other Side", escrita com Vallance, soou tão parecida com "Standing in the Shadows of Love", clássico dos Four Tops, que o acordo pra evitar processo por plágio terminou com a dupla Holland-Dozier-Holland, autora do original, dividindo o crédito de composição também.
Tyler e Perry continuavam escrevendo parte das letras e melodias, e eram eles que carregavam o show todas as noites. Ainda assim, o mito de uma recuperação espontânea, a ideia de que bastou ficar sóbrio pra voltar ao topo, esconde uma decisão de negócio bem específica: a de tratar composição de hit como um ofício que se contrata, do mesmo jeito que se contrata um produtor ou um engenheiro de mixagem.
Anos depois, já com o Aerosmith de volta ao topo, Perry tentou recomprar as guitarras que vendera na pior fase.
Descobriu que a Les Paul de 1959 tinha passado por outras mãos até chegar às de Slash, guitarrista do Guns N' Roses que cresceu ouvindo o próprio Aerosmith. Slash devolveu o instrumento de presente no aniversário de 50 anos de Perry. O dinheiro que faltou pra pagar o Natal de 1980 voltou, décadas depois, na forma do instrumento que ajudou a criar.
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