Hojerizah: uma banda que deve ser revisitada (sempre)

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Por Paulo Faria
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"Até por seu amor não ter dado em nada, nem sobrancelhas eriçadas, o Hojerizah me fascina há décadas" (Arthur Dapieve, jornalista)

Parte da minha formação cultural se deve ao rock ‘n’ roll, e obviamente, acredito eu, de todos os leitores do Whiplash. Mas, dentro do universo ‘rock’, tenho um amor ainda mais especial por quase tudo de rock que fora criado no Brasil entre 1980 e 1990 – o que o jornalista Arthur Dapieve batizou como "BRock", o rock brasileiro dos anos 80.

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Mesmo sendo uma amante voraz de toda aquela cena; de já ter escutado centenas e centenas de álbuns; de ter tido meu trabalho final de faculdade de História baseado no tema; e de já ter escrito vários artigos para o Whiplash sobre a cena roqueira brasileira dos anos 80 como você pode conferir clicando no links abaixo, pode ser que um ou outro grupo tenha me passado por despercebido. O problema, neste caso, é quando o grupo que passa despercebido é o HOJERIZAH. Mas como, Paulo? Explico.

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Embora eu possuísse os dois álbuns oficiais da banda, e já curtisse muito as músicas "Tempestade em Viena" e a aclamadíssima "Pros que estão em Casa", as primeiras tentativas de sentar e apreciar de fato todas as músicas acabaram por me ser um pouco enfadonhas. Talvez pelo vocal operístico de TONI PLATÃO que somado a um instrumental com linhas pouco comerciais – levando em consideração o padrão do rock brasileiro cantado em português na época –, não me trouxesse tanta empolgação num primeiro momento. E não estou dizendo que a voz de TONI PLATÃO é ruim, pelo contrário, é uma das melhores vozes que já ouvi de um cantor de rock. O que quero expressar aqui é que talvez eu não tenha dado a devida atenção ao HOJERIZAH num momento de distração ou até de má vontade, mesmo. Mas o que então me fez enfim prestar a atenção na turma de TONI PLATÃO?

Os contemporâneos do HOJERIZAH, UNS E OUTROS, fizeram um trabalho maravilhoso revisitando a canção "Pros que estão em Casa" de uma forma bem singela, sutil, numa levada acústica e com uma textura bem suave, como pede o estilo. Adorei a versão, e por conta disso, quis rever a original e aproveitar para "dar mais uma chance" aos caras, porém, desta vez, tentando apreciar todo o conjunto da obra do HOJERIZAH. E aí começaram as surpresas.

Na música que abre o álbum autointitulado de 1987, "Passos", de cara aquela pegada à lá THE SMITHS, porém, com aquela vocalização "caótica" de Platão mandando na cara "Não espere que algum dia eu lhe sirva numa bandeja tudo que você esperou". Na segunda faixa, "Tempestade em Viena" (a minha preferida da bolacha junto a "Pros que estão em Casa"), a agressividade de um contrabaixo pulsante misturado às inserções operísticas dos vocais são cortados sem piedade por um dedilhado de violão maravilhoso, e em seguida a pergunta"Por que temer viver só já que morremos sozinhos?". A partir daqui você cai na real que está diante de uma banda muito acima da média; de uma pequena obra-prima em forma de notas musicais.

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Não ficarei aqui resenhado o primeiro disco inteiro da banda pra não parecer presunçoso e também pra não entediar você, leitor; mas citarei elementos cruciais para provar o porquê de HOJERIZAH ser uma das melhores bandas dos anos 80, mas injustamente "esquecida". (Reparem as aspas).

Afora a excepcionalidade de todos os músicos as composições intrigam a qualquer bom observador e ouvinte quando você quer saber quem de fato é o "pai da criança", e então você chega a um certo sujeito que atende pelo nome de FLÁVIO MURRAH: garoto responsável pelo sopro que dá vida às músicas. Além dos arranjos fantásticos de guitarra, as letras te arrancam suspiros maiores. Não sei em que diabos de vibe estava FLÁVIO MURRAH ou que tipo de inspiração o cara recebeu, mas tem horas que ouvindo HOJERIZAH você implora: "Pega mais leve, Flavinho! ". Duvida? "E tudo me parece pendente como um pescoço depois de enforcado/Pode ser que deus goste de mim, mas o demônio é meu próximo" (Pessoas); "E hoje resolvi sentar numa das pontas da lua minguante/Sente na outra por favor" (Pessoas). Mais: "O tempo é outro e as esperanças ficaram dentro do quarto ou na lâmina de uma gilete" (Roma); "Suas sementes me fazem provar/Férteis serão em bocas de sim/Acima de tudo, o todo alcançar/Um breve silêncio os faz sufocar (Sol).

À certa altura você só quer pedir piedade, mas sempre volta a faixa porque num gesto masoquista quer ouvir de novo e de novo TONI PLATÃO com sua voz aveludada e a trupe que o acompanha esmurrar seus ouvidos com a poesia neogótica de FLÁVIO MURRAH, e aí quando parece surgir no horizonte algum pingo de condescendência ao passar por uma faixa ou outra, você se depara com o "Tempo Passa" e então você se conforma que com HOJERIZAH não vai existir nenhum gesto de piedade: "Talvez exista uma ponta nessa corda aonde você possa se segurar/Aonde você possa se pendurar até o fim da sua vida/Ou que alguém o abençoe".

Façamos justiça com todos: HOJERIZAH é uma banda completa sobre todos os aspectos. Se reservei diversas linhas para falar das composições, da guitarra e do vocal de TONI PLATÃO, não posso ser injusto em não deixar aqui minhas considerações sobre MARCELO LARROSA, que empunha seu baixo como uma britadeira e ÁLVARO ALBUQUERQUE na bateria dando sustentação à banda com baquetadas fenomenais como em "Tempestade em Viena".

Numa conversa por Whatsapp que tive com MARCELO HAYENA (UNS E OUTROS) em que elogiei a releitura de "Pros que estão em casa", aproveitei para falar que estava "decepcionado" comigo mesmo por não ter prestado mais a atenção no HOJERIZAH antes, e que também não entendia a obsessão do jornalista Arthur Dapieve pela banda. Sim, o autor do livro "BRock: o rock brasileiro dos anos 80" tem verdadeira obsessão pelo HOJERIZAH, e ele deixa claro isso em seu livro assim como em artigos que o caro leitor pode buscar pela internet. Claro, que depois de ouvir e assimilar HOJERIZAH, fui entender esta obsessão.

Oficialmente o grupo lançou dois álbuns: o autointitulado de 1987 e "Pele", de 1988. E fica no ar aquele questionamento de o porquê a banda, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, não ter "ido mais longe". Esse é o tipo de mistério que ninguém poderá responder. Mas de qualquer forma, mesmo não tendo a exposição que muitos outros grupos da época tiveram nem a vendagem, o importante é que o nome da banda está escrito com toda reverência que ela merece na história do rock brasileiro.

HOJERIZAH é uma banda pra se ouvir, ler e sentir.




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Sobre Paulo Faria

Paulo Faria tem um montão de anos; é um amante do cinema de horror, literatura e rock 'n' roll. É professor por formação, humorista por conveniência, músico por obsessão e escritor por aspiração.

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