Big Joe Turner - Trovoada na Voz, Rock 'n' Roll na Alma
Por Márcio Ribeiro
Postado em 24 de novembro de 2000
Big Joe Turner, com um corpo grande e obeso e uma voz volumosa e ressonante, conseguia sacudir qualquer casa sem precisar de um microfone. Um dos originais "shouters" - gritadores, estilo que renderia filhos como Little Richard, Arthur Alexander e vários outros, duas décadas depois de seu auge.
Nasceu em 18 de maio de 1911, com o nome de Joseph Vernon Turner, na cidade de Kansas City. Quando o pai morreu em um acidente de carro, Turner, aos 15 anos de idade, foi obrigado a deixar a escola e ajudar a levantar dinheiro para sustentar a casa. Ele e sua irmã mais velha, Katie, trabalhavam como engraxates de rua, onde ele aproveitava e cantava por alguns trocados. Na parte da manhã, trabalhava como cozinheiro em um hotel, preparando o café da manhã dos hóspedes. No ano seguinte, começou a freqüentar o Backbiter's Club, onde assistia os músicos que admirava: Count Basie, Mary Lou Williams, Lester Young e toda aquela geração de gigantes. Um dia tomou coragem e pediu a Pete Johnson, um pianista de boogie-woogie, que o deixasse cantar. Johnson gostou do que ouviu e passaram a formar uma dupla. Era 1929 e Turner tinha apenas 18 anos.
Joe Turner e Pete Johnson passaram a tocar no Black & Tan Club, onde Turner atendia no bar e depois tinha um set com Johnson, o pianista residente da casa. Em 1936 saíram de Kansas City, onde Turner visitou Chicago, St. Louis e Omaha pela primeira vez. Perto do Natal, já de volta a Kansas City, apresentaram-se no Sunset Club, onde conheceram John Hammond. Assim, Joe Turner é imediatamente convidado a se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, no espetáculo de Hammond, From Spirituals To Swing, o primeiro trabalho da raça branca nos Estados Unidos a tentar apresentar a música negra como uma expressão artística e cultural legítima. Hammond procurava Robert Johnson mas acabaria por descobrir que este havia morrido. Joe Turner e Pete Johnson se apresentaram então no Carnegie Hall para a elite branca nova-iorquina, na véspera de Natal de 1938.
A apresentação rendeu um convite para uma gravação e no dia 30 de dezembro gravaram para Vocalion Records, "Goin' Away Blues/Roll 'Em Pete". Voltaram para Kansas City, mas dentro de um ano estariam de volta a Nova York, deixando Kansas para trás. Logo a dupla iria caminhar por estradas musicais diferentes, Pete Johnson continuando com o boogie-woogie e jazz enquanto Joe Turner, aos poucos, ia caminhando para o gênero que seria futuramente chamado de rock 'n' roll.
Durante a década de 40, Turner gravaria uma extensa quantidade de material por diversas gravadoras e com diversos músicos diferentes, nunca se prendendo a uma só banda.
Entre seus primeiros clássicos estão "Joe Turner's Blues," "Beale Street Blues," "Piney Brown Blues," "Wee Baby Blues," "Rock Me, Mama", "Corrine, Corrine," "Nobody In Mind," e "I Got Love For Sale". Em 1951, Turner, já devidamente apelidado de Big Joe Turner, podia se orgulhar de ter cinqüenta compactos em catálogo, feito difícil para uma época onde as residências dos negros nem sempre tinham um rádio, muito menos uma vitrola. É sempre bom lembrar, ao analisar esses fatos históricos, que somente após 1964 nos Estados Unidos é que negros e brancos passaram a ter direitos legais iguais. Pelo menos no papel. Antes disto, havia a cultura da segregação muito bem enraizada, principalmente no sul e meio oeste.
Em abril de 1951, Big Joe Turner foi convidado a cantar com seu herói de infância, Count Basie, no notório Apollo Theater, no Harlem. Foi após este show que ele recebeu um convite para assinar com a Atlantic Records, que não perdeu tempo em gravar e lançá-lo costa-a-costa. Seu primeiro disco pela gravadora, "Chains Of Love", chegou a nº 2 e permaneceu entre os Top 100 por seis meses. Seus outros sucessos seriam "Honey Hush", "Sweet Sixteen" e "TV Mama." Mas foi em 1954, já aos 42 anos de idade, que ele gravaria a canção pela qual sempre será lembrado, "Shake, Rattle And Roll". A canção, escrita especialmente para ele por Jesse Stone, sob o pseudônimo de Charles E. Calhoun, foi gravada em 9 de fevereiro daquele ano e lançada em abril.
Ele regravou "Corrine, Corrine", que seria a única gravação sua a freqüentar não só as paradas de r&b como também a de pop, e se apresentou no filme "Shake, Rattle And Rock" em 1956, cantando o grande hit também entre a juventude branca, graças à versão gravada por Bill Haley & The Comets. Quando perguntado a respeito de ser precursor de um estilo novo, ele diria apenas "Rock 'n' roll não é nada mais do que um nome diferente para o mesmo tipo de música que ando cantando por toda a minha vida". Continuaria a gravar pela Atlantic até 1961 embora o público não estivesse mais interessado, ou sequer se lembrasse mais dele.
Big Joe Turner, com sua voz que mais lembrava uma trovoada de tão alta e ressonante, jamais parou de cantar ou de se apresentar. Na década de 70, Turner poderia ser ouvido, alto e claro em qualquer palco mesmo de bengala. Continuou gravando discos para pequenas gravadoras até a década de 80. Em 1985, com complicações no fígado, o homem, o mito Big Joe Turner morreu sem deixar herdeiros.
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