Ninguém tinha sobrenome na casa onde os Rolling Stones gravaram "Exile on Main St."
Resenha - Exile on Main St. - Rolling Stones
Por Lucas Caldeira
Postado em 11 de outubro de 2026
Robert Greenfield passou agosto de 1971 na Villa Nellcôte, no sul da França, escrevendo sobre os Rolling Stones pra Rolling Stone. Na casa, pessoas chegavam e iam embora sem que o repórter soubesse quem eram. "Ninguém tinha sobrenome", lembraria ele mais tarde. No porão daquela mansão, a banda trabalhava em "Exile on Main St.", disco duplo lançado em maio de 1972.
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O álbum costuma ser descrito como um registro de festa, com som turvo, irregular e um clima de noite que entra pela madrugada. Textos sobre o disco associam essa atmosfera às sessões de Nellcôte, com um elenco de músicos que mudava de um dia pro outro. Fica uma pergunta: quanto de uma noite só cabe num disco cujas gravações se estenderam de 1969 a 1972?
A casa tinha 16 cômodos e ficava em Villefranche-sur-Mer, perto de Nice. Os Rolling Stones foram viver na França em 1971 por causa de questões com impostos, e Keith Richards alugou a propriedade. Sem estúdio profissional por perto, o grupo estacionou o estúdio móvel da banda do lado de fora e montou o equipamento no porão, dividido em salas pequenas onde era difícil acomodar instrumentos e músicos ao mesmo tempo. Keith já comparou o trabalho ali a gravar num bunker.
O ritmo seguia o da casa. Segundo relatos, o baixista Bill Wyman muitas vezes era o único a aparecer nas gravações marcadas pra noite. Greenfield viu Mick Jagger esperar em vão que Richards aparecesse pra começarem a compor juntos, até ir embora desapontado. O baterista Charlie Watts resumiria o método de Keith no documentário "Stones in Exile": tocar uma música 20 vezes, deixar marinar e tocar outras 20. Em setembro de 1971, segundo o pesquisador Jack Vanderwyk, ladrões saíram pelo portão em plena luz do dia com nove guitarras de Richards, o saxofone de Bobby Keys e o baixo de Wyman, enquanto os moradores assistiam TV na sala.
Só que o porão de Nellcôte é um dos capítulos de uma história mais longa. As primeiras gravações aconteceram no Olympic Studios, em Londres, a partir de junho de 1969. Parte do material também saiu de Stargroves, casa de campo de Jagger. As bases iniciadas na França seguiram pra Los Angeles, onde, entre dezembro de 1971 e março de 1972, a banda acrescentou teclados, vocais e camadas de guitarra e baixo no Sunset Sound. Mick Jagger, que passou parte do período fora de Nellcôte, assumiu a frente dessa etapa e chamou músicos como o tecladista Billy Preston e Dr. John. Greenfield escreveu sobre o overdub e a mixagem em Los Angeles para a Rolling Stone, em 1972.
A revista Uncut registrou, em 2022, que Nellcôte forneceu a matéria-prima e a atmosfera abafada do disco, num trabalho construído ao longo de vários anos. Jennifer Herrema, do Royal Trux, ouvida na mesma reportagem, descreve a maior parte das músicas como algo próximo de um take único, que depois foi levado da França a Los Angeles pra ganhar brilho. Entre a impressão de captura espontânea e o calendário real, há um intervalo de quase três anos e uma sequência de endereços.
Em Nellcôte, ninguém sabia ao certo quem estava na casa, a que horas a sessão começaria ou quem apareceria no porão. "Exile on Main St." também não revela de onde veio cada coisa: Londres, Stargroves, França e Los Angeles aparecem misturados no mesmo disco. Quase três anos de gravações chegam ao ouvinte como se tivessem acontecido numa única noite.
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