A diferença dos fãs de metal nos EUA e Europa e no Brasil, segundo produtor do ProgPower
Por Gustavo Maiato
Postado em 20 de outubro de 2026
Há mais de uma década, Milton Mendonça observa de perto como se comportam as plateias de metal em diferentes partes do mundo. Coprodutor do ProgPower USA desde 2013, ele assume sozinho o festival de Atlanta a partir de 2027. Em 2026, o evento encerrou a era do fundador Glenn Harveston depois de 25 edições, 22 delas com ingressos esgotados. Milton também é empresário da Maestrick e tour manager de nomes como Nevermore, Evergrey e Elvenking. Na última segunda-feira (12), ele participou da live semanal do canal Ibagenscast.

Um dos momentos mais diretos da conversa veio de uma pergunta do chat. Uma integrante do clube de membros quis saber quais as diferenças entre o público de metal do Brasil e o dos Estados Unidos. Também pediu um conselho a quem deseja construir carreira fora do país. Milton começou pela segunda parte, sem rodeio: "Me enche muito o saco quando eu respondo isso, mas o primeiro passo para criar carreira e relevância musical fora do Brasil é aprender a falar inglês. Ponto final." Segundo ele, a resposta parece óbvia, mas muita gente ainda não a leva a sério.
"Obviamente o público do Brasil é muito mais caloroso, canta o show inteiro, vibra mais, é muito mais bagunça. Mas o público brasileiro é, como é que eu posso dizer? Ele é mais saudosista. Tem medo, preguiça, não sei, de escutar coisas novas, de tentar se manter atualizado. Não querem fazer pesquisa, não querem ouvir as bandas novas que estão acontecendo, querem escutar Iron Maiden pela septuagésima vez hoje, entendeu? O Brasil é o único país no mundo em que o Guns N' Roses ainda é muito relevante, por exemplo. É óbvio que eu tô exagerando, mas você entende o que eu tô dizendo."
Milton lembrou que já tinha tocado no tema em outras visitas ao canal. Para ele, o resultado prático é uma plateia que caminha alguns passos atrás das estrangeiras. "Acho que o pessoal tá confortável escutando as bandas de que já gosta, não quer se esforçar para conhecer coisa nova. Acho que essa é a diferença. O público daqui, o público da Europa tendem a ir atrás de coisas novas, e eu não vejo isso tanto aí no Brasil", afirmou o produtor, que vive nos Estados Unidos.
O mesmo raciocínio aparece quando o assunto é levar artistas brasileiros ao ProgPower USA. Milton garante que acompanha o mercado nacional, mas diz que faz tempo que não surge um nome que se encaixe no festival. Ele lembrou que cada contratação envolve custo e precisa trazer retorno ao evento. "Muita gente não entende que não é só a banda ser boa. Legal, tem muita banda boa lá fora. Mas o que o ProgPower ganha levando uma banda dessa?", questionou. Como possibilidade, citou o Papangu, que já se apresentou em festivais europeus de progressivo e com quem ele já conversou.
A cobrança por novidade também vale para quem compõe. Ao comentar "Zion", novo clipe da Maestrick, Milton mirou parte da cena nacional: "Existem muitas bandas que aparecem falando que querem fazer um som moderno, só que é o som do que eles estão ouvindo agora, que já era moderno há dez anos". Sobre o rumor ainda não confirmado de uma volta do Shaman com Thiago Bianchi, ele desejou sorte aos envolvidos. Lamentou, porém, que o país não consiga "escapar do Angraverso" e defendeu bandas novas para o metal brasileiro não ficar "ainda mais refém desses nomes".
Convidado a deixar um recado final, Milton voltou ao assunto e admitiu que a fala já tinha gerado discussão na participação anterior. Mesmo assim, repetiu o apelo: "Gente, vai escutar música nova, vai procurar banda nova. Não fiquem na mesmice. Iron Maiden é legal? É. Vai ter banda igual Angra no Brasil? Nunca mais. Mas não deixa de escutar banda nova. Vai atrás, porque é só assim que a cena, o mercado vai continuar andando." O produtor deve voltar ao canal no fim do ano para comentar os melhores discos de 2026.
Confira o vídeo completo abaixo.
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